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'Léo e Bia', na busca de um singelo sonho

O cantor e compositor Oswaldo Montenegro fala sobre seu primeiro filme, feito sem patrocínio

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2010 | 06h00

Oswaldo Montenegro, quem diria, virou cineasta, e bom. A rigor, não existe motivo para surpresa, porque Léo e Bia, que marca sua estreia na direção, surgiu como espetáculo de teatro, que ele também criou. Sempre houve, de parte do menestrel, o desejo de fazer cinema, vertendo para a tela a experiência do palco. Ele conseguiu, num formato ousado e graças ao empenho de um elenco afinado, do qual ressalta a ex do cantor, compositor e agora diretor de cinema, Paloma Duarte. Ela ganhou o prêmio de melhor atriz no Cine PE - Festival do Recife. Até por Paloma, mas com certeza também por Montenegro, em seu voo ousado, vale ver o filme que estreia hoje na cidade. Vá sem preconceito, deixe-se surpreender.

 

Não foi um desejo intempestivo que o levou a virar cineasta. Você pode contar como foi o processo?

Acho que secretamente sempre quis dirigir um filme, mas foi uma coisa que veio amadurecendo em mim. Primeiro, a música, depois, o teatro. E sempre essa coisa do menestrel. O crítico Yan Michalski refletiu muito sobre o assunto quando fiz Léo e Bia no palco. Analisou meu trabalho à luz da tradição dos menestreis, que é uma coisa muito antiga. O menestrel, como poeta e cantor, como músico ambulante a serviço de um senhor, remonta à época medieval. Retomei essa tradição, na música e no teatro e, de certa forma, queria dar continuidade a esse trabalho no cinema. Sempre quis fazer um filme, mas o meu filme teria de ter uma ideia e não, simplesmente, competir com a estética do cinema grande. Ao longo de minha carreira, e tenho muitos anos de estrada, sempre desfrutei o privilégio da liberdade, de fazer as coisas que queria, como queria. O cinema também surgiu sem imposição nenhuma de mercado. Fiz o filme com meu dinheiro, sem patrocínio e, aliás, pouco dinheiro. Léo e Bia, na tela, só foi possível graças à garra do elenco, formado na maioria por jovens. Todo mundo ralou, deu duro, trabalhou a troco de nada, pelo amor ao projeto. Ensaiamos durante cinco meses, sem essa dedicação e entusiasmo não haveria filme.

 

De onde veio a vontade de contar essa história do tempo da ditadura militar?

Ela sempre esteve em mim. Jovem de classe média, morava em Brasília e não sentia na pele os efeitos da repressão do regime militar. Mas eu sabia o que estava se passando. Léo e Bia nasceu desse desejo. O filme conta a história desses jovens que, no auge da ditadura, resolvem viver de arte. São sete amigos, uma delas sofre a ditadura da mãe opressora, e todos eles querem realizar seus sonhos. É uma história basicamente simples, mas eu queria contá-la de uma maneira particular.

 

O filme lembra muito Dogville, de Lars Von Trier. Não tem cenários nem objetos. É tudo muito estilizado. Não é pretensioso começar nesse patamar?

Era o que eu queria. Na minha cabeça, Léo e Bia nunca foi uma história para se contar realisticamente. Queria uma interpretação realista e, como já contei, o elenco deu duro, foi de uma entrega maravilhosa, mas queria o estranhamento de colocar esse realismo da interpretação num ambiente irreal e até surreal. Dogville foi uma referência, sim, mas queria fazer do meu modo. O único objeto realista do filme é a corda, mas ela adquire múltiplos significados e funções. E queria que, como musical, Léo e Bia também fugisse do padrão. A música entra e o sujeito está ali tocando, ao vivo, não importa de onde saiu.

 

Tenho colegas críticos de cinema que acharam o filme pretensioso e outros de música que estão contentes com sua vinda para o cinema porque, dizem, assim você abandona os discos e shows. O que diz da sua fama de chato?

Olha, todo artista que se preze tem de ter uma marca, e tenho a minha. Dizem que sou chato. Me incomoda? Não. Prefiro ser polêmico na arte e unanimidade na minha casa. Seria muito ruim, muito chato se fosse o contrário. Mas não estou parando com a música. Tenho vontade de fazer outro filme, mas tem de ser nas mesmas condições do primeiro, com a mesma liberdade.

 

O tema da amizade é essencial em Léo e Bia. Você foi casado com Paloma Duarte. Sua câmera parece apaixonada por ela.

E eu sou apaixonado por ela. Nos separamos, mas não faz sentido viver com uma mulher sete anos, amando-a, e depois separar, cada um para seu lado. A amizade ficou, é forte. Para eu ficar inimigo de ex-mulher, só se ela quiser muito. A amizade, também com as ex-mulheres, com a Paloma, é fundamental para mim.

 

Crítica: Amor e amizade, em uma evocação aos anos de chumbo

Madalena Salles era flautista da Orquestra Filarmônica de Brasília quando conheceu Oswaldo Montenegro. Ambos tinham 17 anos e começaram a namorar. Madalena inspirou a personagem de Paloma Duarte em Léo e Bia. É significativo que o diretor estreante tenha buscado um amor recente (Paloma), para reconstituir um antigo (Madalena). Nos dois casos, a relação acabou, mas não o afeto, que permaneceu sob a forma de amizade.

 

Léo e Bia é, até certo ponto, uma raridade no cinema brasileiro. É curioso que chegue aos cinemas um dia após - ontem - Nosso Lar haver ultrapassado a marca de 2 milhões de espectadores. Nada mais diferente do que esses dois filmes, mas algo eles têm em comum. Com exceção do artigo terceiro, Nosso Lar prescindiu das leis de patrocínio baseadas na renúncia fiscal e foi bancado por investidores - o filme mais caro do cinema brasileiro. Léo e Bia é miúra em relação a Nosso Lar e, muito provavelmente, fará uma fração do seu público fantástico. Mas, além de ser mais ousado e criativo, como proposta de cinema, não teve patrocínio. Foi bancado pelo diretor/autor, e isso é suficientemente raro para merecer destaque.

 

É verdade que o espectador médio não encara um filme pela questão do patrocínio. O que interessa é o filme, em si. Baseado num certo número de informações sobre Oswaldo Montenegro, o cantor e compositor - menestrel, romântico -, ele talvez se aproxime de Léo e Bia esperando ver uma coisa. Vai ver outra, com toda certeza.

 

Mesmo entre os outros filmes que tentaram falar da repressão do regime militar - e da juventude nos anos de chumbo -, não há um que se assemelhe a este. E mesmo que houvesse, pela história - sete amigos desenvolvem um projeto para viver de arte e resolvem montar um espetáculo; os ensaios se confundem com as tramas pessoais que vão rolando, especialmente a da garota que tem a mãe repressora -, a forma de narrar faz a diferença.

 

Na entrevista, o diretor conta como, cinéfilo, sempre quis fazer um filme. Seu modelo, conceitual e irrealista, foi o Lars Von Trier de Dogville. E ele queria incorporar a música, sua ferramenta até aqui, ao cinema. Queria atores representando de forma realista num cenário que não o fosse. Léo e Bia mistura tudo - teatro, cinema, música. É um filme movido por um duplo movimento. O de experimentar e, ao mesmo tempo, é um ato de amor, de um artista sensível que usa paixão para falar de amizade.

 

Tem gente que acha Oswaldo Montenegro ‘chato’. Ele sabe. Mas existem também críticos, literatos e artistas (Moacyr Scliar, Roberto Menescal, Maria Gadú, etc.) que reconhecem o criador ousado. Léo e Bia foge ao comum. Merece ser olhado e descoberto com carinho. Paloma e Françoise Forton, como a mãe dominadora, merecem 10 como nota.

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