Why Not Productions
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Lendário parceiro de Luis Buñuel, Jean-Claude Carrière discute cinema, amor e política

Roteirista assina 'Um Homem Fiel', que estreou na última quinta-feira, 4

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2019 | 03h00

Jean-Claude Carrière conversa pelo telefone, de Paris, com a reportagem do Estado. É o roteirista de Um Homem Fiel, o longa dirigido e interpretado por Louis Garrel que estreou na quinta, 4. Aliás, os cinéfilos devem estar exultando – dois grandes filmes, dos maiores do ano, o turco A Árvore dos Frutos Selvagens, de Nuri Bilge Ceylan, e o de Garrel filho, estreando no mesmo dia, são a prova de que o circuito, embora formatado para megaproduções de Hollywood, tem brechas que permitem a passagem do produto de arte. Carrière! O escritor, o roteirista, o dramaturgo. O lendário parceiro de Luis Buñuel.

Carrière tem grande interesse pelo Brasil. Fala da Amazônia. Acompanha o governo de Jair Bolsonaro. O repórter leva o assunto para os protestos em Paris, os ‘jaunes’, amarelinhos. Ele responde – “Nesse momento, não há espaço para protesto em Paris e, se existe protesto, é pela questão do meio ambiente, que tem estado na agenda do presidente Macron. A França, a Europa vivem uma onda de calor insuportável. La canicule! Não adianta ficar no ar condicionado. O calor está matando. Aos 88 anos, não me lembro de haver vivido uma situação parecida. Só louco para não acreditar no aquecimento global.”

Sobre Louis, filho de Philippe Garrel, neto de Maurice Garrel, Carrière revela um carinho, uma admiração muito grandes pelo ator e diretor. Pelo ‘autor’. Ouve atentamente quando o repórter situa Louis na grande tradição da nouvelle vague. Seu personagem em Um Homem Fiel chama-se Abel, como o que o próprio ator interpretou em Dois Amigos, seu longa anterior. Não se trata de mera coincidência. “Claro que não. Louis se coloca na tela de corpo inteiro. Seu personagem é o mesmo, o mesmo tipo de homem pelo menos. Era muito interessante, conhecendo-o, como o conheço, escrever pensando que ele seria o protagonista. Ninguém melhor que Louis para saber do que ele seria capaz, mas eu adorava confrontá-lo, puxá-lo para um lugar além, para que Abel não fosse só um espelho.”

François Truffaut, o famoso autor da nouvelle vague – diretor, roteirista, produtor e, eventualmente, ator –, gostava de dizer que existe somente um grande tema, o amor. "Dom Luís (Buñuel) não concordaria com isso e talvez considerasse excessiva essa preocupação pequeno-burguesa com os sentimentos, mas, sim, Truffaut estava certo. Amor, afeto, amizade. E o filme de Louis é sobre a fratura dos sentimentos, um tema universal, que repercute em todo o mundo.” Abel ama Marianne, que ama Paul, o melhor amigo de Abel. Separam-se, e oito anos mais tarde Abel reencontra Marianne, agora viúva, e com um filho. Reaproximam-se, mas, além da reação do filho, existe a da irmã de Paul, que sempre amou Abel secretamente.

“Foi gostoso escrever esses diálogos, criar essas situações, porque Louis, a par de ser um cinéfilo e apreciar enormemente o flerte com Truffaut, que você citou, e Alfred Hitchcock, tem consciência do que se pode definir como autoironia. Não se leva excessivamente a sério, e isso permite uma margem muito interessante de crítica.” 

O repórter elogia Laetitia Casta, casada com Louis Garrel, uma belíssima mulher que nem sempre teve papéis que exigissem o melhor de seu talento. “Nunca duvidei do seu potencial. Mas, dessa vez, houve algo mais. Quando comecei a escrever, Laetitia estava no palco, em Paris, fazendo Cenas de Um Casamento. Se ela conseguia atravessar aquele texto de (Ingmar) Bergman, nada do que lhe propuséssemos, Louis e eu, poderia intimidá-la. Ela já havia ido além do seu limite.”

Talvez pareça tolo, mas Carrière, quase nonagenário, não teve problemas de trabalhar com um jovem como Louis? “Apesar da diferença de idade, creio que certas coisas não mudam. O mundo mudou, os comportamentos mudaram, mas ainda é possível um certo tipo de identificação. Tem de ver com sensibilidade, talvez com orientação política, uma certa crença nessa ferramenta em desuso, o humanismo.” Planos para o futuro? “Muitos. Escrevi outro roteiro que Louis filma até o fim do ano. E lanço daqui a pouco um livro de memórias técnicas. Ateliers, no plural, é quase um guia prático sobre os problemas que tive de enfrentar como roteirista e dramaturgo. Será o meu legado profissional.”

 

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