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Lenda de Moby Dick renasce sob o signo de John Ford

‘No Coração do Mar’ deve a Melville o mesmo que ao ‘Facínora’ do mestre

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2015 | 04h00

Em 1976, Ron Howard tinha 22 anos quando fez, como ator, O Último Pistoleiro, western de Don Siegel interpretado por duas figuras míticas, John Wayne e James Stewart. Howard era franzino, parecia mais jovem. Talvez, e agora é um exercício de imaginação, já sonhasse ser diretor. Deve ter aproveitado a oportunidade rara para conversar com os dois atores icônicos sobre a experiência deles com diretores lendários como John Ford e Anthony Mann.

Na verdade, não deve ser só imaginação nem coincidência. Howard ganhou o Oscar por Uma Mente Brilhante e soma grandes sucessos de público, filmes como Apollo 13 e as duas adaptações de Dan Bown (O Código Da Vinci e Anjos e Demônios – a terceira, Inferno, estreia em 2016). Mas, como diretor, seus melhores filmes são outros – o western Desaparecidas, com uma paisagem que evoca clássicos de Mann, e Rush – No Limite da Emoção e agora No Coração do Mar, ambos interpretados por Chris Hemsworth.

No Coração do Mar entra em cartaz para ser um dos grandes filmes do ano.

A história é real, inspirada no incidente que deu origem ao clássico da literatura Moby Dick, de Herman Melville. Na ficção de No Coração do Mar, o próprio Melville pesquisa para o livro que quer escrever, entrevistando o último sobrevivente do naufrágio de um navio baleeiro. O cara guarda segredo sobre o que ocorreu no mar, mas o jovem Melville consegue quebrar sua resistência e ele conta.

Segue-se a história, em flash-back, de como o capitão e o imediato do Essex brigaram tanto entre si que transformaram a vida da tripulação num inferno. O grande problema, o que provocou o naufrágio, foi o surgimento da grande baleia branca. No livro clássico de Melville, Moby Dick já foi comparada até a Deus. Na ficção de Ron Howard, adaptada do livro de Nathaniel Philbrick, a baleia branca vira a obsessão especialmente do imediato, o personagem de Liam Hemsworth. Tudo o afasta do capitão, interpretado por Benjamin Walker, o Abraão Lincoln que caçava vampiros. O imediato é o típico lobo do mar, o capitão só está no cargo por causa da linhagem de sua família.

Ambos se detestam e se desafiam, mas aprendem a se respeitar. Reproduzem na tela a relação de John Wayne e James Stewart no clássico O Homem Que Matou o Facínora. Se você conhece o western crepuscular de Ford captará toda a sutileza da construção dramática de No Coração do Mar. É o mesmo embate de James Hunt e Niki Lauda em Rush. Se não conhece – há a possibilidade de resgatar o filme em DVD –, verá, mesmo assim, um drama forte e uma homenagem aos clássicos marítimos da Warner. Na essência, é um drama fordiano. A grandeza dos derrotados. Ron Howard sabe escolher seus clássicos.

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