Leitor do 'Estado' conta sua experiência no júri de Gramado

Vencedor de concurso cultural integrou júri popular do 37º festival, encerrado neste fim de semana

Por: Uri Blankfeld, jurado de O Estado de S.Paulo em Gramado,

16 de agosto de 2009 | 14h31

Passar uma semana respirando cinema não é para qualquer um. Na condição de jurado, representando São Paulo, o privilégio é maior. E a coisa se torna maior ainda quando se cruza em cada canto com atores, atrizes, diretores, roteiristas e toda a gente que dedica sua vida a essa arte. Trocam-se ideias com essa turma. Certa manhã eu conversava com um ator (e agora produtor) 'global' e uma senhora muito simples nos interrompeu para tirar uma foto com ele. Ela disse: "Nossa!!! Vocês atores são tão normais... parecem com a gente... são tão diferentes do que na televisão...". Aqui em Gramado percebi, assim como a senhora da foto, que eles são "normais". Mas com o poder sobrenatural de fazer cinema.

 

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A grande vantagem de compor o "júri popular" é não precisar ser um expert ou um cinéfilo. Basta ter afinidades com o tema, gostar da telona e ter sensibilidade suficiente para entender que uma cruel vulgaridade pode conviver com a poesia, que três dias de muita chuva podem ser cenário, música e iluminação para uma grande história de amor e, também, que um documentário pode ser um filme arrebatador, um filmaço. O melhor filme do festival!

Começamos nossa tarefa encarando Quase um tango. Um filme que não empolgou. Lembrava alguma coisa da TV. Destaque para a participação de Vivianne Pasmanter.

O documentário argentino La Proxima Estacion não é de deixar brasileiro (ou sul-americano) nenhum boquiaberto. Basta abrir os jornais para encontrarmos o mesmo roteiro.

Em Canção de Baal Helena Ignez nos oferece Brecht. Com música e poesia misturada com podridão e torpeza. Normal... afinal, segundo Einstein, tudo é relativo.

La teta assustada (Peru/Espanha) mostrou uma personagem intransponível. Para o júri e, possivelmente, para o público também.

Outro documentário, Cildo, mostra o pensamento e as obras do artista conceitual Cildo Meireles. Méritos por estar em Gramado.

Quarta feira, dia 12, foi a grande noite do festival. Primeiro, com o gostoso filme colombiano (sim, na Colômbia se faz ótimo filme!), um roteiro leve, divertido e bem cotado entre os jurados. Em seguida foi exibido o grande filme do festival: Corumbiara. É apresentado como documentário. É muito mais! É um filme de amor, de aventura, de suspense. Um drama. É emocionante ver "ao vivo e em cores" a luta - contra tudo e contra todos - de dois indigenistas pela preservação dos últimos índios sobreviventes de massacres em Corumbiara (RO). Um filme obrigatório! Marcelo Santos é o meu herói! Velhos tempos em que o cinema fazia heróis... Mas ele é de verdade. Tive o prazer de conhecê-lo e tomara o filme seja visto por muita gente.

Lluvia, um filme argentino muito bem feito. Cenário com muita chuva, música de muita chuva, um amor forte, e, desculpem o trocadilho, embaçado. Ótimo filme.

Em teu nome prometia. E ganhou o prêmio "maior quantidade de fade por minuto". Não sou técnico e não entendo muito, mas, meu Deus! Quanto fade! Parecia eu, quando filmo as festinhas de aniversário lá em casa... (em tempo: Fade significa aquela apagada de uma cena para passar para outra).

Na última noite o filme uruguaio Gigante agradou muito. Uma história simples mas envolvente. Em seguida assistimos ao brasileiro Corpos celestes. Um filme banal. Mal resolvido, pretensioso e forçando a barra para conquistar as emoções do espectador.

Resumo da ópera: o cinema sul-americano é muito bom. Faz-se um ótimo trabalho no Uruguai, na Argentina, na Colômbia, no Peru... O Brasil não mostrou essa bola toda neste festival e ainda teve que aplaudir Xuxa com seus trinta milhões de baixinhos que assistiram a seus filmes. Mas os destaques - Canção de Baal, Helena Ignez, a super linda e talentosa Djin Sganzerla, Vivianne Pasmanter, Vincent Carelli com o seu Corumbiara, e, finalmente, o nosso "verdadeiro" Indiana Jones, Marcelo Santos, merecem um grande e forte aplauso.

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