Leia trecho de um dos três livros 'Operação Valquíria'

Estreia do filme protagonizado por Tom Cruise provoca lançamento de três livros, todos com o mesmo título

Teresa Ribeiro, do estadao.com.br,

03 de fevereiro de 2009 | 19h47

A estreia do filme Operação Valquíria em 13 de fevereiro, que trouxe Tom Cruise ao Brasil na turnê mundial de lançamento do filme de Bryan Singer (X-Men 2), vem acompanhada de três livros sobre o tema. Veja também: Trailer de 'Operação Valquíria'Tom Cruise diz que só conhecia o Brasil pelo samba e cinema'Operação Valquíria' domina bilheterias mundiais No filme, Cruise encarna o coronel alemão Claus von Stauffenberg, que participou, em 1944, de uma tentativa de assassinato do ditador Adolf Hitler. Os três livros saem com o mesmo título do filme e da fracassada missão contra Hitler: Operação Valquíria, do alemão Tobias Kniebe (Planeta, tradução Sandra Martha Dolinsky, R$ 44,90, 322 págs.); Operação Valkíria, do espanhol Jesús Hernández (Novo Século, tradução de Lucimeire Vergilio Leite, R$ 39,90, 338 págs.) e Operação Valquíria, com as memórias de outro conspirador, que morreu em maio do ano passado, Philipp Freiherr von Boeselager (Record, tradução de André Telles, R$ 34, 194 págs.).  Leia trecho das memórias de Von Boeselager, registradas por Florence e seu marido Jérôme Fehrenbach. Ela, que era neta de seu amigo e também conspirador, Kark von Wendt, o convenceu a contar suas memórias aos 89 anos. Von Boeselager nasceu em Bonn, na Alemanha, em 1917, numa família católica tradicional e aristocrática da Renânia. Era o quinto de nove filhos. Capítulo: A Hora das Escolhas (1933-1936) Em 1933, quando os nazistas assumiram o poder, Georg ainda não fizera 18 anos; eu não completara 15. Isto significa que esse episódio, embora determinante para nós e nossa família mais tarde, nos deixou bastante indiferentes na época. Nossos pais, embora longe de aderirem à ideologia do partido, não viam com maus olhos o fim da República de Weimar. Sabíamos o que era a humilhação da derrota. De 1919 a 1926, na condição de habitantes da margem esquerda do Reno então sob ocupação aliada, assistimos à passagem de canadenses, britânicos e depois franceses - essencialmente representados por tropas coloniais. Aqueles seis anos de ocupação em tempos de paz foram longos e opressivos. Para nós, alemães, a situação era incompreensível: a Alemanha não fora atacada do lado oeste, não sofrera nenhuma invasão durante as hostilidades, e era aquilo a paz, uma paz considerada injusta, feita para arruinar o país, trazendo a ocupação estrangeira. Ainda que pacífico, um período de ocupação não podia fortalecer a amizade entre os povos. A ocupação do Ruhr, de 1923 a 1926, foi palco de violências e humilhações, tendo promovido 121 execuções sumárias e dezenas de milhares de refugiados, além de acarretar um movimento de greve geral - por instigação do chanceler Cuno - e a derrocada econômica do coração industrial da Alemanha, promovendo uma inflação aterrorizante. Tudo isso, penso, acentuou a prevenção já arraigada dos renanos contra os franceses, por séculos vistos como vizinhos incômodos. As humilhações do ocupante não escapavam a meus olhos de criança. Lembro-me de que meus pais haviam sido proibidos de irem ao enterro da minha avó, a pretexto de que meu pai era oficial da reserva. Lembro-me também da maneira como, no colégio, havíamos festejado o padre Seelen, que ousara entoar, diante de tropas francesas, o hino nacional alemão, o que era formalmente  proibido na margem esquerda. Felizmente, o jesuíta era de nacionalidade holandesa, e os franceses não puderam prendê-lo. Era assim que, do alto dos nossos tenros anos, praticávamos uma forma de resistência a nosso alcance.  Meu pai era um europeu avant la lettre, um temperamento muito pouco vingativo. Por outro lado, oficial  veterano da Grande Guerra, membro do Stahlhelm desde sua criação, era um patriota, partidário da restauração da Alemanha com todos os seus direitos de grande nação. Comunicou-nos esse desejo sem nada impor. E foi com bastante naturalidade que nosso irmão mais velho Antonius ingressou no Stahlhelm. Compreendo que o leitor francês sinta uma certa desconfiança em relação à postura política dos patriotas  mães dessa época e fique tentado a ver nisso um comprometimento inadmissível com os objetivos pretendidos por Hitler. Não obstante, éramos capazes de diferenciar as coisas. Não tínhamos mais motivo para nos sentir culpados por buscar o soerguimento da Alemanha assim como os franceses de 1914 não haviam se sentido indignos ao almejarem o retorno da Alsácia e da Lorena ao seio da França. Devo contar um incidente que me aconteceu nessa época, e que me instruiu acerca dos métodos dos homens de Hitler. Em 1933, o chanceler do Reich foi até Bonn. Tomado pela curiosidade, dei uma escapada em companhia de um colega de internato. Ao nos aproximarmos do palacete onde o chanceler devia pernoitar, nos escondemos para vê-lo pelo menos na escadaria da entrada. Nossa manobra foi detectada. Fomos flagrados por dois SS e trancados sumariamente numa garagem.  Estávamos tão apavorados que o diretor do internato, avisado da nossa fuga, não nos castigou. Nosso confinamento durou até o amanhecer, sem comida e sem sono. Só fomos libertados após a partida do chanceler. Nossa deserção, por milagre, não havia sido percebida no internato. Prefiro dizer que, durante esse dia e a noite seguinte, tivemos sobre o que refletir.

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