Leia crítica de Luiz Carlos Merten sobre Amelia

Tudo é narrado sob aparência de extrema simplicidade, e de forma direta, sem firulas nem grandes efeitos

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

25 de março de 2010 | 19h53

É um fato que o longa de Mira Nair sobre a lendária aviadora Amelia Earhardt aterrissa nos cinemas brasileiros com a fama de não haver decolado nos EUA. Havia grande expectativa quanto ao desempenho de Amelia nas bilheterias norte-americanas. Uma heroína de temperamento forte - e, claro, mulher adiante de sua época -, uma história de superação, elenco de nomes conhecidos, diretora de certo prestígio. O coquetel não funcionou muito bem, porque o público não correspondeu e até o Oscar, para o qual muita gente dava como certa nova indicação de Hilary Swank - ela recebeu duas vezes o prêmio da Academia de Hollywood, por Meninos não Choram e Menina de Ouro -, ignorou a atriz. Nem prêmios nem bilheteria devem ser recursos finais na avaliação de um filme. Amelia é bom.

 

Tirando o fato de que a distribuidora Fox não ligou para o fato de já haver outro filme com o mesmo título - a Amélia brasileira de Ana Carolina -, o filme de Mira Nair possui um encanto todo particular. Um charme. Lembra até um filme que a diretora indiana mais norte-americana da atualidade - pela quantidade de filmes que fez nos EUA - não deve ter visto, e também brasileiro. Sonho sem Fim, de Lauro Escorel (o grande fotógrafo), é sobre o pioneiro do cinema mudo, Eduardo Abelim. Em ambos há essa vontade de contar histórias de pioneiros - do cinema ou da aviação - com os olhos da época. É o que faz o fascínio e também (para o público) o limite de Amelia.

 

Sendo ela uma mulher avançada para os padrões comportamentais de sua época, a prudência do filme parece estar em desacordo com a natureza da heroína e isso deve ter desconcertado o público. Amelia desapareceu durante sua tentativa de dar a volta ao mundo. O filme começa justamente quando ela está deixando Miami, em 1937, na tentativa de estabelecer novo recorde. Nos ares, entre as nuvens, Amelia reflete sobre momentos significativos de sua trajetória. Casada com o editor George Putmam (Richard Gere), que impulsionou sua carreira, ela não quis se prender a um código de fidelidade medieval, como o definia. Teve um affair com um sujeito também ligado à aviação (Ewan McGregor) e, se seu objetivo fosse colecionar amantes, o triângulo poderia ter virado quadrado justamente com seu companheiro no voo fatídico, o navegador aéreo Fred Noonan (Christopher Eccleston).

 

Tudo é narrado sob uma aparência de extrema simplicidade, e de forma direta, sem firulas nem grandes efeitos. E é bom que seja assim, porque o que interessa a Mira Nair é menos a figura pública de Amélia do que a privada. Seu filme é sobre relações. Uma vida e um romance truncados. A diretora usa imagens de época ou reproduz antigos cinejornais que viram a própria imagem realista de seu filme. É como se fosse tudo uma coisa só. Um velho filme dos anos 1930 perdido na era de Avatar. É o que faz o charme discreto de Amelia.

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