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Lee Daniels faz defesa apaixonada de ‘Obsessão’

No Rio para exibir seu ‘Mordomo’, diretor fala do longa que estreia nesta sexta, 4

Luiz Carlos Merten / RIO, O Estado de S. Paulo

03 de outubro de 2013 | 17h36

Após a acolhida favorável a Preciosa – Uma História de Esperança, Lee Daniels admite que se sentiu pressionado. “Havia uma expectativa de que eu me tornasse a nova voz negra da América. Eu queria ser só uma voz.” E, por isso, fez Obsessão, que estreia nesta sexta, 4, no Brasil. “Sabia que não teria a mesma receptividade de Precious. Era um filme para amar e odiar, sem áreas cinzentas.” Ele pergunta o que o repórter achou do filme. “É melhor que Precious.” Lee Daniels explode – “I love you, man.” Levanta-se da cadeira. Abraça, quer beijar. “Menos, menos, please.”

Lee Daniels é uma figura. Está no Rio mostrando seu novo longa no festival. O Mordomo da Casa Branca teve sua gala ontem à noite. Segundo o diretor, era o filme que todo mundo esperava dele após Precious. Ele se orgulha do próprio trabalho, mas confessa – “Prefiro Obsessão. É meu melhor filme e as pessoas ainda vão se dar conta disso.”

O repórter ironiza – disse que ele devia estar pensando que era Federico Fellini para colocar seu nome no filme. O título original é Lee Daniels The Butler. “Mas não fui eu que quis isso. Havia uma disputa pelo título The Butler/O Mordomo. Alguém do marketing teve a ideia de colar meu nome. Achei que seria muito narcisístico, e imagino que seja para segmentos do público e da crítica. Meio excessivo, não?” Mas ele diz – “Lá no fundo, é um abraço no meu ego.”

Aos 44, Daniels se surpreende acima de tudo por ser um sobrevivente. “Cresci em West Filadélfia, que é uma das áreas mais violentas da América. Meus amigos morreram vítimas de tiros, outros de HIV ou por causa das drogas.” Foram as circunstâncias do próprio meio social que o levaram a essa vida de risco? “O que você acha?”, Daniels retruca. Que ele optou por viver perigosamente. “You got it, foi isso.” Valeu a pena? “Muito.”

Daniels é gay assumido. Portanto, além de negro – afrodescendente, para ser politicamente correto – e pobre, tinha mais um elemento para dificultar sua vida num meio preconceituoso. É o alimento de seu cinema. “Gosto de personagens outsiders, fora das normas, porque sou um outsider.” De novo o repórter brinca – um outsider de luxo, que virou o darling de Hollywood. “Nem tanto. Agora mesmo, estou no meio de uma discussão importante com meus produtores”, aponta para o celular. Discutindo salário? “Não, salário não é o mais importante. Estou discutindo o final cut, a montagem final. Em todos os meus filmes, tive sempre o último corte, mas o próximo, sobre o qual não posso falar, será mais caro e os produtores querem garantias. Temem me dar o corte final. É isso ou nada.”

Obsessão é sobre mulher que se corresponde com um preso e desencadeia processo que reabre as investigações sobre o crime de que é acusado. Como se faz para que uma atriz icônica como Nicole Kidman aceite fazer a personagem mais vulgar de sua carreira? “Meu bem, ninguém é perfeito. Meus personagens não são. Os atores precisam ter confiança e fazer o que eu mando. Sem isso, não há jogo. Por exemplo, na cena de sexo na cadeia. Nicole fazia boquinha. Eu mandei que ela escancarasse, boca de mulher faminta por sexo.” E Matthew McConaughey na pele do gay? Ele não se preocupou com a imagem? “Ator que se preocupa com a imagem não é ator. Ator faz o que é preciso pelo personagem.”

O repórter cita uma crítica negativa sobre O Mordomo, que saiu num jornal do Rio. “Pronto, estávamos indo tão bem. Você conseguiu estragar meu dia”, e ele cai na risada. O filme acompanha a trajetória de um garoto negro do Sul que supera as dificuldades de sua origem e chega a mordomo na Casa Branca. A narrativa atravessa décadas de história da segregação racial e das lutas por direitos civis nos EUA. Histórias que Lee Daniels ouviu da própria família? “Histórias que vivi. Na época de meus pais e avós, foi muito pior, mas me sentei na parte traseira de muitos ônibus e bebi água em bicas exclusivas de negros.” E como ele venceu tudo isso e chegou aonde está? “Coisa de Deus. Acredita nele? Eu acredito.”

Assim como Nicole Kidman e Matthew McConaughey, Oprah Winfrey também encara seu desafio no Mordomo. Faz uma bêbada. O repórter diz esperar que Oprah e Forest Whitaker, o próprio mordomo, sejam indicados ao Oscar. São magníficos. Oprah coproduziu Precious. “Eu também espero, mas quem pode garantir?” Mordomo é seu melhor filme. “Fico feliz que você gostou. Fico mais feliz ainda porque você não é tiete de Precious. Minha mãe sentiu sua geração retratada na tela no Mordomo. Mas insisto – Obsessão é o melhor dos meus filmes.”

OBSESSÃOTítulo original: The Paperboy. Direção: Lee Daniels. Gênero: Suspense (EUA/2012, 107 minutos). Classificação: 16 anos.

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