Leão de Ouro para filme russo causa polêmica em Veneza

Em meio à decepção da torcida italiana, quejá dava como certa a vitória de Buongiorno, Notte, de MarcoBellocchio, o Leão de Ouro do 60.º Festival de Cinema de Venezaacabou ficando com o russo O Retorno, de Andrei Zvjagintsev.Bellocchio, que teve de se contentar com um prêmio de consolaçãopelo roteiro, nem mesmo ficou para a cerimônia. Viajou de voltapara casa, em Roma e deixou no Lido o ator Luigi Lo Cascio pararepresentá-lo. No entanto, O Retorno já era dado pelosespecialistas como um dos prováveis vencedores, e assim adecisão dos jurados não pode ser chamada de estravagante. Surpresa mesmo foi o Prêmio Especial do Júri para o apenasbem-intencionado Le Cerf Volant (A Pipa), de Randa Chahal Sabbag co-produção entre Jordânia e França que fala dos absurdos daguerra interminável no Oriente Médio por meio de uma história deamor. Os troféus de ator a Sean Penn e atriz para Katia Riemanndevem ser encarados como normais. Penn tem atuação de aplauso nosoturno 21 Gramas, do mexicano Alejandro González Iñarritu. EKatia é mais do que convincente no drama de guerra Rosenstrasse,de Margarethe von Trotta, filme convencional, acadêmico mesmo,que tem no equilíbrio do elenco seu ponto forte. Houve quem selembrasse da interpretação de Naomi Watts, também em 21 Gramas,mas premiar duas vezes o mesmo filme em festival tão escasso detroféus talvez fosse mesmo exagero. Já o troféu de direção a Takeshi Kitano pelo preferido dopúblico jovem, Zatoichi, pareceu deslocado aos observadores,pois não se trata nem de longe do melhor trabalho do diretorjaponês. Quem já assinou filmes como Sonatine e Hana-Bi ficadevendo com essa história sanguinolenta e algo oportunista dosamurai cego, massagista de mãos leves e invencível com suaespada. É possível que esse prêmio de direção ficasse bem melhornas mãos de Bellocchio, por exemplo. Ou nas de Manoel deOliveira ou Tsai Ming Liang, diretores, respectivamente, de UmFilme Falado e Adeus, Dragon Inn, os grandes esquecidos do júripresidido pelo italiano Mario Monicelli. Na mostra secundária Contracorrente a vitória de SofiaCoppola, com seu inspirado Lost in Translation, era tida comocerta. Deu zebra e seu filme foi lembrado apenas pelainterpretação, realmente muito boa, de Scarlet Johansson. Mas seera para dar um prêmio para o elenco de Lost in Translation, porque não para Bill Murray, excelente no papel de um atortotalmente perdido em um hotel impessoal em Tóquio? Enfim, noconcurso que realmente vale, o do Leão de Ouro, Veneza-2003acertou no principal e equivocou-se em alguns detalhes. Como se diz que Deus está nos detalhes, será lembrado porisso. E também pela oportunidade perdida de ter consagrado umfilme polêmico, da casa, como Buongiorno, Notte, de MarcoBellocchio. Durante os doze dias de duração do festival, sefalou muito que Monicelli iria, se pudesse, beneficiar um filmeitaliano. Talvez a preocupação do júri em se mostrar imparcialtenha, no fundo, prejudicado essa revisão psicológica de um dostraumas da Itália contemporânea, o seqüestro e assassinato deAldo Moro pelas Brigadas Vermelhas em 1978.RESCALDO - De ressaca, a imprensa italiana não deixou derefletir essa frustração, como se pode ver pelos títulos dosprincipais periódicos. La Reppublica: "Leão para a Rússia,Bellocchio de fora"; Corriere della Sera: "Vence o filme russo,desilusão para Bellocchio"; La Stampa: "A dupla derrotaitaliana". Nas matérias, as tentativas de explicação. O casoMoro seria desconhecido para os membros estrangeiros do júri. Odiretor do festival, Moritz de Hadeln, teria desaconselhado apremiação de filmes políticos. Bellocchio não se daria comMonicelli, o presidente do júri. O outro italiano integrante dojúri, o ator Stefano Acorsi, teria pleiteado um papel no filmede Bellocchio, sendo no fim preterido. Hipóteses. O próprioBellocchio, procurado em Roma, deixou claro: "Aceito o resultado mas estou desiludido". Acha-se um homem marcado desde os seustempos radicais, nos anos 60, quando escandalizou a Itália comsua estréia, I Pugni in Tasca. "Não sou um bom ganhador deprêmios", disse. Enfim, seu consolo é que Buongiorno, Notte, queestreou sexta-feira em 170 salas, está indo muito bem nabilheteria. Só fica atrás de Hulk. Mesmo assim, o diretor nãoescondeu sua amargura: "Nós, italianos, somos os nossosprincipais inimigos". Um brasileiro não diria melhor. A festa de entrega dos prêmios, chata e com com quase duashoras de duração, mereceria comentário à parte. Conduzida peloapresentador de televisão Piero Cambretti, foi marcada por gafese piadas infames. Cambretti apresentou a elegantésima condessa Maria Cicognacomo "o único homem que Gianni Agnelli dizia temer". Perguntousobre o marido e os filhos da atriz Nicoletta Romanoff e teve deouvir que suas palavras soavam banais. Quis saber a idade deMario Monicelli e perguntou como o diretor de O IncrívelExército de Brancaleone gostaria de ser lembrado no futuro.Monicelli, 88 anos, respondeu, no ato: "Como alguém que nãolevava a sério cerimônias como esta." Bingo. Em meio a essa ópera bufa, houve um momento de emoção quandoo diretor russo Andrei Zvjagintsev dedicou o prêmio ao atoradolescente Vladimir Garin, morto aos 15 anos pouco depois determinada a filmagem de O Retorno. Enfim, um belo momento para aRússia, que não vencia desde 1991 quando Nikita Mikhalkov levoupara casa o Leão por seu inspirado Urga. Polêmicas e lágrimas à parte, sobra como recordação deVeneza-2003 um festival de alguns excelentes títulos, tanto noconcurso principal como no secundário. E mesmo fora decompetição vieram filmes marcantes, como os de Woody Allen(Everything Else) e Bernardo Bertolucci (Os Sonhadores). Mashouve filmes que entraram pelas portas dos fundos, comoImagining Argentina, que não deveriam ter lugar num evento deprimeira linha como Veneza. Foi um bom festival, melhor que o de Cannes. Mas não umfestival histórico, inesquecível, como havia prometido Moritz deHadeln. Este fica para uma outra vez.

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