Alberto PIZZOLI / AFP
Alberto PIZZOLI / AFP

Leão de Ouro para 'Coringa' pavimenta caminho para o Oscar

Brasil ganhou dois prêmios no Festival Veneza, para o documentário de Bárbara Paz e “A Linha”, vídeo em realidade virtual

Mariane Morisawa, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2019 | 17h44

No ano passado, Roma saiu de Veneza com o Leão de Ouro para uma campanha do Oscar que terminou com três estatuetas, inclusive direção. Em 2017, A Forma da Água levou o Leão de Ouro e depois quatro Oscar, inclusive filme e direção. Em 2019, a história deve se repetir, com a vitória de Coringa, de Todd Phillips, que não é o típico “filme de Oscar”, por ser uma produção que se passa no universo dos quadrinhos da DC, e por isso mesmo tem muito a ganhar com o troféu principal num dos principais festivais de cinema do mundo – que também não costumam premiar esse tipo de produção. “Me parece incrível que uma indústria cujo principal foco é o negócio tenha corrido tamanho risco com ‘Coringa’”, disse a presidente do júri Lucrecia Martel. “Fazer para esse público um filme que é uma reflexão sobre os anti-heróis, mostrando que talvez o inimigo não seja o homem, mas o sistema, me parece bom para os Estados Unidos e para o mundo todo. Além disso, havia cenas muito arrojadas e uma atuação espetacular”, completou Martel, referindo-se a Joaquin Phoenix.

O júri também comentou a concessão do Grande Prêmio do Júri, segundo troféu mais importante, para J’Accuse, de Roman Polanski. No início do festival, Martel tinha declarado que não separava o homem do artista e que ficava dividida por ter de avaliar o filme do cineasta polonês, condenado nos anos 1970 por sexo ilegal com menor e fugitivo da justiça americana. O diretor italiano Paolo Virzì declarou que podia garantir pessoalmente que as conversas tinham girado totalmente em torno da qualidade do filme. “Não houve debates sobre polêmicas”, disse. Lucrecia Matel também opinou. “Quando alguém fala do filme, não está deixando de falar do autor, que é um ser humano. A pior coisa que poderíamos fazer com um ser humano é separá-lo de sua obra, porque teríamos de castigar todos. O senhor Polanski representa um caso entre centenas, inclusive pessoas sentadas nesta sala. Não separar o homem da obra não é um benefício para o homem. Polanski mostrou em seu filme uma visão do mundo interessante para todos nós. Se você pensa que, ao não falarmos sobre o autor, somos mais justos com a obra, asseguro que está equivocado.” 

O Leão de Prata de direção foi para o sueco Roy Andersson, por About Endlessness, que reproduz cenas tocantes e patéticas do cotidiano e da história com um misto de drama e comédia, em cenários construídos individualmente. 

Os dois atores premiados com a Coppa Volpi – Ariane Ascaride por Gloria Mundi de Robert Guédiguian, e Luca Marinelli por Martin Eden, dirigido por Pietro Marcello – mencionaram os refugiados que morrem aos milhares no Mediterrâneo em seus discursos de agradecimento. 

Nascido em Taiwan e criado em Hong Kong, Yonfan levou o prêmio de roteiro por No. 7 Cherry Lane, uma animação adulta sobre uma mulher de meia idade que vive um romance com um homem mais jovem. “Demorei sete anos para fazer este filme, estou com 72. Para fazer um filme, preciso ter algo a dizer. Não sei se tenho algo a dizer agora. Mas falei muito sobre Hong Kong nesta semana, mesmo que muita gente tenha me dito para evitar. Eu senti que tinha de dizer, mesmo que não fossem coisas apropriadas”, disse o cineasta, que elogiou a liberdade que sempre teve em Hong Kong e pediu que ela continuasse. 

O italiano La Mafia Non è Più Quella di una Volta, de Franco Maresco, ganhou o prêmio especial do júri, enquanto o australiano Toby Wallace, de Babyteeth, dirigido por Shannon Murphy, ficou com o Marcello Mastroianni para melhor ator ou atriz jovem.   

Prêmios para o Brasil

Em relação a Berlim e a Cannes, a participação brasileira em Veneza foi mais modesta, mas não menos significativa. Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, estreia na direção da atriz Bárbara Paz sobre o cineasta Hector Babenco, levou o troféu de melhor documentário na seção Veneza Clássicos. “Hector costumava dizer que filmar é viver um dia mais. Foi o cinema que o manteve vivo. Hector, eu te amo para sempre”, disse Paz, muito emocionada. “Este prêmio é muito importante para meu país. Digamos não à censura. Vida longa à cultura brasileira!”, completou. 

A Linha, de Ricardo Laganaro, saiu com o prêmio de melhor experiência para conteúdo interativo em realidade virtual. “Sou o segundo brasileiro aqui hoje, não é demais?”, disse o diretor. “O nosso filme é sobre amor, memórias e o medo da mudança. A tecnologia faz com que tenhamos medo. Mas eu acho que a tecnologia pode ajudar, porque nós contamos histórias e ouvimos outros seres humanos.”   

 

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