Leandro Hassum toma de assalto mais de 700 salas

‘Até que a Sorte nos Separe 2’ tem o maior lançamento de um filme nacional

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

27 de dezembro de 2013 | 11h00

Vai ser o maior lançamento de um filme brasileiro – 734 salas, mais do que as 700 e tantas de Tropa de Elite 2. Até pouco antes do Natal, a produtora Downtown e a distribuidora Paris ainda recebiam pedidos de integração ao monumental circuito que vai exibir Até que a Sorte nos Separe 2. Após o estouro de Até que a Sorte nos Separe – uma das grandes bilheterias do ano que se encerra –, todo mundo quer entrar bem em 2014 com Leandro Hassum. Ele é o homem.

 

 

O próprio Leandro relaxa. Terminou de rodar Os Caras de Pau – O Filme e se mandou para sua casa em Miami. “A gente faz o melhor que pode, mas chega um momento em que não faz mais nada. Só espera.” O momento é este. Até que a Sorte 2 vai tomar de assalto o circuito exibidor. Um blockbuster brasileiro com números de blockbuster hollywoodiano. A Paris e a Downtown aprenderam a fazer esses lançamentos gigantescos. O segredo é o mesmo de Hollywood – ocupar o maior número de salas para forçar o faturamento no primeiro fim de semana.

Pode-se retomar aquela radiografia do cinema brasileiro que o Caderno 2 já fez recentemente. O share do cinema brasileiro, a participação no próprio mercado, aumentou neste ano – algo em torno de 17% (ou 18%). Mas se o cinema vai bem, os filmes nem tanto. Os números vistosos foram fornecidos pelas comédias – e não todas. Elogiadíssima pelos críticos, endo ou Alugo, de Betse de Paula, não foi lá essas coisas. Em compensação, Ingrid Guimarães (De Pernas pro Ar 2), Paulo Gustavo (Minha Mãe É Uma Peça) e Leandro Hassum arrebentam. Até que a Sorte 2 entra em mais de 700 salas e também hoje estreia São Silvestre. O longa de Lina Chamie é simplesmente o melhor filme brasileiro do ano que está terminando. Mas é aquilo que se chama de ‘biscoito fino’. Vai entrar em três salas de São Paulo, Rio e Curitiba, e em apenas um horário de cada uma delas.

Cada filme tem seu tamanho. Até que a Sorte 2 foi projetado para ser grande, e cresceu mais ainda. O diretor Roberto Santucci, que também fez o 1, beneficia-se do sucesso. “O faturamento do 1 aumentou os recursos do 2. Com mais dinheiro, deu para fazer um filme melhor e mais caprichado.” Ele não exagera. É a lógica do mercado. A própria Lina Chamie não se queixa. “Somos loucos – eu porque fiz o São Silvestre, você porque dá toda força ao filme”, ela disse ao repórter. São Silvestre é um acontecimento, uma epifania. Mas Até que a Sorte 2 não deixa de ser outro acontecimento, e de outra natureza. O 2 é melhor que o 1, como De Pernas pro Ar 2 também é melhor que o 1. Roberto Santucci fez os quatro. É o rei Midas do cinema brasileiro.

Ele defende sua criação e até apresenta motivos para explicar o tropeço em sua carreira recente – Eu Odeio Dia dos Namorados, feito com o mesmo empenho, apresentou números decepcionantes. Além de um elenco ‘menos aquecido’ – um jargão de mercado –, o filme não tinha a mídia da Globo Filmes, e isso, sim, faz a diferença, embora Santucci, e todo o cinema brasileiro tenham a experiência de que nem a Globo salva, quando (ou se) o filme não corresponde à expectativa do público.

Até que a Sorte 2 repete o ponto de partida do 1, só que maior. Você se lembra – o casal Leandro Hassum/Danielle Winits ganhava na loteria, ficava rico, mas gastava tudo, até o último centavo. Eles começam o 2 pobres (de novo) e ganham uma herança, do tio rico de Danielle. Ops, Danielle caiu fora, substituída por Camila Morgado. Escalada para a atual novela das 9, Danielle não poderia cumprir o cronograma da filmagem no exterior. Porque a herança veio de Maurício Sherman, que ganhou seu primeiro milhão em Las Vegas e pede que suas cinzas sejam jogadas na cidade do jogo. Você já sacou – embora rico, riquíssimo, Hassum perde tudo nas roletas de Vegas. Fica devendo para mafiosos. O diretor Santucci sempre teve o pé no policial – remember Bellini e a Esfinge. Até a história ficou melhor.

O achado de Até que a Sorte 2 ocorre de cara, nos primeiros minutos – como justificar a presença de Camila Morgado no lugar de Danielle Winits? Afinal, não se mexe em time que está ganhando... A solução nasceu durante as leituras de mesa que Santucci gosta de fazer com seu elenco, antes da rodagem, e é tão simples quanto engenhosa. Um movimento de câmera, uma frase de diálogo explicam tudo. E a ideia não foi do diretor. “Nasceu no grupo. O que é bom, a gente aproveita”, diz Santucci e essa é a tônica do profissionalismo que ele (e outros...) vem imprimindo ao cinema brasileiro. Várias outras ideias também foram agregadas – filmar no Venetian, o hotel que reproduz a cidade italiana, com gôndolas e tudo; e ter Jerry Lewis no papel do ‘bellboy’, o mensageiro.

Jerry Lewis aparece pouco, mas suas cenas fazem toda a diferença, como as de Camila. “A Danielle é ótima, mas a Camila tem aquela coisa intensa, dramática, do Olga. Não duvidava que ela também soubesse fazer comédia, mas o bom é que Camila, segurando o humor, trouxe um fundo de drama que torna os problemas familiares mais consistentes”, avalia Hassum. Ele curte o humor familiar, aquela coisa dos Trapalhões (‘da grande fase’, ressalta). Alguns colegas humoristas o acham ingênuo demais, numa época em que outras comédias apostam na grossura (e no sexo). “Não faz mal, eu gosto de fazer e de ver cinema em família”, define Hassum.

Casa em Los Angeles, filmagem em Vegas. “Tenho um amigo RP do Venetian que nos ajudou a conseguir o hotel. E foi ele quem me falou de um show do Jerry Lewis no cassino. Fui correndo.” O repórter diz que também ama Jerry Lewis. “Todos nós, né, meu irmão?” Dependendo da sua sensibilidade, o plano final de Santucci aplaudindo Jerry Lewis após a filmagem pode ser emocionante. “Um amigo conhecia a ‘Pat’, que é cantora e na verdade é brasileira e se chama Patrícia. É nora do Jerry, e também ajudou para que ele fizesse o papel.” Pat deu a dica – Jerry curte demais seu primeiro longa, The Bellboy/Mensageiro Trapalhão. “Ele adorou fazer o bellboy.” No final, depois de toda a confusão, Hassum e Camila casam-se vestidos de Elvis e Marilyn. “Eu também casei assim”, conta Hassum. Mas não tem vergonha de ser brega, hein cara? “Eu não. Quero mais é ser feliz.” Pelos números, Hassum tem feito o público ser feliz com ele.

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