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Leandra Leal diz que 'Escultura', na voz de Nelson Gonçalves, é a síntese de 'Divinas Divas'

Ficções delas mesmas, as travestis do longa venceram o preconceito e se firmaram como artistas

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2017 | 06h00

Pode ser mera coincidência, mas é muito mais uma metáfora. Em conversa, esta semana, com a distribuidora Sílvia Cruz, da Vitrine Filmes, Leandra Leal comemorava o fato de que seu longa Divinas Divas esteja entrando, nesta quinta, 22, em 38 salas. Parece pouco, nesta era de grandes lançamentos. Hoje, certos filmes entram em mil e mais salas. Para Leandra é um triunfo. Quando começou a captar para fazer o filme, só ouvia ‘não’. Nenhuma empresa queria ligar seu nome a um filme sobre travestis. As oito biografadas em Divinas Divas foram guerreiras. Pioneiras do travestismo artístico no País, enfrentaram preconceito, mas se fizeram aceitas. Rogéria define-se como a travesti da família brasileira. Só o fato de o filme, inicialmente rejeitado, maldito, estar estreando em todas essas salas já é um acontecimento.

Para Leandra, então... Embora seja sobre oito artistas do transformismo - Rogéria, Valéria, Jane di Castro, Camille K., Fujica de Holliday, Eloína, Marquesa e Brigitte de Búzios -, Divinas Divas é sobre ela, Leandra Leal. Sua história pessoal está muito ligada à do Teatro Rival, na Cinelândia, no Rio. Fundado por seu avô, Américo Leal, aquele foi o território de seu pai, de sua mãe. “Aquela cortina vermelha que eu mostro, aquele acesso para o palco, tudo aquilo faz parte das minhas lembranças mais perenes. Criança, eu já vivia naquele mundo das divas. Foi ali, no Rival, de forma muito tenra, que descobri minha vocação de atriz.” Ser atriz deu-lhe uma compreensão mais funda do outro, do diferente. “Você aprende a ver o mundo e as pessoas em 360 graus, não uma fatia.” Atriz aclamada, premiada - de cinema, teatro e televisão -, Leandra começou a produzir. Queria também dirigir, mas o quê? Quando viu, no Rival, o show Divinas Divas, descobriu seu tema - elas!

É curioso, mas Leandra fala de suas personagens no feminino. Rogéria fala de si mesma no masculino - o travesti. É que, no fundo, ela sabe que Rogéria é uma personagem de Astolfo Barroso Pinto, e nunca desistiu de ser ‘ele’. É a grande sacada de Divinas Divas. De cara, o filme possui uma das aberturas - a sequência inicial de créditos - mais belas do cinema brasileiro. Nelson Gonçalves canta Escultura. “Cansado de tanto amar/ Eu quis um dia criar/ Na minha imaginação/ Um mulher diferente,/ De olhar e voz envolvente,/ Que atingisse a perfeição.” E aparecem as imagens dos homens que vão virando essas mulheres. Todo o filme está aí condensado, com raro brilho e inventividade.

Foi durante a montagem de Divinas Divas - seu documentário que estreia nesta quinta, 22, em 38 salas - que Leandra Leal e a montadora Natara Ney chegaram a Nelson Gonçalves. “A gente parava para descansar e ficava ouvindo música. Escultura foi uma descoberta muito forte. Tentamos colocar na trilha, mas não deu. Surgiu a ideia de construirmos a cena inicial, com a transformação desses homens em mulheres idealizadas.” Divinas Divas conta a história de oito pioneiras do travestismo no Brasil. Rogéria, que se autodefine como a travesti da família brasileira, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K., Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios.

Elas formaram a primeira geração de travestis do Brasil. E, num país preconceituoso, homofóbico e que enfrentava a repressão brutal da ditadura militar nos anos 1960, conseguiram o prodígio de se fazer aceitas como artistas. O filme conta a história de cada uma e a de todas. Extrapola o conceito de documentário porque cada uma dessas personagens é uma ficção de si mesma. Se há um tema em Divinas Divas é a arte. A vida como espetáculo. Na capa, Leandra já contou como teve a ideia do filme ao assistir ao show que as divas fizeram no Teatro Rival, no centro do Rio, muito ligado à história de sua família. Cada momento teve a sua dificuldade. Captar, filmar, mas o mais demorado foi a montagem.

Foram dois anos e meio para tirar, do material filmado, a narrativa do filme. “A demora da produção e da filmagem foi por falta de dinheiro, mas a montagem, não. Quando se faz documentário, a gente nunca sabe o filme que vai sair. Ele é construído na montagem. Fizemos outras versões antes dessa (definitiva), sempre buscando as melhores histórias de cada personagem e a interação de todas.” E Leandra prossegue - “Me identifico muito com as divas porque fazem parte da minha história, mas também e principalmente porque são artistas que se fizeram respeitar. Antigamente, artista tinha de ter carteirinha de saúde como prostituta. O estigma social era imenso, agora você imagine um homem que se faz mulher. E elas ainda atravessaram toda a repressão da ditadura.”

O filme é dedicado à artista chamada de Marquesa. Rogéria diz que sempre teve apoio da mãe. “Ela me dizia que, se quisesse me vestir de mulher, tinha de ter classe. Ser fina, não p...” Marquesa fez-se mulher a despeito da mãe, que não aprovava seu comportamento. Teve, talvez, a história mais dramática das oito. Chegou a ser internada numa clínica para tentar a cura gay. “Marquesa falava com a mãe em francês. E era a mais culta de todas”, palavra de Rogéria. Divinas Divas não é só sobre travestismo. É sobre as transformações ocorridas no Brasil dos últimos 53 anos, desde que, em 1964 (!), Astolfo Barroso Pinto criou Rogéria. Leandra, como diretora, consegue dar conta de tudo - das personagens e do País. Não representa pouco. Documentários como esse, e Pitanga (de Beto Brant e Camila Pitanga) e Cinema Novo (de Eryk Rocha), estão criando novos paradigmas. Como Cinema Novo, no ano passado, Pitanga e Divinas Divas estarão entre os melhores filmes do ano, não apenas brasileiros. E não apenas documentários.

ENTREVISTA - Rogéria: 'Não abro mão de minha porção homem'

Como Astolfo virou Rogéria?

Já era transformista, estava em Paris. Aquilo é muito seco, meu cabelo virou uma juba. Já me sentia fêmea, mas, quando veio o cabelo - loira, poderosa -, foi um escândalo. Virei Rogéria.

E se despediu do Astolfo?

Nunca. Sempre teve gente querendo que eu me livrasse dele. Gosto muito do meu lado homem. Nunca quis operar.

Nunca sofreu discriminação?

Nunca deixei, e quando tentavam o Astolfo reagia. Quando criança, não sofria bullying porque eu fazia bullying nos meninos. Só sofri por amor.

E ser a travesti da família?

Uma vez, um senhor chique, com toda a família, me cumprimentou na rua dizendo - “Nós te amamos.” Esta semana, aqui em São Paulo, botei tênis, fui ao super e tive de fazer um monte de selfie. Atinjo todas as classes. Sou amada.

Você já foi criticada por não militar na causa LGBT...

E respondo: mas que militância? Sou a causa e, se essa gente toda está na rua, foi porque nós do filme abrimos caminho.

Uma pergunta bem íntima - xixi sentada ou de pé?

Depende. Sou geminiano com ascendência em leão. Quando urino de pé, sempre levanto a tampa. Homem é porco. Mulher é mais asseada. Aprendi com minha mãe.

 

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