Léa Seydoux, de 'Azul É a Cor Mais Quente', fala de seu novo filme, ‘Grand Central’

Longa trata dos conflitos entre trabalhadores numa usina nuclear

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 Janeiro 2014 | 19h50

Léa Seydoux pertence, se é que se pode dizer, à aristocracia francesa. Uma verdadeira princesa, mas não da aristocracia de sangue azul, mas aquela situada no topo da cadeia alimentar do dinheiro. Seu avô é CEO da Pathé, o tio-avô é CEO da Gaumont e o próprio pai é CEO da Parrot. Outro tio-avô possui um time de futebol, o Lille. No começo de junho passado, em Paris, após Cannes, quando o repórter conversou com ela, Léa estava gripada. Poderia ter cancelado a rodada de entrevistas, realizada no Café de la Paix, no Hotel Intercontinental, na Ópera, mas queria falar.

Estava em guerra com o diretor Abdellatif Kechiche, de Azul É a Cor Mais Quente. A pauta da conversa dividiu-se entre Azul e Grand Central, o longa de Rebecca Zlotowski que estreia nesta sexta, 24. Léa sempre disse que, como atriz, faz filmes para ser amada, e nunca teve tanto, como com Kechiche, a sensação de não ser amada. Sentia-se usada, manipulada, violentada pelo diretor. Mas nem ela era louca de negar a importância e a excepcional qualidade de Azul. Só dizia que a experiência foi ‘traumática’. Além de Azul, que ganhou a tríplice Palma de Cannes, em maio de 2013 – uma para o diretor, outras duas para a atriz Adèle Axerchopoulos e ela –, Léa também participava da seleção com o filme de Rebecca.

 

 

Grand Central vem agora juntar-se a Azul nas telas de São Paulo (e do Brasil). É bom, até melhor do que parecia em meio a uma disputa tão acirrada (e a tantos grandes filmes) como havia em Cannes, no ano passado. Azul, Um Estranho no Lago, Pai e Filho... Muita gente gostaria de acrescentar à lista A Grande Beleza, que indicou Paolo Sorrentino para o Oscar de filme estrangeiro. Grand Central não é o primeiro longa de Léa Seydoux com Rebecca Zlowotski. Há quatro anos, ela já havia feito com a diretora La Belle Épine. Rebecca é uma diretora muito interessante (além de uma bela mulher). Não faz filmes explicativos. Existem vazios que o público tem de preencher na narração de Grand Central.

O filme trata dos conflitos entre trabalhadores numa usina nuclear. Foi feito no calor dos acontecimentos de Fukushima, o que deixou a equipe tensa, mesmo que a usina em que foi filmado estivesse desativada. O princípio do filme é que o amor é mais letal que a radiação. De cara, do nada, Léa, casada com outro, cola seu corpo e seus lábios aos de Tahar Rahim, provocando a perturbação do rapaz. Ele veio trabalhar na usina, possui um passado nebuloso. Chegou sem dinheiro nenhum – Grand Central é mais um filme a abordar a cor do dinheiro.

Quando Léa se esfrega em Tahar Rahim – você quem é: o ‘profeta’ de Jacques Audiard – está só querendo mostrar como a radiação age nas pessoas. Há uma aceleração da respiração, do batimento cardíaco, mas neste caso é todo o baixo ventre (de ambos) que sofre um estremecimento. Algo se passa. Logo em seguida, em outra bela cena, Rahim e Léa dividem o apertado assento traseiro de um carro popular. Léa usa shorts. Suas coxas, o braço desnuda, tudo reativa a perturbação de Rahim. “Léa é uma das mulheres mais sensuais que conheço. Ela não precisa se fazer sexy. É, ao natural. E Tahar é uma potência. Não conheço uma mulher que não experimente desejo por ele”, havia dito a diretora num encontro com o repórter, em Cannes.

Sensual, mas desglamourizada. Cabelo joãozinho. Léa parece mais masculina em Grand Central do que em Azul. “Foi uma ideia de Rebecca. Ela achou que minha personagem, trabalhando na usina, seria uma mulher prática. Não teria muitos cuidados com a aparência.” E como é interpretar uma personagem tão diferente dela? Ela finge que não percebe a implicação ‘social’ da pergunta? “Por quê? Você acha que a personagem de Azul – o filme chamava-se La Vie d’Adèle em Cannes – tem mais a ver comigo? Olhe para mim. Estou acabada (por causa da gripe), mas se só pudesse interpretar personagens que se parecem comigo, não seria uma atriz, concorda?”

Sobre a questão atômica embutida no filme, Léa disse – “Embora o foco de Rebecca esteja na questão amorosa, acho que o filme levanta questões ecológicas e ambientais bem relevantes. Tivemos esse acidente horrível em Fukushim-a. Como não pensar no risco da contaminação? Há outro aspecto que me encanta – a solidariedade humana. A vida de todos na usina depende de cada um. E não é assim, também, no geral?”

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