Amazon Prime Video
Amazon Prime Video

'Le Bal des Folles' retrata hospital para onde eram mandadas mulheres indesejadas no século 19

'Mesmo tendo crescido assim, em uma sociedade em que as mulheres têm direitos, me sinto frustrada. Porque eu quero mais respeito', diz a diretora Mélanie Laurent ao Estadão

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

17 de setembro de 2021 | 05h00

Como toda mulher, Mélanie Laurent já foi muitas vezes chamada de louca. “Acontece toda hora”, disse a atriz e diretora em entrevista ao Estadão, por videoconferência, sobre o filme Le Bal des Folles (O Baile das Loucas, em tradução), que chega nesta sexta, 17, ao Amazon Prime Video. “Estou escrevendo um filme, dirigido, atuando, meus filhos estão no set. E aí alguém sempre me pergunta: ‘Você é louca?’. E eu: ‘Não, estou fazendo meu trabalho. Eu tenho dois trabalhos, sou mãe e sou artista, não vou escolher entre eles.” 

Laurent, criada por uma mãe que lhe dizia para buscar seus sonhos e ser livre, abriu os olhos com as discussões levantadas pelo Me Too nos últimos anos. “Mesmo tendo crescido assim, em uma sociedade em que as mulheres têm direitos, me sinto frustrada. Porque eu quero mais respeito. Fico irritada, porque esperam que fique com meus filhos com mais frequência, por ser mulher. E se estou trabalhando, obviamente eles vão ter de ficar comigo. Tenho vontade de gritar”, disse.

Por causa disso, ela estava obcecada com a ideia de fazer um filme feminista. “Claro que, sendo mulher, sempre quero filmar mulheres fortes, mas achei que era interessante ter esse espaço agora para falar do assunto mais profundamente.” Em vez de procurar uma história contemporânea, no entanto, ela foi buscar seu longa no século 19, para falar de mulheres que foram deixadas para trás pela história com “h” maiúsculo. “Eu sou uma mulher burguesa na sociedade francesa, que mudou muito desde então. Mas não aconteceu o mesmo em todos os lugares. E eu achei que era bom ter esse lembrete para nunca nos esquecermos de onde viemos”, lembrou Laurent.

Ela se emocionou com a história das mulheres do hospital La Salpêtrière, na Paris do século 19, que são personagens de Le Bal des Folles, seu quinto longa-metragem de ficção. Para lá eram mandadas aquelas com problemas de saúde mental, deficiências intelectuais e físicas, as indesejadas pelas famílias, as consideradas histéricas, as traumatizadas por abusos, as melancólicas, as independentes. Enfim, as que não se encaixavam no que a sociedade achava certo. Nos documentos da época, apenas o médico Jean-Martin Charcot tinha destaque, com seus métodos considerados revolucionários, envolvendo banhos gelados e choques elétricos. As mulheres eram simples objetos de seus estudos.

Mélanie Laurent gosta de adaptações e as encontrou no livro O Baile das Loucas, de Victoria Mas, lançado no Brasil pela editora Verus, exatamente o que buscava. A personagem principal é Eugénie (Lou de Laâge), uma jovem apaixonada por literatura e poesia que vê espíritos e conversa com eles. Por causa disso e de sua natureza independente, seu pai decide interná-la. No hospital, ela conhece a enfermeira chefe Geneviève (Laurent), que é cética, mas adoraria usar a habilidade de Eugénie para falar com a irmã morta.

O espiritismo, muito popular na França da época, foi um dos aspectos que interessaram à diretora, que se identifica com sua personagem no longa. “Eu perdi meu melhor amigo de uma maneira muito dolorosa e lenta. Então quando escrevi o roteiro pouco depois, queria alguém que pudesse me dizer que ele estava bem. Estava à procura de respostas”, disse Laurent. O amigo tinha deixado uma semente de uma espécie de couve. A planta se tornou uma árvore de três metros de altura, muito maior do que costuma ser. “Eu ia ao meu jardim e pensava: talvez isso signifique algo. Ainda não tenho respostas, mas, como para Geneviève, não se trata de ver fantasmas, e sim de se sentir melhor com a perda.”

Como o filme inverte o ponto de vista, tirando a perspectiva dos médicos, todos homens, e mostrando a visão das pacientes e como elas se sentiam, Mélanie Laurent precisava de um conjunto potente de atrizes. Algumas das figurantes tinham singularidades físicas, como a chamada doença dos ossos de vidro. “Foi muito maluco todas essas mulheres quererem participar do filme, dizer que eram belas, fortes, poderosas. Tive muita sorte de trabalhar com elas”, afirmou a cineasta. Era importante que Eugénie visse aquele hospital como um pesadelo, mas, pouco a pouco, por causa da união das mulheres, ele ia se tornando menos agressivo e estranho. “Queria ver sua evolução, de alguém que não queria estar ali para alguém que não queria deixar as outras lá.”

O triste é pensar que mulheres continuam ficando para trás por aí. “Fico pensando agora no Afeganistão. Aquelas mulheres estão sendo deixadas como foram as do hospital na França do século 19. Me sinto impotente e de coração partido.” 

Tudo o que sabemos sobre:
Amazon Prime Video

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.