Marco del Fiol
Agenda intensa. Além do programa ‘Falas Negras’, Lázaro está em três filmes, um deles como diretor, e será homenageado no festival de cinema do Ceará Marco del Fiol

Agenda intensa. Além do programa ‘Falas Negras’, Lázaro está em três filmes, um deles como diretor, e será homenageado no festival de cinema do Ceará Marco del Fiol

Lázaro Ramos faz o eco para diversas vozes negras

Ator e diretor lança luz sobre questões raciais no dia a dia e, agora, em um novo especial da TV Globo

Imagem Luiz Carlos Merten

Luiz Carlos Merten , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Agenda intensa. Além do programa ‘Falas Negras’, Lázaro está em três filmes, um deles como diretor, e será homenageado no festival de cinema do Ceará Marco del Fiol

Todos os dias deveriam ser de cidadania, de celebração da consciência negra, do empoderamento feminino, da afirmação LGBTQIA+, mas Lázaro Ramos reconhece a importância simbólica de um dia para comemorar. “As pessoas estão sempre tão imersas nas suas coisas que precisam dessas datas para parar um pouco, e pensar.” Este que ficará como o ano da pandemia será também o do Black Lives Matter. Em todo o mundo houve protestos provocados pela morte de George Floyd, e no Brasil houve o caso João Pedro. Mas Lázaro não considera que as tragédias de 2020 façam deste ano, e da comemoração do 20 de novembro – dia de Zumbi dos Palmares –, uma data mais importante.

“Há quanto tempo pessoas e entidades chamam a atenção para essa verdadeira tragédia brasileira que são as chacinas de jovens negros na periferia?”, indaga Lázaro. Nesta sexta, 20, vai ao ar o especial de Manuela Dias, que ele dirigiu, na Globo. Falas Negras chega sob o signo da expectativa, mas também provocando polêmica. Roteiristas negros reclamaram que seja uma roteirista branca a assinar a peça, com depoimentos reais de pessoas que lutaram contra a escravidão, o racismo, o preconceito. O projeto nasceu de Manuela. Há tempos, Lázaro vinha se preparando para a direção. Dirigiu teatro, o programa Espelhos, do Canal Brasil. Tomou aulas particulares para entender a técnica.

“Os não negros precisam entender o lugar de escuta”, ele diz. Lázaro já virou uma das vozes mais fortes em defesa da igualdade racial e social no País. Seu foco sempre foi a abordagem de temas relevantes, mas Lázaro sempre quis fazer isso de forma acolhedora. Transformou-se na exceção que confirma a regra do racismo no Brasil da suposta cordialidade. Além de Falas Negras, ele entra numa temporada de comemoração, e reconhecimento. No começo de dezembro, será o homenageado do 30.º Cine Ceará. Guarda uma lembrança forte. A primeira vez que foi a Fortaleza foi pelo teatro. Aproveitou uma folga e foi ao cinema. Mais do que simbólico, acha que foi premonitório. Aquela ida ao cinema lhe produziu uma euforia. Ceará, cinema, Lázaro. O festival deste ano será encerrado com Silêncio da Chuva, a adaptação do primeiro livro de Luiz Alfredo Garcia-Roza, por Daniel Filho. Um homem é encontrado morto na direção do carro e a polícia destaca uma dupla para investigar o caso, Espinoza/Lázaro e Daia/Thalita Carauta. Lázaro e Daniel Filho possuem outra parceria inédita, o longa Medida Provisória, um sonho de oito anos que Lázaro finalmente conseguiu concluir. Ele dirige e Daniel Filho produz.

Foi há quase 20 anos. O repórter foi só ao Rio, numa visita ao set. Um certo Karim Aïnouz, que depois iria adquirir a importância que todo cinéfilo sabe, estreava na direção com Madame Satã, sobre o lendário personagem das noites da Lapa. O gay que não levava desaforo para casa e enfrentava no braço, e na navalha, quem lhe faltasse o respeito. Quem fazia o papel era Lázaro, um jovem ator baiano que já fizera um pequeno papel no ótimo A Máquina, de João Falcão. Lázaro lembra: “Foi o primeiro de muitos encontros que a gente teve, em festivais nacionais e até do exterior (‘Madame Satã’ foi a Cannes). Mesmo que, eventualmente, a gente tenha estado em desacordo, compartilhamos o amor pelo cinema”.

Já que o tema é a Consciência Negra, o repórter faz uma mea-culpa. Numa entrevista feita há tempos com Lázaro, quando ele ainda não era o astro multimídia em que se transformou, o repórter perguntou que personagem ele gostaria de representar. A resposta veio rápida – “Hamlet!”. Lázaro, o príncipe da Dinamarca? Como o preconceito está entranhado na cabeça da gente. Por que não? Bastaria levar o “ser ou não ser” para o reino de Wakanda. “Cara, juro que não me lembrava dessa história, mas a gente já se conhece há tanto tempo que, se tivesse percebido alguma coisa, o que eu ia dizer é ‘Se liga, mano’. Estamos juntos na mesma luta contra a ignorância, por um mundo melhor e mais justo, em que negros, mulheres e gays sejam plenamente reconhecidos em seus direitos. A luta pelo cinema brasileiro.” Lázaro não fez seu Hamlet, mas fez um Espinoza preto e até um Arandir negro na transcrição da peça de Nelson Rodrigues Beijo no Asfalto, por Murilo Benício. Tem quebrado barreiras, estabelecido paradigmas.

Na pandemia

A pandemia o trancou em casa com a mulher, Taís Araújo, e os filhos. “Só tive consciência da volta quando a Taís recomeçou a gravar Amor de Mãe. Todo dia ela trazia as novidades do novo normal, com todos os protocolos de segurança adotados pela Globo. Eu ainda resisto a sair. Por mais importante que seja a homenagem no Cine Ceará, não estarei lá presencialmente, até já gravei um vídeo de agradecimento que expressa tudo o que sinto, mas não vou arriscar. A pandemia não acabou.” 

É curioso como justamente nesta semana esteja estreando o novo filme de Jeferson De, M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida (mais informações aqui). “Adoro o Jeferson e a gente vivia combinando de trabalhar junto. Ele me enviou o roteiro, me propondo o papel de protagonista. (O filme é sobre um garoto negro da periferia que vai cursar medicina e fica obcecado pelos corpos negros que disseca nas aulas de anatomia. Dar um enterro digno ao corpo negro que retalhou, referido apenas como M-8, é o mínimo que ele acha que pode fazer.) Mas depois de ler eu lhe disse que o personagem que toparia fazer seria o cadáver. ‘Mas como, nem tem falas!’, retrucava o Jeferson. No final, fiz só uma participação.”

São aquelas coisas – coincidências? O repórter conversa com Lázaro pelo telefone imediatamente depois de rever o filme de Jeferson numa cabine de imprensa. No filme, as mães de jovens negros desaparecidos – vítimas da violência policial – vão às ruas para protestar. Juan Paiva, que faz o estudante, pesquisa na rede e encontra a reportagem que fala num total de 30 mil jovens mortos, e 77% deles são negros. E Lázaro: “Demorei um tempão para fazer meu filme porque sentia que precisava me preparar. Você fala em 77% dos mortos como jovens negros. O filme tem 77 papéis, e eu sentia que precisava me preparar para dar a cada ator a atenção que o papel exigia. Não creio que essas coisas sejam meras coincidências. Esse número 77 tem de significar alguma coisa. A gente precisa prestar mais atenção nesses símbolos”.

Nos últimos anos, Lázaro tem diversificado suas atividades. Tem escrito livros – o autobiográfico Na Minha Pele e os infantis. Caderno Sem Rimas da Maria, Caderno de Rimas do João, A Velha Sentada, Sinto o Que Sinto. “A cultura é necessária. Ler é preciso, é ferramenta para a mudança.” No filme de Jeferson De, Juan Paiva é filho de Mariana Nunes, que faz uma profissional da saúde que deu duro para criar o filho sozinha. Mariana Nunes! Numa cena, ela discute com o filho. Ele eleva o tom de voz, ela grita – “Preste atenção, garoto. Tem aqui uma mulher preta falando. Ouve!”. A cena já nasceu antológica. Mariana é uma atriz excepcional. Lázaro concorda: “Cada vez mais ela adquire reconhecimento”. Mariana fez uma participação de duas semanas na novela Amor de Mãe e a personagem tomou conta dos debates. “Creio que é por isso que lutamos atualmente. Pelo reconhecimento da potência das vozes negras. Representatividade e reconhecimento. É por isso que nós, pretos deste Brasil, ainda estamos lutando.”

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Filme 'M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida' é espelho no qual se reflete o Brasil

Obra do cineasta Jeferson De, que estreia dia 3 de dezembro, reflete sobre violência e desigualdades

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2020 | 05h00

Jeferson De não dispensa suas madrinhas, Zezé Motta e Léa Garcia. Zezé fez com ele o curta Carolina, sobre Carolina Maria de Jesus, a lendária autora de Quarto de Despejo. O livro virou um fenômeno editorial no Brasil do começo dos anos 1960. A favela vista pelo ângulo da favelada. O jovem Jeferson já dizia a que vinha. Criou o chamado “Dogma feijoada”, um cinema de comprometimento sociopolítico e estético. Entre erros e acertos, ele virou uma das vozes negras mais interessantes do cinema brasileiro.

No dia 3 de dezembro estreia seu longa M-8 – Quando a Morte Socorre a Vida, uma produção da Migdal Filmes de Iafa Britz. Jeferson chegou a oferecer o papel de protagonista a Lázaro Ramos, que declinou. Quem teve sorte nessa foi Juan Paiva, que ficou com o papel. Teria de ser ele, porque o personagem é um estudante de medicina. A juventude é necessária. Juan foi o Wesley da novela Totalmente Demais, é o Anderson da atual temporada de Malhação. O que o garoto tem de bonito, tem de talentoso.

Talvez o sonho de Jeferson De seja ser o Antoine Fuqua do cinema brasileiro. Você sabe quem é. Fuqua dirigiu Dia de Treinamento, O Protetor e o remake de Sete Homens e Um Destino, todos com Denzel Washington. Fuqua conseguiu criar um enclave negro na Sony/Columbia. Quando o repórter o visitou no estúdio, surpreendeu-se com a quantidade de jovens negros na equipe. Black lives matter. O sucesso dos filmes de Fuqua lhe garantem essa liberdade em Hollywood. M-8 é um número, uma etiqueta que identifica um dos cadáveres na morgue da faculdade. À dupla de colegas de quem fica próximo, Juan assinala o mal-estar. Eles não percebem que os cadáveres retalhados nas aulas de anatomia são predominantemente negros? Ele chega a se projetar nesse M-8. Tem pesadelos horríveis.

Juan encontra na rua essas mães negras, da periferia, que clamam pelos filhos desaparecidos. Enterrar M-8 torna-se uma forma de afirmação para ele. De cara parece que Jeferson De vai seguir a trilha do cinema de gênero – o horror. Não faltam sinais inquietantes, como a presença do cadáver mudo no terreiro onde ele acompanha a mãe.

Juan Paiva tem tudo para fazer uma bela carreira. Mas o filme é dominado pela presença trágica de Mariana Nunes, como sua mãe. Quando ela está em cena, não tem para ninguém. M-8 é relevante por seu foco nas questões racial e social do Brasil. A cena da abordagem policial, quando Juan é derrubado, é uma síntese da brutalidade da repressão no País. O policial ainda repreende o garoto, diz que ele “está dando mole em zona de branco rico”. Aquilo é um espelho no qual se reflete o Brasil. 

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A cantora e compositora Paula Lima. Denise Andrade

‘O Negro precisa de espaço’, diz Paula Lima, que defende cotas para diminuir a desigualdade no País

Na Semana da Consciência Negra, o Estadão traz uma série de reportagens com pessoas que são destaques em diferentes áreas da cultura

Danilo Casaletti , Especial para o 'Estadão'

Atualizado

A cantora e compositora Paula Lima. Denise Andrade

Quando Paula Lima assistiu ao vídeo no qual o policial americano pressiona o pescoço de George Floyd até sua morte, em maio deste ano, resolveu que usaria suas redes socais para “dar voz a quem não tem” - sobretudo negros e mulheres. “Sou uma cidadã que busca seus direitos, acredita em causas e se sente no direito de defendê-las”, explica.

 

 

Isso não significa que ela não o fizesse antes. No início dos anos 1990, quando começou sua carreira na música, já tinha muito claro que o soul - gênero musical originário nas comunidades negras americanas nos anos 1950 - e a black music seriam seu norte. Não foi fácil. Quando tentou pela primeira vez se lançar em carreira solo, ouviu de um produtor que não seria legal ter um disco de duas cantoras negras no mercado naquele momento - uma outra cantora estava lançando um disco na mesma gravadora.

“Eu poderia ter desistido ali”, lembra.

Desde março, Paula Lima é uma das diretoras da União Brasileira dos Compositores (a UBC) e, com a pandemia, assumiu, além da tarefa de defender os direitos autorais, as lives da entidade nas quais já conversou com nomes como Elba Ramalho, Fafá de Belém, entre outros. Paula ainda apresenta, desde 2016, na Rádio Eldorado FM, o Chocolate Quente, programa dedicado à música negra e, recentemente, foi convidada a assinar uma coluna no site da revista RG.

 

 

 

Você passou a integrar a diretoria da UBC em março. Por que decidiu aceitar o cargo?

O Marcelo Castelo Branco, que é o CEO da UBC e já foi meu diretor em gravadora, há 20 anos, na Universal, me convidou. Eu pensei um pouco porque é um trabalho burocrático, diferente das coisas que eu faço. São 35 mil associados, uma instituição seriíssima que tem como foco defender os direitos autorais. Logo que assumi, a pandemia chegou. Então, o Marcelo criou as lives com parceiros para ajudar a UBC e me chamou para apresentá-las. Foram arrecadados R$ 1,8 milhão que ajudaram mais de 1.100 associados. 

 

 

E como fica o tempo para a música, para sua carreira?

Minha carreira continua com meu programa de rádio, Chocolate Quente, na Eldorado FM, que é meu xodó, tem as lives, e, por conta, do meu engajamento nas redes - porque acho que a pandemia me deixou mais atenta para certas questões, sobretudo depois da morte do George Floyd - resolvi dar voz a quem não tem. Comecei a escrever no meu perfil no Instagram e o site da RG me convidou para ter uma coluna semanal. Então meu tempo está bem apertado. Mas são todos compromissos que eu acredito.

 

 

Você já foi vítima de racismo?

Já. Não existe um negro no Brasil que não tenha sido vítima de racismo. Com o fim da escravidão, não houve reparação. São quase 500 anos de uma posição muito ruim para nós, negros, no Brasil. Sem essa reparação, e quando falo dela me refiro às cotas e políticas públicas, não conseguimos dar passos maiores. Não é vitimismo, é realidade. 

 

 

A música popular brasileira é igualitária em gênero, raça e cor?

A música brasileira é popular, no sentido de ritmos que ganham mais espaço. É normal. Respeito todo mundo que faz música. Quando penso em mulheres negras que têm destaque, penso que a história vem se abrindo um pouco. Quando falamos de Ludmilla, Iza, Alcione, Karol Conka, Elza Soares... Estamos no processo. Tem uma nova geração maravilhosa que não posso deixar de falar, com Larissa Luz, Luedji Luna Majur, Liniker, Xênia França. Elas estão fazendo um supersom e criando um público. 

 

 

O que cada um pode fazer para diminuir a desigualdade racial no Brasil?

Em primeiro lugar, entender sobre privilégios. É importante não só reconhecê-los, mas abrir mão deles. Em segundo lugar, é entender que não existe meritocracia no Brasil. Fizeram a gente acreditar que se não conseguimos as coisas é porque éramos fracassados. Se eu estou em uma posição melhor e o outro não, não é porque ele é um preguiçoso. Ele precisa de espaço. Precisamos ter jornalistas, atores, juízes negros... E todo mundo tem que defender um negro que está sendo atacado por sua cor. Cor não é sinônimo de inferioridade.

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