Léo de Azevedo/AE
Léo de Azevedo/AE

Lázaro Ramos fala da carreira e do primeiro filho

Ator estrela o filme 'Amanhã Nunca Mais', que chega aos cinemas nesta sexta-feira

Felipe Branco Cruz - Jornal da Tarde,

10 de novembro de 2011 | 21h43

No filme Amanhã Nunca Mais, do diretor Tadeu Jungle, o ator Lázaro Ramos, de 33 anos, interpreta Walter, um passivo anestesista que não consegue dizer "não". Por conta dessa condição, Walter irá se meter em inacreditáveis situações só para buscar o bolo de aniversário da filha. Durante 77 minutos de projeção, Walter fala apenas duas vezes a palavra "não". "É muito difícil ficar sem dizer não", diz Lázaro. Para interpretar o personagem, o ator acompanhou o trabalho de um anestesista de verdade.

Ao JT, o ator contou desta experiência, mas falou também que, por conta do filme, passou a estudar o livro Amor Líquido, de Zygmunt Bauman.

Lázaro também falou do que chamou de seu 'ano da paternidade', marcado pelo nascimento do primeiro filho, João Vicente (com a atriz Taís Araújo, em junho), e pelos papéis de pais, na novela global Insensato Coração e agora no cinema.

O que você descobriu assistindo a diversas cirurgias?

Eram cirurgias estéticas e espero não ver isso nunca mais. Muito sangue, muito corte. Você se sente um pedaço de carne. Mas foi muito útil. Meu personagem é um anestesista que está anestesiado da vida. Foi bom para pegar um pouco da personalidade do personagem. E eu achava que os médicos ficavam concentradíssimos em cirurgia. Mas nada. Eles falam de qualquer coisa, escutam jogos de futebol. Foi uma surpresa pra mim.

No filme, dá tudo errado para Walter. Acha que isso acontece frequentemente numa cidade como São Paulo?

Nunca vivi uma situação semelhante ou tão transformadora quanto a de Walter. Mas tive dias na vida que foram bastante tensos. Eu lembro de uma vez, em Nova York - mas aí o cenário é perfeito - em que eu saía de um lugar para outro, conhecendo pessoas. Depois entrei numa van e não sei como voltei para o hotel.

Seu personagem não consegue dizer 'não'. Como trabalhou essa passividade?

Uma das coisas mais difíceis no mundo é não poder dizer não. No filme eu só falo 'não' duas vezes. O exercício era esse. Quando saía do set, eu saía dizendo não para todo mundo. O exercício da negativa é importante. Ninguém deve se violentar por causa do desejo do outro. Essa é a grande violência do personagem. Ele está se violentando durante 77 minutos. Ninguém merece passar por isso.

A história mexeu com você?

Depois do filme, eu passei a estudar filosofia e vi que está tudo ligado. É um pouco do que (Zygmunt) Bauman fala no seu livro Amor Líquido, sobre as relações fugazes da vida e de como isso transforma as pessoas.

Por que você decidiu estudar esse autor?

Não faço a menor ideia. Comecei a fazer umas oficinas filosóficas na Casa do Saber, no Rio de Janeiro, e ouvir falar dele. Então eu comprei o livro. No meu ócio, eu estudo.

Hoje qual é a sua prioridade na carreira? Fazer TV ou cinema?

Minha prioridade é estar muito bem acompanhado. Isso faz diferença para mim. Não só para que o tempo de trabalho no set de filmagem seja agradável, mas porque meu processo criativo se dá na junção. Eu estava lendo uma entrevista com o cara da série House (Hugh Laurie). Ele disse que não vai protagonizar mais nenhuma série porque já fez um personagem incrível. Agora ele quer dirigir. Olha que maravilha, ele já está satisfeito! Eu, para não cair na obsolescência, preciso me renovar. Não adianta ter feito Madame Satã (2002) ou o Homem que Copiava (2003). Sinto que vou compreendendo minha função de ator a cada novo trabalho.

Novela é um trabalho que demanda muito tempo do ator?

Tem que ser um autor interessante. Eu só fiz três novelas. Não tenho a sensação de estafa que outros atores têm. Mas não estou focado em fazer isso ou aquilo. O projeto tem que seduzir.

O que achou do resultado de 'Insensato Coração'?

Foi mais um passo, mais um aprendizado, mais um exercício como ator. Fiz um tipo de personagem que talvez eu não exercitasse se não fosse esse convite. Era um personagem desafiador porque não se encaixava numa descrição. Não era galã ou mau caráter. Eu tinha que ir reescrevendo a cada capitulo. E isso para um ator é bacana. É um exercício.

Como está a vida com o primeiro filho?

O João Vicente? Ele está ótimo. Estou conseguindo entregar o bolo. Estou muito feliz. É uma grande responsabilidade ao mesmo tempo que é surpreendente a cada dia. Você tem que conduzir o bichinho ali. Ele está chegando ao mundo. Paternidade é o assunto desse ano para mim. Foi na novela, no filme e em casa.

E Hollywood, te seduz?

Não tenho projeto, não. Sou um tipo de ator que não sei como seria incorporado num mercado como esse. O cinema brasileiro me trata muito bem e tem muitas pessoas com quem eu gostaria de trabalhar. Se acontecer naturalmente, eu gostaria sim de trabalhar lá.

O que quer dizer com isso, como seria incorporado ao mercado?

Como é que é esse ator baiano, pretinho, que faz comédia vai se encaixar nesse mercado? Que tipo de personagem eu vou fazer? Mas não estou falando da questão de ser negro. Sou um ator que fala inglês com sotaque forte. Se tiver trabalho para mim, será um bem específico. Não seria uma carreira longa, como eu tenho no Brasil.

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