BEATRIZ LEFEVRE/DIVULGAÇÃO
BEATRIZ LEFEVRE/DIVULGAÇÃO

Lázaro Ramos e a arte de diversificar

Ocupado com questões como consciência negra e cidadania, o ator multiplica-se no cinema, teatro, TV e literatura

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

06 de dezembro de 2015 | 06h00

Lázaro Ramos brinca ao falar sobre Sérgio Machado, seu diretor em Cidade Baixa e Tudo Que Aprendemos Juntos. “Agora, ele elogia, mas o Sérgio não estava muito seguro de que eu devesse fazer o papel. Tive de rastejar diante dele para fazer o violinista de Tudo...” E por que Lázaro, um dos maiores atores de sua geração – além de um ‘astro’, embora ele não goste muito da definição, na TV e no cinema –, queria tanto fazer o filme? “Porque, para mim, o Tudo... é irmão ou, pelo menos primo, de Central do Brasil (o longa de Walter Salles). Não é sobre ‘vamos dar uma chance para esses coitadinhos’, é sobre a ética numa periferia em busca de estima e reconhecimento.”

Tudo Que Aprendemos Juntos estreou na quinta-feira, 3, depois de passar incólume pelo Festival do Rio e de ganhar o prêmio do público na Mostra. Em São Paulo, revelou Renata de Almeida, diretora do evento, foi o filme mais visto e bem votado da Mostra, incluindo toda a programação internacional. Não é pouca coisa. “Já participei de filmes que repercutiram em festivais, como Madame Satã e Cidade Baixa. Mas o Tudo... está sendo outra coisa. Já foi vendido para 22 países, com garantia de lançamento. Mexe com as pessoas. Mexeu comigo.” E como mexeu? “Representava lá em Heliópolis com garotos da comunidade. Todos tinham histórias de vida fortíssimas. Eles olhavam para mim e não acreditavam que estavam atuando com o cara da TV e do cinema. Eu olhava para eles e me dava conta de como eram bons. E ainda havia o violino. Cara, é muito duro representar que você é um virtuose.”

Nos últimos tempos, Lázaro Ramos tem estado no centro de debates que agitaram as redes sociais. Uma conversa com Criolo no Espelho, programa que ele tem no Canal Brasil, incrementou o debate sobre a classe C. E sua mulher, a atriz Taís Araújo, foi à luta ao ser atingida na sua condição de mulher negra. “Desde garoto, quando comecei a fazer teatro com o grupo Bando, do Olodum, nunca tive limites sobre os papéis que podia fazer. Tenho até hoje essa convicção de que o ator de verdade pode interpretar qualquer papel, independentemente de ser branco, negro, indígena ou oriental. Agora mesmo, Murilo Benício, em sua estreia como diretor, me chamou para fazer o protagonista de O Beijo no Asfalto. Ele observou que, no texto do Nelson (Rodrigues), não tem nenhuma indicação de que o Arandir deve ser branco. Me propôs – ‘O que você acha que pode dar se você fizer o papel?’. E eu respondi que o que ia dar eu não sabia, mas que queria fazer.”

Cinema, teatro, TV, literatura infantil. Lázaro está em todas. Ele está adorando a repercussão de Mister Brau, o seriado que faz na Globo com a mulher, Taís Araújo, e texto de Jorge Furtado. Na quinta, conversava com o repórter de casa, pelo telefone, mas já estava pronto para ir às gravações no Projac. “A Globo está feliz com a audiência, vamos começar a gravar a segunda temporada em janeiro.” Um casal de negros bem-sucedidos, num condomínio de luxo. “O público adora comédia e a pena do Jorge (Furtado) tem essa combinação de humor e inteligência. As pessoas adoram, e eu também.” E ele reconhece um avanço – “Existe mais reconhecimento dos profissionais negros no Brasil e no mundo, e estou falando do aval do público. Quando prestigia esses programas com conteúdo, identidade e protagonistas negros, o público está mandando um recado, dizendo que quer ver isso e quer ver mais.”

Apesar do avanço, Lázaro acha que ainda estamos atrasados. “Os americanos estão à frente, com séries como Scandal, How To Get Away with Murder, que trazem uma diversidade muito grande na maneira de inserir o negro na TV e de trazer criadores negros para o mercado cultural.” Essa tríplice preocupação – com consciência negra, inserção cultural e cidadania – tem definido as escolhas de Lázaro, de uns anos para cá. “Antes, eu já tinha uma ótima resposta, mas tinha a impressão de estar atingindo um público que pensava como eu. Dei-me conta de que precisava me comunicar com plateias mais amplas, que tinha de diversificar.”

A peça O Topo da Montanha, da norte-americana Katori Hall, sobre Martin Luther King, nasceu desse desejo. “Quem descobriu a peça foi a Taís (Araújo) e, quando entrevistei o ministro Joaquim Barbosa para o Espelho, descobri que o assessor dele, que nunca tinha feito nada para teatro, havia traduzido o texto, veja a coincidência. A peça não é sobre o grande homem, ou melhor, é a humanização do grande homem, algo no estilo ‘Nós podemos, nós fazemos’. O sucesso tem sido gratificante.” Lázaro conta essas histórias e tosse, o tempo todo. Conta que está sob um surto de sinusite ‘brava’, e arremata. “Serve ao papel, porque, quando a peça começa, o Martin também está tossindo.”

Já falamos do artista, do cidadão. Falta o pai. Lázaro é pai de dois filhos – João Vicente, de 4 anos, e Maria Antônia, de dez meses. “Sou do tipo participante, troco fraldas e tudo.” Seu terceiro livro infantil foi lançado no mês passado. O Livro de Rimas do João nasceu como uma brincadeira de pai e filho. “O João vivia me fazendo perguntas e surgiu essa ideia de um minidicionário para explicar as palavras por meio de trocadilhos e rimas.” E não são só palavras fáceis. Já pensou em explicar para uma criança o que é candidato, ou o que é sonegar? Está lá no livro. O filme está em 73 salas de todo o País. A peça está no Teatro Faap. Mister Brau às terças, na Globo, após a novela das 9. O livro, nas livrarias. Lázaro está em todas.


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