"Lavoura Arcaica" entra em cartaz

Um dos filmes mais badalados dos últimos tempos enfrenta finalmente a prova das telas. Lavoura Arcaica, que Luiz Fernando Carvalho adaptou do romance de Raduan Nassar chega ao circuito com a fama de ser uma das mais radicais produções do novo cinema brasileiro, cercada de elogios de boa parte dos críticos e algumas restrições tão isoladas quanto discretas.Já se disse que Lavoura é resultado de um esforço concentrado do diretor e do elenco, que ficaram isolados dois meses em São José das Três Ilhas, um lugarejo em Minas Gerais, para se embeber do espírito rural que impregna o texto. Carvalho foi ao Líbano, em companhia de Nassar, para entrar no clima, já que a história é a de uma família de origem libanesa que emigrou para o Brasil. Essa radicalidade de produção redundou num filme extenso, de quase três horas de duração.A história, imaginada por Raduan Nassar, e fielmente reproduzida por Luiz Fernando Carvalho, é um comentário sobre a parábola do filho pródigo. O filho é André, vivido por Selton Mello. Ele foge da família, asfixiado pelo autoritarismo do pai (Raul Cortez), por um amor materno que não deixa espaço para respiração, e, principalmente, pela atração irresistível que sente por sua irmã, Ana (Simone Spoladore). André foge, mas volta ao redil, trazido pelo irmão, Pedro (Leonardo Medeiros). E ao voltar, reencontra, intactos, todos os motivos que o haviam feito bater em retirada. Enfim, Lavoura Arcaica fala de um intenso caldeirão emocional e inclui temas como amor, ódio, opressão e incesto. Não é pouca coisa, e o espantoso, quando se lê o livro, é notar como Raduan conseguiu unir concisão e barroquismo nesse texto curto e explosivo.Mas o que se espera de um filme que adapta um livro? Que seja inteiramente "fiel" como se costuma dizer? Não, mesmo porque cinema e literatura são duas linguagens distintas e uma não pode ficar devendo à outra. Em termos pernósticos, trata-se de uma operação transemiótica, que vai de um meio a outro. Por isso, o bom adaptador precisa, num primeiro momento, deixar-se fascinar pelo texto e, em seguida, livrar-se desse fascínio para cuidar de sua linguagem própria. Já se disse que o excesso de reverência de um diretor para com um livro é o caminho mais fácil para o fracasso.Não é o que acontece com Lavoura Arcaica e Luiz Fernando Carvalho, pelo menos não completamente. Mas nota-se que a preocupação em não deixar nada de fora acaba por lhe criar alguns problemas.A duração dele, em si, não seria um deles. Tamanho não é documento, num sentido ou no outro. Mas o tom recitativo do protagonista poderia ser evitado. E acontece que Lavoura Arcaica, o filme, incorpora uma prolixidade que não está no livro. Raduan produz impacto pela força da linguagem, a riqueza das metáforas, e uma intensidade que vem, em parte, da concisão. No filme, esses tempos se distendem, produzem um relaxamento que não se encontra no espírito da obra original. Daí a sensação de alternância entre momentos de poesia visual pura e pontos de estrangulamento da trama. Essas oscilações podem dificultar o relacionamento do espectador com a obra.Enfim, Lavoura Arcaica não atinge o impacto desejado. Um filme sobre paixões humanas primárias, e dirigido ao emocional do espectador, consegue, por paradoxo, ser frio até demais.

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