Zeta Filmes
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Lav Diaz fala sobre a duração de seus filmes, Tolstoi e redenção

Ele dirigiu 'Canção para um Doloroso Mistério' e A Mulher que se Foi', com oito e quatro horas de duração

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

09 Maio 2017 | 04h00

Maluco! Lav Diaz faz um filme curto para seus padrões exagerados de duração e, no mesmo ano, vence o Prêmio Alfred Bauer, para o filme mais inovador, como ‘forma’, no Festival de Berlim de 2016 – Canção para Um Doloroso Mistério – e seis meses depois ganha o Leão de Ouro em Veneza com A Mulher Que se Foi. Dois (grandes) prêmios que tirariam do sério qualquer autor, por sua importância. E por dois filmes que, juntos, ultrapassam 12 horas de duração. Canção dura pouco mais de 8 horas; A Mulher – que está em cartaz nos cinemas – tem ‘apenas’ quatro. Em Berlim, no ano passado, Lav Diaz explicou numa rodada com jornalistas sua relação peculiar com o cinema e o tempo.

A uma pergunta sobre como trabalhava com seus atores, ele deu justamente o exemplo do filme que ainda estava fazendo – A Mulher Que se Foi. “Charo Santos-Concio é uma atriz mítica no imaginário do povo filipino, mas, há quase 30 anos, ela não atuava. Foi ser executiva de um grande conglomerado. Encontrei-a num evento social, depois em outro. Conversamos, e perguntei se ela não gostaria de voltar a atuar. Ela respondeu que dependeria do projeto. Pensei então numa história de Tolstoi, o autor russo. Deus Vê a Verdade, mas Espera. Apresentei-lhe o projeto. Uma história de espiritualidade e perdão num ambiente de violência. Em dois meses, estávamos filmando. Um mês depois, as imagens já estavam captadas. Agora (fevereiro de 2016), preciso voltar a Manila para finalizar.”

Justamente, Manila. Falando sobre Canção para Um Doloroso Mistério, disse que o cinema filipino é quase todo urbano e os diretores gostam de filmar na capital, cujos problemas são uma súmula do país. Ele, não. Pode estar baseado em Manila e aí finalizar seus projetos, mas seu prazer é sair na natureza e descobrir novos lugares. “Às vezes, pego um barco, vou a uma ilha e, quando me dou conta, já estou construindo algum tipo de história ditada pelo ambiente.” A pergunta que nunca quer calar quando se fala com Lav Diaz – por que seus filmes são tão longos? Numa era de informação rápida, e instantânea, por que se arriscar em filmes de oito horas de duração? “Eu realmente não tenho explicação para isso. Sei que estou fugindo aos padrões do cinema comercial, e que meus filmes terão pouca visibilidade. Conto as histórias que me motivam, não faço filmes para o mercado. Nunca digo – ‘Vou fazer um filme de oito horas’. Mas aí ele fica com oito horas. Faço duas ou três versões na montagem, mas nunca é para encurtar. Escolho a melhor e os filmes terminam tendo a duração que têm, e eu sempre preciso de tempo para mostrar meus personagens, o mundo em que vivem.”

Lav gosta de dizer que o cinema sempre fez parte de sua vida – “Morava no interior, mas meu pai nos levava à cidade para verdadeiras maratonas de filmes. Víamos tudo nos fins de semana. Filmes asiáticos, de Hollywood. Muito preto e branco. Formei assim meu imaginário, bem aleatório.” Muito jovem ele teve filhos. “Precisei trabalhar para sustentar a família. Ganhava dinheiro como músico. Era minha profissão.” Mas um dia ele descobriu o cinema de Lino Brocka, considerado (com De Leon) um dos mestres fundadores do cinema nas Filipinas. “Pensei comigo que era alguma coisa que gostaria, e poderia fazer.” Tornou-se cineasta, simples assim, mas se você lhe pergunta o que é o cinema, Lav Diaz desconversa.

“Li alguma coisa sobre a teoria do cinema, e me identifiquei mais com as ideias de André Bazin, mas não sou, nunca fui, nenhum teórico. Aprendi a mexer com a câmera, a iluminar, sei contar uma história, trabalho bem com atores, mas nada disso define para mim uma ideia de cinema, e eu não tenho. Sou um intuitivo, no fundo. Sigo meu instinto. Trabalho com as pessoas com quem me identifico, e que se identificam comigo.” Canção para Um Doloroso Mistério é sobre a luta colonial contra a Espanha, contando como algumas pessoas procuram o cadáver do mítico Bonifácio, herói das guerras da independência. “A sociedade filipina é regida pelos mitos. Ferdinand Marcos se elegeu, e se manteve no poder, numa ditadura bárbara, alimentando no imaginário popular a ideia de que tinha nove vidas. Meu próximo filme – A Mulher Que se Foi –, se passa em 1997, um ano muito violento na história das Filipinas, marcado pelos sequestros de estrangeiros. Minha protagonista (Charo Santos-Concio) será essa mulher que foi presa injustamente e vai querer se vingar, mas é um filme sobre a superação. Tolstoi, no final da vida, doou todos os seus bens, mas seguiu questionando o sentido da existência. É uma atitude muito budista, que quero expressar através dela.” 

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