Divulgação
Divulgação

Laurent Cantet fala de ‘Foxfire’ e do mal-estar político e social dos anos 1950

Filme retrata universo de garotas que precisam se unir para enfrentar a violência machista

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2013 | 22h10

Embora o livro de Joyce Carol Oates tenha sido filmado com Angelina Jolie em 1996, o diretor Laurent Cantet não se intimidou e escolheu Foxfire como projeto, logo após ganhar a Palma de Ouro com Entre os Muros da Escola, em 2008. Ele ainda montava Entre les Murs, sem saber das sensação que o filme provocaria em todo o mundo. Leu-o de um jato, sem parar, como explicou ao repórter, mas somente agora, com o distanciamento, pode dizer que o livro o influenciou muito mais do que ele poderia admitir na época. A Palma possibilitou-lhe a parceria para fazer o novo filme de época, como queria.

Numa entrevista em Paris, no começo de junho, após o Festival de Cannes – os encontros com atores e autores organizado pela Unifrance –, Cantet analisou as diferenças e similaridades entre seus dois filmes. O repórter também queria extrair dele algum comentário sobre o filme de Sofia Coppola, The Bling Ring, que havia passado em Cannes, mas Cantet não o vira, como também não viu o filme com Angelina Jolie. O curioso é que Foxfire, com o mesmo subtítulo do romance, Confissões de Uma Gangue de Garotas, estreia na sequência de Bling Ring, que permanece em cartaz.

Dois filmes sobre jovens que formam quadrilhas. O de Cantet passa-se nos anos 1950, a irmandade – mais que quadrilha – é de garotas, e elas percebem que precisam se unir para enfrentar a violência machista e tentar mudar o mundo. No filme de Sofia, os jovens são mistos, garotos e garotas. Vivem grudados na internet e roubam casas de celebridades para ter acesso aos itens de consumo que sua condição social não lhes permite. Cantet põe o foco na política. Os jovens de Sofia mesmo quando falam de política – uma garota quer criar uma ONG – o fazem de forma alienada. A maioria não quer saber do assunto.

Foxfire de 17 anos atrás também evita a política, que é o que interessa a Cantet. “Não vi o filme porque não queria sofrer nenhuma influência. Não queria deixar de colocar nas tela aspectos importantes do livro só porque já teriam sido abordados ou não teriam funcionado na outra adaptação. Vi só o trailer, e deu para perceber que os focos não poderiam ser mais diferentes. Imagino que alguém possa dizer que sou ultrapassado, que luta de classes é coisa do passado. Eu acho que essas pessoas deveriam voltar a ler (Karl) Marx, se é que algum dia leram. Os excluídos sociais e políticos são legião, o consumismo fútil gerou uma alienação sem precedentes.”

O diretor conta que tentou transpor a história para a França dos anos 1950, mas não havia equivalência e o filme perderia a força. “Toda a questão do anticomunismo era decisiva na América e eu não a sacrificaria por nada. Era importante manter o filme naquela época para poder falar de revolução e sonho americano.” Há um personagem secundário que é muito importante para Cantet – o velho padre comunista que renega Deus e diz que as coisas sempre terminam por se repetir. Como em Entre os Muros da Escola – e todos os seus demais filmes –, Cantet repete sempre a mesma pergunta que o obceca. “Como podemos resistir à violência que nos é imposta pela sociedade?” Outros autores talvez se façam essa mesma pergunta, mas não encaram o assunto do mesmo jeito. A Cantet, o que interessa é filmar o grupo.

Meia dúzia de garotas unem-se para resistir à violência dos homens, mas elas pegam em armas, começam a reproduzir a dominação do universo masculino e a exibir fissuras internas em seu grupo. “O que houve conosco?”, pergunta-se a narradora do grupo, Maddy. Só Legs, a criadora do Foxfire, permanece intransigente e, no final, quando as sobreviventes do grupo reavaliam a experiência, só ela parece carregar a “chama”. O filme, inclusive, termina em aberto, com uma referência à revolução que Fidel Castro fazia em Cuba no fim daquela mesma década. “As jovens libertárias terminam virando terroristas. Se não fosse um grupo, mas uma nação, diria que o ímpeto revolucionário degenerou numa ditadura, e isso é o que ocorre com frequência. A história não deixa mentir.”

Cantet conta que, embora sua intenção tenha sido manter a ação no passado, ele nunca encarou Foxfire como um filme “de época”. “Não queria que o virtuosismo da reconstituição virasse uma ferramenta para distrair o público. Se essa história me interessa, é por sua atualidade. Quero que o espectador veja o filme nos anos 1950, mas pensando nos anos 2010.” O mais difícil, em todo o processo, ele acrescenta, foi achar as garotas. “O casting foi muito mais difícil que em Entre os Muros da Escola. Aqueles jovens eu conheço, fazem parte do universo de minha família. São meus filhos e seus amigos. Aqui, eu queria garotas diferentes, mas de personalidade forte, e que se organizassem num grupo. Cada uma que entrava no elenco tinha de ser vista como indivíduo e parte de um grupo. Foi complicado, mas as garotas me surpreenderam. E isso é ótimo para um diretor.”

O velho padre é outro personagem decisivo. Combatente em 1917, ele acompanhou as transformações do mundo. e. naquele momento, em meados dos anos 1950, virou um outsider. “Ele diz as frases mais importantes do filme para mim. Quando fala na necessidade de ser feliz, na ditadura da felicidade, expõe o meu pensamento. Há toda uma engrenagem em marcha para estimular as pessoas a pensarem somente nelas mesmas. O que posso ter, o que posso ganhar? A felicidade, a liberdade, tudo hoje se reduz a possuir coisas. Eu também quero coisas, mas minha felicidade não está ligada a nada disso. Se Foxfire ajudar as pessoas a pensar um pouco, como em Entre os Muros da Escola, todo o esforço terá valido a pena.”

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.