"Latitude Zero" faz a opção pelo cinema radical

O assassinato de 12 assaltantes queplanejavam roubar um avião pagador. Um garoto encontrado morto,na posição fetal, em um bueiro. "A realidade tem sido muitomais violenta que a ficção", comentou o cineasta Toni Venturi,ao observar os assuntos que foram notícia em São Paulo naterça-feira, quando conversou com a reportagem. Ele é o diretorde Latitude Zero, filme que estréia amanhã e já éapontado como uma opção pelo cinema radical.O longa tem apenas dois personagens e se passa em um barà beira de uma estrada quase deserta, que viveu anos prósperosdurante o garimpo do ouro. Lena (Débora Duboc), grávida de oitomeses do homem que a abandonou, o comandante Mattos, está aponto de fechar seu pequeno negócio, o Dama de Ouro. A situaçãomuda com a chegada de Vilela (Cláudio Jaborandy), ex-policialmilitar que reforma o lugar e se aproxima dela, conquistando seuamor arredio.Inesperadamente, Vilela desaparece, levando todas aseconomias de Lena que, desiludida, dá à luz no meio da imensidãodo planalto amazonense. O ex-policial, porém, reaparece e tentauma nova aproximação. O fogo que queima na selva é o prenúnciode um final surpreendente."Tínhamos planejado dois desfechos, mas o queprevaleceu é mais coerente com a história", comenta Venturi,revelando o fio condutor da trama elaborada pelo roteirista DiMoretti. "Lena é uma mulher à beira da brutalidade quandoinicia o filme e, à medida que conhece Vilela, ela vai sehumanizando. Ele, ao contrário, surge com um terno e segue nadireção oposta até naufragar na bebida e na loucura."Para que a intensidade da troca de papéis ficasse nítida, Moretti eliminou personagens secundários do roteiro, além deabrir mão também de flash-back. "A proposta do filme é que aação se passe apenas naquele espaço até que a relação atinja olimite máximo", comenta ele, que adaptou uma peça inédita deFernando Bonassi, chamada As Coisas Ruins da Nossa Cabeça."Preservei alguns diálogos, mas retirei os mais reflexivos."A concentração do grupo foi essencial para se atingir aunidade planejada. Graças a um magro orçamento, Venturi comandousete semanas de pré-produção, em que um bar foi construído em umgalpão em São Paulo, onde os atores ensaiaram exaustivamenteseus papéis. "Para evitar um saturamento que comprometesse ainterpretação durante as filmagens, deixei para resolver osdetalhes finais já com a câmera rodando."A falta de recursos impediu que a filmagem acontecesseem Rondônia, mas a equipe trabalhou em um garimpo abandonado,localizado a 30 quilômetros de Poconé, em Mato Grosso. "Comofilmamos os ensaios, dispúnhamos de um storyboard eletrônicopara ganhar tempo durante a rodagem", conta Venturi, queconsumiu quatro semanas na produção.Também os atores se prepararam. Débora Duboc, porexemplo, acompanhou o pré-natal de quatro mulheres, em umhospital público do Belenzinho, para descobrir o rotina de umagrávida. O resultado foi positivo: "Percebi como o rosto e oandar da mulher se transformam", conta ela. A experiência maisforte, porém, foi o momento do parto. "Descobri que a solidãonessa hora aumenta a dor", explica Débora, que interpretajustamente uma cena em que Lena dá à luz sozinha.Outra fonte inspiradora foi Maria, ex-garimpeira queauxiliou a produção em Poconé. Apesar de talhada pela rudezaprovocada pela companhia de inúmeros homens, ela conseguia ter acapacidade da ternura. "Ela me ensinou a sobreviver em um mundomasculino", conta a atriz, que ainda guarda fortes lembrançasdas cenas mais fortes: a da masturbação de Lena e de seu ataquede loucura."A primeira sintetiza o destino daquela mulher, quesente desespero no gozo", explica. "Já a destruição do barainda me choca tanto, que choro quando revejo."Latitude Zero. Drama. Direção de Toni Ventura.Br/99. Duração: 90 minutos. 16 anos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.