"Latitude Zero" destaca-se no Festival de Brasília

Talvez fosse até injusto com o diretor Toni Venturi, mas criou-se, no 33.ª Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a expectativa de que o completamente inédito Latitude Zero seria o único filme capaz de arrebatar de Laís Bodanzky o Candango ou os Candangos que ela merece pelo fortíssimo e maravilhoso O Bicho de Sete Cabeças. Laís ficou mais perto do prêmio. O filme dela passa hoje à noite, o penúltimo da mostra competitiva, que termina amanhã com o documentário O Chamado de Deus, de José Joffily, sobre vocações religiosas. O Chamado poderá encerrar a competição com chave de ouro.Quem viu, e foram poucos mas confiáveis, garante que o documentário redime amplamente o diretor dos equívocos de sua última ficção (Quem Matou Pixote?). Latitude Zero foi exibido sábado à noite. Está longe de ser uma nulidade, mas não foi tudo aquilo que o retrospecto do talentoso autor do documentário O Velho - A História de Luiz Carlos Prestes e o próprio tema autorizavam esperar.Venturi fez uma opção radical pelo cinema autoral. Criou um filme de apenas dois personagens, que se desenrola num cenário único. Até por essas características, mas não só por elas, Latitude Zero evidencia a origem teatral. Baseia-se numa peça nunca encenada de Fernando Bonassi. É um filme difícil, por mais que a definição seja insatisfatória ou inconveniente. O que seria um filme fácil? Hollywood? Nesse sentido, todo filme difícil deveria ser bem recebido, pois vai contra a banalização estética que tomou conta da produção hollywoodiana de estúdio. É um filme gritado, crispado, exasperado. Chega a ser desagradável mas esse também não é um critério de avaliação artística. A arte não tem de ser necessariamente agradável e talvez nem tenha de ser agradável. Tem de consolar, de nos fazer refletir sobre nossa situação no mundo. Se insistirmos no critério do agradável cairemos fatalmente no bom-gosto, que também não pode nem deve ser uma exigência artística.Latitude Zero divide, provoca discussão. Ponto a favor. Toda unanimidade é burra, lembrem Nélson Rodrigues. É a história de um homem e uma mulher num bar de beira de estrada, num garimpo abandonado. No começo, ela está sozinha. Uma grávida que se masturba para expressar, rapidamente, sua solidão. Chega ele, um estranho que veio abrigar-se nesse fim de mundo. Vivem uma situação inicial de tensão, que evolui para o sexo. Mas isso não é nem metade do filme. Ele foge com o dinheiro dela, que tem uma crise. Volta com o projeto de incrementar o bar, mas os caminhões passam a toda velocidade na estrada. O inferno, dizia Jean-Paul Sartre, são os outros. Cria-se o inferno entre eles. Por meio da violência e da morte, vem a libertação.Violência - Pelo clima, pelo desenlace, o filme lembra Porto das Caixas, que Paulo César Saraceni realizou nos anos 60. Um universo asfixiante, personagens à flor da pele, a violência como salvação. Só que o filme antigo é melhor, até porque Irma Alvarez, que faz a protagonista de Saraceni, grita menos do que Débora Duboc, mulher do diretor e estrela de Latitude Zero. Débora é atriz de teatro. Divide a cena com Cláudio Jaborandy, que o público conhece do curta Náufrago, de Amilcar Claro - por sinal, assistente de direção em Latitude Zero.Débora passeia pelo festival com o filho Theo, um bebê. Mas ela engravidou só depois da rodagem. Então, como se explica a barriga de grávida da protagonista de Latitude Zero? "Simples, usei uma dublê de corpo", diz o diretor. A falsidade do cinema, observa o repórter. Ele ri, ela ri. Theo também faz sua estréia na tela, com a voz. O bebê chora o tempo todo, como costumam chorar os bebês. Venturi queria o máximo de realismo. No caso, aumenta a exasperação do público. O choro é de Theo, mas o bebê que aparece no fim é Bárbara, informam os créditos.Apesar de algumas manifestações negativas durante a sessão, o público do Cine Brasília manifestou-se generosamente no fim da projeção. O filme foi muito aplaudido. Aliás, todos os filmes têm sido muito aplaudidos, o que cria confusão. Ou o público está gostando de tudo, e não é bem o caso, ou aplaude porque o festival é mesmo uma grande festa dos brasilienses, especialmente dos jovens, que lotam o cinema nas sessões da noite, quando rolam os filmes da competição.No sábado, foram exibidos dois curtas, antecedendo a projeção do longa de Venturi. Não há muito o que dizer sobre Pixaim, de Fernando Belens, exceto que o curta anterior do cineasta baiano, A Mãe, sobre a mãe de Gláuber, a guerreira Lúcia Rocha, era melhor. Pixaim quer discutir a discriminação racial na Bahia, que parece um caldeirão de miscigenação (mas, segundo o filme, não é). A intenção pode ser percebida, mas foi mais forte no discurso do diretor, antes da projeção, do que no próprio filme. O outro curta é ótimo. O Sanduíche tem direção de Jorge Furtado. Foi rodado durante a realização do 3.ª Congresso do Cinema Brasileiro, em julho, em Porto Alegre, com verba do Banrisul, que também patrocinou o evento.O Sanduíche inscreve-se na linha do metacinema. Começa com um casal que se separa e depois vai revelando que aquilo é o ensaio de uma peça, que na verdade é um filme dentro do filme e, no fim, é o filme dirigido por Furtado, um dos mais talentosos diretores brasileiros da atualidade. Mas nem todos ficaram convencidos da qualidade de O Sanduíche. Houve quem achasse que se trata apenas de um exercício de estilo, que espremendo não sai nada. Para essas vozes discordantes, o filme seria quase nada. Mas quase nada é tudo, como Sérgio Rezende mostrou no seu melhor filme desde Até a Última Gota.Para os gaúchos, o filme adquire um caráter muito especial que merece ser revelado. Quando rolam os créditos de O Sanduíche lá no fim está impressa uma dedicatória: "Para Romeu Grimaldi". Foi um grande agitador cinematográfico no Rio Grande do Sul. Programador, criou salas que marcaram época na capital gaúcha, abrindo espaço para o cinema alternativo, não só brasileiro como internacional.Há, todo mundo sabe, uma rivalidade entre o Festival de Brasília e o de Gramado. O de Brasília permaneceu sempre fiel à sua opção pelo cinema do País. O de Gramado abriu-se para a produção latina como forma de enfrentar a crise da produção nacional, na triste era Collor. Não foram poucas as críticas que o Festival de Gramado recebeu por isso, até porque, nessa nova opção, ainda não conseguir criar mercado para o filme latino no Brasil e para o brasileiro na América Latina, nem mesmo no âmbito do Mercosul. Grimaldi era figura carimbada em Gramado, mas não integrava a comissão executiva do festival gaúcho. A homenagem de Furtado foi tanto mais bonita porque bateu pela primeira vez na tela, na primeira projeção pública do O Sanduíche, no território do "inimigo". Ele teria ficado feliz com a homenagem. Seus amigos ficaram ainda mais, por vê-lo homenageado por um filme que é bom.

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