Mario Anzuoni/Reuters
Mario Anzuoni/Reuters

'Last Flag Flying' comove até um de seus atores, Laurence Fishburne

Drama é vivido no Vietnã

Kathryn Shattuck, THE NEW YORK TIMES

08 de novembro de 2017 | 06h02

O roteiro tem por base histórias que foram manchete de jornais: o membro de uma família de luto é convocado para assistir ao féretro de um soldado morto, e aí surgem as complicações que levaram Laurence Fishburne às lágrimas.

“Chorei do começo ao fim. Fiquei tão comovido - disse ele - referindo-se a Last Flag Flying, de Richard Linklater, que estreou dia 3 nos EUA e tem previsão de estreia no Brasil em janeiro de 2018, sem título definido por aqui. “Encontramos o tom certo. Apesar de o filme tratar de um assunto sombrio e delicado, conseguimos dar muita leveza e humanidade a ele”, disse ele.

Em Last Flag Flying, Fishburne interpreta o reverendo Richard Mueller, que encontrou Deus depois de um período terrível no Vietnã. Quando seus companheiros Doc (Steve Carell) e Sal (Bryan Cranston) aparecem inesperadamente durante uma missa de domingo, em 2003, ele relutantemente segue com eles numa viagem para a base da Força Aérea em Dover, onde Doc assistirá ao enterro de seu único filho, um fuzileiro naval morto no Iraque, até o cemitério nacional de Arlington. O filme retrata personagens originalmente criados pelo escritor Darryl Ponicsan e adaptado por Hal Ashby no filme The Last Detail, de 1973.

Conversando de Los Angeles, dias antes do controvertido telefonema de condolências do presidente Donald Trump à viúva de Myeshia Johnson, Fishburne falou sobre o sacrifício military o o impacto da sua série na rede ABC.

Last Flag Flying aborda uma situação complexa e muito comovente. Como ela repercute no nosso clima político?

Acho que o filme transcende a política atual porque na verdade fala da camaradagem entre os soldados e a maneira como ficam ligados durante grande parte da vida por terem vivido um combate juntos. E também ilustra perfeitamente a angústia da perda que as pessoas sentem quando um ente querido parte para prestar um serviço militar e fazer o supremo sacrifício. É interessante em muitos aspectos ver Steve Carell num papel inusitadamente sério. Quando digo que Bryan e Steve são grandes atores, você deve se lembrar que temos esses símbolos no caso de um ator: a máscara da comédia e a máscara da tragédia. Steve talvez seja mais querido pelo seu trabalho de comediante, mas não quer dizer que não desenvolveu seu talento para a tragédia.

O senhor parece muito mais velho do que seus 56 anos neste filme. É apenas nove anos mais velho do que Anthony Anderson, que interpreta seu filho em Black-ish...

Eu era apenas nove anos mais velho que Cuba Gooding Jr. quando fiz o papel do pai dele também em Boys n the Hood. E fui escalado para trabalhar em Apocalipse Now aos 14 anos para interpretar um jovem de 17 anos. É uma sorte ser uma pessoa mais retraída e reflexiva, isso me ajudou muito.

Como foi sua escalação para Apocalipse Now?

Eu já atuava há quatro anos quando me encontrei com Francis Coppola e Fred Ross, que produziram o filme. Foi Fred quem conversou comigo, enquanto Francis ficava sentado em silêncio, me observando. Ele fez perguntas do tipo “qual a sua idade?”. E eu menti, disse que tinha 16. Perguntou sobre minha escolaridade. Respondi que estava no segundo ano da faculdade. E então entrou na sala uma recepcionista e Francis finalmente entrou na história e perguntou a ela: “Acha que este garoto poderia ter 18?” Ela me olhou e respondeu: “Com certeza”, e saiu da sala. O resto é história.

Black-ish aborda a brutalidade da polícia, a eleição presidencial e mesmo menstruação. Como produtor executivo, você tem algo a dizer sobre esses temas levantados pelo criador, Kenya Barris?

Kenya e sua equipe fazem o seu trabalho e quando tenho uma ideia ou sugestão avaliamos para ver se funciona. Confio na sua perspectiva porque não é diferente da minha. Você tem de lembrar que Kenya, eu próprio, Anthony, e alguns dos produtores, somos todos negros.

Contudo menos de um terço dos telespectadores são negros, de acordo com um estudo da Nielsen.

Queremos alcançar o maior público possível com as particularidades da nossa cultura e nossa experiência, as alegrias, vicissitudes e desafios que enfrentamos neste país no momento. E se esses números são uma indicação do que estamos fazendo, a realidade é que nossa experiência é universal.

O senhor está trabalhando há 16 anos na adaptação do livro O Alquimista de Paulo Coelho. Tem outros projetos apaixonantes em vista?

Minha companhia, a Cinema Gypsy, produziu um podcast, Bronzeville, junto com Larenz Tate e seus irmãos que estamos transformando em uma série de TV. É sobre uma comunidade afro-americana muito unida em Chicago, em 1947. Estou também fazendo outro filme da Marvel em Atlanta - um projeto secreto, muito secreto. Sou um apaixonado por tudo o que faço. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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