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Filme 'Las Insoladas' é exemplo do que o cinema argentino tem de melhor

Reunidas numa cobertura em Buenos Aires, amigas conversam sobre a vida e o país e sonham em passar o verão em Cuba

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

18 de agosto de 2015 | 05h30

Entre banhos de sol e conversinhas fúteis, Las Insoladas, filme baseado em diálogos, consegue traçar um panorama bastante interessante do seu país, em determinado momento de sua história. A proeza é do diretor argentino Gustavo Taretto.

Ele trabalha com uma situação única durante quase toda a duração do longa-metragem. Um grupo de garotas, colegas de uma escola de dança, sobe à cobertura do prédio para buscar um bronze durante o escaldante verão de Buenos Aires. Estamos nos anos 1990, às vésperas do ano-novo. Elas querem pegar uma cor para participar de um concurso de salsa à noite. Com a grana, pretendem colocar em prática um sonho comum a todas – passar 15 dias nas paradisíacas praias de Cuba. É sua promessa de ano-novo. Juntar dinheiro suficiente para que, no ano seguinte, o gastem em duas semanas inesquecíveis em Varadero, entre praias, daiquiris, baladas e aventuras amorosas.

Las Insoladas é exemplo do que tem de melhor o cinema argentino, ou, pelo menos, parte dele. Baseia-se em roteiro depurado ao máximo, para que o rendimento das falas corresponda às intenções do autor. Não há vírgula jogada fora em meio às aparentes banalidades proferidas pelas meninas. Esse texto ganha vida numa direção enxuta e sintética, que tira interpretações precisas e bem-humoradas das atrizes.

Em cacos de conversas, surgem imagens e temas argentinos – o presidente Menem, o guerrilheiro Che Guevara, argentino de nascimento (natural de Rosário), etc. Porém, a banalidade predomina. A sua crítica é interna, feita não por uma instância exterior e sapiente, mas pelas próprias protagonistas. Desse modo, vê-se impor uma mentalidade (turbinada na própria era Menem, neoliberal e predatória) em que o importante é se dar bem, banhar-se ao sol, conhecer lugares exóticos. Uma época da futilidade extrema, do consumo como objetivo e finalidade da vida humana. A nossa época, enfim, lá como aqui, e em toda parte.

Inútil dizer que esse discurso não está presente no filme. Nele, falam as garotas e, ao falarem de tudo e abertamente de todos, desconstroem os clichês de que são, ao mesmo tempo, sujeitos e objetos.

Confira o trailer de 'Las Insoladas'

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