Lars Von Trier, só elogios para Nicole Kidman

Lars Von Trier estava de excelentehumor na segunda-feira de manhã, horário do Brasil. EmCopenhague, já era tarde e ele acabara de almoçar. Adorou saberda corrida do público para ver seu novo filme, Dogville, noencerramento da Mostra BR de Cinema - 27.ª Mostra Internacionalde Cinema São Paulo. Havia sido a mesma coisa no Festival do Rio2003. Marcado para ter apenas uma sessão, Dogville teve duas,tão grande foi o afluxo de espectadores interessados em assistirao novo trabalho do autor de "Dançando no Escuro". Lars VonTrier confidencia: "Na Dinamarca, o filme fez grande sucesso decrítica, mas teve um público, digamos, médio. Só uma faixa muitoseletiva de espectadores quis ver e rever Dogville." Ele sempre teve consciência das dificuldades que oprojeto encerrava. Nunca pensou em deixar Dogville de lado,por causa disso. O filme estréia em dezembro no Brasil, no dia19. O lançamento de Dogville será pequeno, mas nada do que Lars Von Triertem feito nos últimos anos consegue passar em branco. Virou umcineasta-farol, um demiurgo, apontador de caminhos. Lançou osfundamentos do Dogma com Os Idiotas, celebrou o digital comDançando no Escuro. E agora, com Dogville? Lars Von Trier conta como teve a idéia de Dogville. "Ela saiinteirinha da Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e KurtWeill. Lá, existe a canção da personagem feminina, que fala devingança. E existe a própria concepção de Brecht e Weill defazer uma ópera contra o capitalismo. Aproveitei as idéiasbásicas da ópera - a discussão sobre as origens do capitalismo,a personagem feminina, usada e abusada, a vingança." Isso explica talvez, as idéias políticas e morais doautor, mas não dá nem uma pálida idéia do seu partido estético.E a estética é que tem provocado as maiores polêmicas do cinemamais recente do autor dinamarquês. No caso de Dogville, eleresolveu radicalizar certos procedimentos dramáticos de Brecht,o famoso conceito do distanciamento crítico. "O cinema é um meioavassalador. Não deixa tréguas ao espectador no escuro dassalas. Achei que seria interessante desmontar a história,narrá-la como uma representação, tentando envolver o público,mas deixando claro que aquilo não é a vida, mas umarepresentação da vida." Nicole Kidman - Um filme em que as casas não têm paredes e aprópria geografia da cidade é só um desenho no chão dependemuito dos atores para construir seu fascínio aos olhos dopúblico. Nicole Kidman é a protagonista de Dogville. Suapersonagem chama-se Grace - Graça. O próprio nome revela algumacoisa do seu desejo de redenção num mundo hostil. Lars Von Trierreconhece que teve problemas com Nicole no set. Não poderianegá-lo. As desavenças estão registradas no documentário sobre arodagem de Dogville, exibido no Festival do Rio. Mas ele nãopoupa elogios à atriz: "É talentosa, corajosa, Nicole é capaz deir ao fundo das coisas pelos projetos em que acredita." O elogioestende-se a todo o elenco de Dogville. "Foram todos ótimos.Entraram logo no espírito da coisa, perceberam que dependiadeles, da voz, dos gestos, da expressão corporal, apossibilidade de construção dramática dessa história, a priori,desconstruída esteticamente." O autor nega que tenha pretendido, com esse retratoselvagem do capitalismo predador, fazer um retrato da América deGeorge W. Bush. "Não pensei em Dogville como um comentário sobre a Américareacionária de Bush filho. É verdade que ele representa tudo oque eu odeio num político, está fazendo a vida pior para todosnós no planeta, menos para os seus cúmplices. E talvez essesentimento tenha passado de forma inconsciente para o filme." E o Dogma, comovai? Lars Von Trier, que criou o movimento, admite que sedistanciou dele. Dogma, nunca mais? "Não diria tanto, mas nãosou do tipo que gosta de ficar se repetindo. Gosto de tentarcoisas novas, que me estimulam." E o que ele vai tentar agora?"Ainda é cedo para falar, mas estou com certas idéias que, nãosei, corro o risco de perder o público que consegui comDançando no Escuro e, agora, Dogville." Numa conversa com Lars Von Trier, você não pode perder aoportunidade de discutir seus gostos de cinéfilo. "Estou certoque são os mesmos que os seus", diz. Depois de muita insistência cita um nome. "Andrei Tarkovski, com certeza, é um cineastaessencial." Induzido, admite que também admira Yasujiro Ozu eseu compatriota, o mestre dinamarquês Carl Theodor Dreyer, masconta que, cada vez mais, tem menos vontade de ver os filmes dosoutros. Sua próxima área de interesse é a ópera. Vai dirigir "OAnel dos Nibelungos", de Wagner, em Bayreuth. O repórterpergunta se foi difícil, para os organizadores do evento,convencerem Lars Von Trier a aceitar a direção. "Eles não meconvidaram; eu é que quis fazer e tive de convencê-los." Amontagem será só em 2006, mas ele já está trabalhandofreneticamente no projeto. "Não sei nada de ópera. Precisopreparar-me bem, não se brinca com Wagner impunemente."

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