"Lara" terá primeira exibição

Ana Maria Magalhães realiza amanhã, no Rio, a primeira exibição pública de Lara. Vai mostrar seu filme sobre a atriz Odete Lara ao cônsul da França e a alguns convidados. A exibição será em vídeo, mas Ana Maria diz que a versão só não é a definitiva porque ela precisa fazer a mixagem, o que espera concluir neste mês de março. Lara está pronto. Havia gente duvidando de que o filme um dia chegasse às telas.Foi um longo percurso, que ainda não acabou. Uma coincidência, pois a vida da própria Odete Lara foi marcada por uma busca que a atirou em todos os excessos, antes que ela encontrasse o equilíbrio no budismo. Há mais de dez anos, Ana Maria sonha com esse projeto. Quem lhe deu a idéia foi Antônio Calmon, diretor de cinema e consagrado autor de novelas na Globo. Calmon deu a deixa, Ana Maria encarregou-se do resto.Achou que realmente seria importante contar a história de Odete Lara. É uma maneira de falar sobre os problemas da mulher contemporânea e esse é um tema que cala fundo em Ana Maria. Já está em Erotique, que ela também realizou. Como atriz, Ana Maria participou de momentos importantes do cinema brasileiro. Filmou com Gustavo Dahl, com Glauber Rocha, com Nelson Pereira dos Santos. Ficou famosa a cena de Como Era Gostoso o Meu Francês, de Nelson Pereira dos Santos, em que ela olha para a câmera, suspirando como quem está triste ? mas devora o último ossinho do francês, canibalizado pelos índios para que o diretor possa falar sobre as relações entre colonizados e colonizadores.A mulher moderna, sua busca, sua insatisfação afetiva, sexual e profissional, o rumo para a (auto)realização, tudo isso motiva e inspira Ana Maria. São coisas que ela entende porque também compartilha desse movimento, sem ter precisado descer aos abismos em que Odete (quase) se consumiu. Foram anos de preparativos para esse filme. Lara virou meio mítico. Ana Maria não se arrepende. Captar foi difícil e, em certos momentos, ela encontrou resistência do mercado porque achavam que o filme seria uma aventura sem conclusão. Ela nunca abriu mão de trabalhar no roteiro, mesmo que isso entravasse o processo.Demorou, mas chegou ao que lhe pareceu o roteiro ideal. Dele saiu o filme de cem minutos que mapeia 40 anos da vida brasileira, dos anos 30 aos 70. Ana Maria conta a vida de Odete em duas épocas. Sua infância e adolescência, a fase das paixões intensas. O filme começa no que, de certa forma, é um fim. Odete sofre um acidente de carro, vê sua vida desfilar, avalia seu fracasso afetivo e pára. Descobre que essa busca de um absoluto do sexo não lhe dá satisfação nem paz. Inicia sua jornada interior. É o tema de Ana Maria.Duas épocas, dois climas ? e duas atrizes. Era, Ana Maria reconhece, seu maior desafio. Ela conta duas histórias diferentes: a da Odete paulista e da carioca. Recorre a duas atrizes, Maria Manoela e Christine Fernandes (de Duas Vezes com Helena). Muito da sua dificuldade com o roteiro decorria justamente disso. Ela queria encontrar transições suaves para fazer essa passagem de tempo, de atrizes. Não queria nada que fosse traumático para o espectador. Acha que conseguiu. ?O filme está muito bonito, não é nenhuma obra-prima, mas ficou como eu queria e acho que vai poder dialogar com o público.?Orçado em R$ 6 milhões, Lara conseguiu bons investidores: BR Distribuidora, Volkswagen, BNDES, Centrais Elkétricas de São Paulo (CESP), Telecom. Ana Maria filmou na Itália ? Odete é filha de um imigrante italiano. Conseguiu apoio de um patrocinador italiano, a Telecom Itália. Filmou em Roma, com Veronica Lasar, atriz que participou de filmes de Bernardo Bertolucci (Assédio). ?Olha a coincidência?, diz Ana Maria. ?Veronica é viúva de Adolfo Celi e quando foi para a Itália a Odete se hospedou na casa de quem? Do Celi, que foi uma figura importante do teatro e do cinema brasileiros nos anos 50.?Ainda falta captar R$ 300 mil. Parece pouco ? apenas 5% do orçamento integral. ?Mas esse dinheiro é imprescíndivel para essa fase da mixagem e, depois, para o lançamento?, Ana Maria informa. Sua previsão de estréia é em agosto, com lançamento da RioFilme. O vídeo com imagens do filme que ela enviou à redação do Estado autoriza expectativas. É um material muito bonito. ?A fotografia está linda?, ela diz e não poupa elogios aos dois fotógrafos, José Guerra e Pedro Farkas.Contra tudo e contra todos, enfrentando a desconfiança do mercado ? a produção demorou tanto tempo que havia gente que dizia que o filme havia encantado ?, ela pode dizer hoje que conseguiu fazer de Lara o produto chique e sofisticado que queria. Não poupa elogios à música de Chico Buarque. Ontem de manhã, teve uma reunião de produção para definir os detalhes do lançamento de três videoclipes com músicas do filme. A pérola da seleção é o tema Fora de Hora, uma parceria de Chico com Dori Caymmi. ?Ficou lindo na voz da Nana?, resume.

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