Lançamentos trazem personagens ousados

Um avanço: a Warner, uma das seis grandes companhias do cinema mundial, passou finalmente a lançar no Brasil DVDs com apresentações especiais. Uma das pioneiras no mercado nacional de DVD, e dona de um dos maiores acervos de filmes de qualidade, até bem pouco tempo atrás ela só punha nas lojas e locadoras discos sem qualquer tipo de bônus, de atração extra, secos como o Saara, conforme esta seção notou mais de uma vez. Pois bem: mudou. Um exemplo disso é o filme mais recente do grande Milos Forman, O Mundo de Andy. O DVD americano do filme é riquíssimo em apresentações especiais; agora, chega ao Brasil, com a promessa de trazer todas as atrações extras do original. Espera-se que daqui pra frente seja sempre assim.O filme não é o melhor do diretor de Um Estranho no Ninho e Amadeus. Mas Milos Forman é sempre Milos Forman; um filme dele é sempre melhor do que 95% do que chega à praça.Se a Warner avançou, a Columbia TriStar, outra das seis grandes, que, ao contrário, havia saído na frente de todas no cuidado com que enchia os DVDs de apresentações especiais, deu um pequeno tropeço ao lançar um de seus filmes de sucesso mais garantido nos últimos anos, Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento: os bônus - que são muitos, e de excelente quilate - vieram sem legendas em português. Espera-se que o erro seja corrigido nas novas prensagens, que certamente terá de haver: como era previsível, o filme já frequenta as listas de mais alugados e comprados. O Mundo de Andy (Man on the Moon)Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento (Erin Brockovich)ProduçãoEUA, 1999.EUA, 2000.DiretorMilos FormanSteven SoderberghRoteiro e argumentoRoteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski. Baseado na vida do comediante Andy Kaufman (1949-1984). Roteiro de Susannah Grant e Richard LaGravanese. Baseado na vida de Erin Brockovich, dona de casa, mãe de três filhos - e, eventualmente, pesquisadora de efeitos de substâncias tóxicas para um escritório de advogacia. ElencoJim Carrey, Danny DeVito, Courtney Love, Paul Giamatti Julia Roberts, Albert Finney, Aaron EckartCor, duração. Cor, 118 min.Cor, 131 min.AçãoAnos 70 e início dos 80, Los Angeles e outras grandes cidades americanas. O filme não especifica, mas é anos 90, Los Angeles. Pessoas reais dentro do filme.Lynne Marguiles, a ex-mulher de Andy Kaufman - que também foi consultora da produção - está na sequência da homenagem a ele, no finalzinho do filme. Erin Brockovich faz uma ponta como a garçonete de uma lanchonete onde a Erin Brockovich do filme leva os três filhos para comer, no começo do filme. E vários dos extras que aparecem numa grande reunião com o advogado Ed Masry, quase no final, são os verdadeiros moradores de Hinkley defendidos por Masry e por Erin. Um ponto em comum entre os biografadosAndy Kaufman é um comediante fora dos padrões, um total desvio das normas. Erin Brockovich é uma mulher fora dos padrões, um total desvio das normas. Um ponto em comum entre os filmesDanny DeVitto e Stacey Sher são dois dos produtores. Danny DeVitto e Stacey Sher são dois dos produtores PrêmiosGlobo de Ouro para Jim Carey como melhor ator em comédia.  Características do DVDFormato Widescreen anamórfico 2.35:1.Widescreen 1.85:1.SomDolby Digital, DTS. .Dolby Digital 5.1 e Dolby Surround.Opções de línguasLegendas em português, inglês e espanhol. Som original em inglês. Legendas em português, inglês e espanhol. Som original em inglês (Dolby 5.1) e dublagens em português e espanhol (Dolby Surround). Capítulos (*)2028Comentários em áudio ao longo do filmeNão tem. Não tem.Making of Um documentário de 19 minutos, com entrevistas com o diretor Forman, os atores Jim Carrey e Paul Giamatti, o ator e produtor executivo Danny DeVito, a produtora Stacey Sher e a consultora Lynne Marguiles, ex-mulher de Andy Kaufman. Um documentário de 15 minutos, com entrevistas com o diretor Soderbergh, os personagens da história real, Erin Brockovich-Ellis e Ed Masry, os atores que os interpretam, Julia Roberts e Albert Finney, a produtor executiva Carla Santos Shambeg, cenas das filmagens e do filme. Sem legendas, seja em português ou inglês. Outros extrasSeis sequências de filmetes com o verdadeiro Andy Kaufman, ilustrando longo texto sobre ele. Cenas abandonadas: 12 minutos, com seis sequências que não foram usadas na montagem final. Dois clipes do R.E.M., com músicas usadas no filme - "Man in the Moon" e "The great beyond". Mais apresentações especiais para DVD-ROM. Cenas inéditas: 30 minutos, com 22 sequências que foram cortadas fora da versão final; as cenas podem ser vistas com ou sem os comentários em áudio do diretor Soderbergh. Perfil da personagem: uma entrevista de 4 minutos com a verdadeira Erin Brockovith, com pequena participação do advogado Ed Masry. Sem legendas, seja em português ou inglês.Trailers e fichasTrailer do filme. Várias fichas com longo texto sobre a vida de Andy Kaufman. Trailer do filme. Fichas com filmografias do diretor Soderbergh e dos atores Julia Roberts e Albert Finney. Produção e distribuiçãoMutual Film e Universal Pictures. DVD Waner Jersey Films,Columbia e Universal. DVD Columbia TriStar. Preço R$ 41,90 (levox.com.br); R$ 39,90 (submarino.com.br).R$ 36,90 (levox.com.br); R$ 33,90 (submarino.com.br). CotaçãoO filme:O DVD:O filme:O DVD:O Mundo de Andy - Ao longo de 36 anos, Milos Forman fez apenas 11 filmes; nas duas últimas décadas, de 1980 para cá, foram cinco. Pouquíssimos - mas com uma concentração extraordinária de brilhantismo. O número tão pequeno torna ainda mais expressivo o fato de que O Mundo de Andy seja seu segundo filme consecutivo (o primeiro foi O Povo contra Larry Flynt, de 1996) a retratar a vida real de uma personalidade polêmica ligada ao showbiz. (O outro ponto em comum entre os dois filmes - seguramente muito mais um símbolo do que uma coincidência: em ambos, o principal personagem feminino é interpretado por Courtney Love, uma roqueira, aliás polêmica, que Forman transformou em atriz. Dá para imaginar se o diretor - de antigas ligações com o rock - ainda não filmará a vida de Kurt Cobain, o líder muito despirocado do Nirvana, que se matou e deixou Courtney Love viúva.)O filmebiografado anterior de Forman foi um pornógrafo, drogado, desajustado, o retrato perfeito do que boa parte das pessoas considera como a essência de tudo o que há de errado na sociedade. Comparado com Larry Flynt, o criador da revista "Hustler" e depois de um império da mídia baseado na exploração do sexo, o biografado de agora até que não é uma figura tão detestada. Andy Kaufman deixou uma legião de fãs apaixonados - basta lembrar que o R.E.M. dedicou a ele uma bela canção, Man on the Moon, no seu disco de 1992, Automatic For People. O título da canção é o título original do filme. (Ela e outra do R.E.M., The Great Beyond, estão na trilha sonora e seus videoclipes são algumas das apresentações especiais do DVD.)Não foi difícil para Forman explicar por que resolveu fazer O Povo Contra Larry Flynt: ele quis fazer um filme sobre a liberdade de expressão, o direito a ela, a necessidade fundamental dela. Criador irreverente, contestador de todo tipo de conformidade, defensor feroz dos que diferem do modelo abençoado pelo status quo desde os tempos da Primavera de Praga, ele teve que fugir do comunismo de sua Tchecoslováquia natal para continuar trabalhando e defendendo suas idéias libertárias.Nas entrevistas do making of que aparecem no DVD de O Mundo de Andy, ele deixou para o produtora Stacey Sher explicar o que motivou o filme: "Foi o fato de Andy ser um iconocasta, à frente de seu tempo".Sim, porque, se tem sua legião de fãs, Andy Kaufman seguramente deixou um número muito maior de pessoas escandalizadas, chocadas, perplexas com seu humor estranho, diferente, insólito, às vezes abertamente grosseiro (um humor "desconstrutivista", descreve a produtora Stacey Sher no DVD); Forman conta que viu um show de Andy em Los Angeles, em 1975, e ficou impressionado. "Andy não se importava se a audiência gostasse ou não, vaiasse ou aplaudisse, jogasse tomates", conta o diretor; "importava-se apenas com uma coisa: que a audiência não ficasse indiferente; que despertasse emoção nas pessoas."Andy Kaufman seguramente recebeu muito mais vaias do que aplausos, na carreira curta na TV mas mais especialmente em shows em cabarés, boates, teatros e faculdades- morreu em 1984, com apenas 35 anos. E, ao contrário da imensa maioria das pessoas do showbiz, que se guia apenas pelos aplausos, que procura agradar ao gosto médio, mediano, medíocre, que prefere a repetição à ousadia, cada vez ele radicalizava mais suas apresentações. Foi fazendo, cada vez mais, do imprevisível e improvável o centro do seu trabalho - de tal maneira que, como bem mostra o filme, boa parte de sua própria platéia não sabia o que era verdade, o que era falso, e até, simplesmente, onde estava a graça. Uma figura estranhíssima, doida, absolutamente singular. Tanto, mas tanto, que - como lembra Danny DeVitto no DVD -, na própria cerimônia fúnebre, em que um telão mostrava imagens dele fazendo graça, muitas pessoas achavam que era tudo uma grande brincadeira e ele apareceria em seguida.Dá para entender perfeitamente porque ele fascinou Forman, o cineasta da não conformidade.Naturalmente, da mesma forma é de se esperar que o filme não agrade a todos. Até porque, remando contra todas as correntes, inclusive e principalmente a do politicamente correto, Andy Kaufman feria a moral reinante com o uso exagerado do politicamente incorreto. "Qual é o problema?", diz, num filmete das apresentações especiais do DVD, o verdadeiro Andy Kaufman, quando alguém observa que a mulher que ele derrubou numa luta livre parece realmente machucada: "Não faz mal; ela é pobre, não tem dinheiro, não pode me processar".Note-se: o verdadeiro Andy Kaufman, que aparece em seis sequências de filmes de época nos extras do DVD, é muito pouco charmoso; é muitíssimo menos charmoso do que Jim Carrey interpretando a sua vida - embora Forman diga no making of que não foi Jim Carrey que trabalhou no filme, mas sim o próprio Kaufman encarnado em Jim Carrey.Muita gente provavelmente achará que esse sujeito maluco é quase tão repulsivo, ou simplesmente chato, quanto Larry Flynt, o pornógrafo.Forman seguramente não se importaria com esse tipo de conclusão. O que o fascina é exatamente isso: o singular, o que foge do mainstream, do meio da estrada, do padrão, da mesmice, e faz avançar a sociedade rumo à aceitação do diferente, do díspare, do oposto. Só com isso, com a aceitação do diferente, diz Milos Forman, nos seus filmes estupendos, é que se pode dizer que há democracia.Elogio à ousadia - e à perseverança - Erin Brockovich, o personagem central do mais recente filme de Steven Soderbergh, também foge do padrão. Tem algumas características que a diferenciam do convencional; é o oposto da pessoa formal. Extremamente desbocada, fala tanto palavrão quanto um personagem de Quentin Tarantino ou um estivador, seja em que ocasião for. E se veste de forma ousada, agressiva, que muita gente chamaria de vulgar; usa saltos altíssimos, minissaias curtíssimas, e blusas sempre apertadas, justíssimas, decotadas, parecendo que os seios grandes não cabem ali e a qualquer momento vão saltar para fora.Claro, não é por isso que se fez um filme sobre a vida dela. Erin Brockovich, três filhos para criar, dois divórcios, pouca ajuda dos ex-maridos e muita dificuldade para arranjar um emprego, é uma mulher comum, como milhares de outras, sem diploma universitário, profissão ou uma especialidade funcional qualquer - a não ser uma dose aparentemente infinita de perseverança, tenacidade, disposição, força de vontade. Graças a isso, fez com que um advogado de um escritório modesto de Los Angeles enfrentasse na Justiça, representando um grupo de 600 e tantas pessoas humildes, uma gigantesca corporação de 28 bilhões de dólares. É uma daquelas pessoas que fazem a História avançar.Em entrevista numa das muitas apresentações especiais do DVD, a verdadeira Erin diz esperar que o filme passe esta mensagem: a certeza de que não existe desculpa para o mal (à saúde das pessoas, ao ambiente) que algumas grandes corporações fazem.A mensagem que o diretor Sorderbergh quer passar é mais explícita do que a frase de Erin - e uma das felizmente mais recorrentes do bom cinema americano: a de que pessoas simples, humildes, sem poder, podem, e mais que isso, devem, têm o dever de enfrentar os Golias, os gigantes, o sistema corrompido e, em especial, o que para elas é a própria personificação do mal - as corporações bilionárias.E, nisso, Soderbergh faz um filme na linhagem nobre de tantas belas obras, como Silkwood - O Retrato de uma Coragem, de Mike Nichols, Julgamento Final, de Michael Apted, A Qualquer Preço, de Steven Zaillian, para ficar só em alguns exemplos de temática bem próxima.Por baixo desta grande mensagem, Soderbergh quer passar outra, menor, talvez, mas na verdade tão fundamental quanto a outra - e foi por isso que este comentário começou falando de palavrões e roupa: a de que é um total absurdo o julgamento que tantas pessoas fazem sobre os outros a partir de aparências externas, a partir de tipos de comportamento que se afastam do que é tradicionalmente aceito pela sociedade. Não é por aí que se mede caráter, estofo, importância, seriedade, sequer responsabilidade - ao contrário do que pensa e faz a maioria.Tanto o filme em si quanto as apresentações especiais do DVD dão muita ênfase a esse estilo pouco convencional de Erin. A produtora executiva Carla Santos Shamberg descreve em detalhes a roupa espalhafotosa que a futura filmebiografada vestia quando se encontraram para começar a discutir o filme que começaria a ser feito O verdadeiro advogado Ed Masry, o patrão de Erin (interpretado no filme pelo grande Albert Finney), comenta, brincalhão, o memorando interno da firma proibindo saias mais curtas do que quatro polegadas acima do joelho - e o dia em que uma secretária levou para ele uma régua para verificar que a saia de Erin ultrapassava o limite.A Erin verdadeira - como se pode ver no próprio filme, em que ela faz uma ponta (veja o quadro), e nas entrevistas nos bônus do DVD - é uma mulher bonitona, atraente, grande, de gestos largos, uma presença forte, marcante. O diretor Soderbergh, vindo do cinema independente para fazer blockbuster com alma, conta, candidamente, no making of, que quando foi chamado para dirigir, o projeto já estava andando e Julia Roberts, a estrela número 1 de Hollywood hoje, já era a atriz que interpretaria Erin; e então Soderbergh diz que, se ele pudesse fazer escolher, seria exatamente Julia Roberts: "Ela tem um carisma, uma energia similar à da verdadeira Erin, a mesma luz nos olhos".Seguramente não haveria escolha melhor.Julia Roberst deixa muito nítido como deve ter sido absolutamente fantástico essa mulher moderna, liberada, pós-revoluções dos 60 e 70 (a comportamental, a sexual, a feminista), falando três palavrões em cada frase, vestida espalhafatosamente, entrando nas polidas, caretíssimas salas de um bilionário escritório de advocacia, ou nos tribunais sisudos, ainda profundamente machistas, lutando contra Golias, a corporação de 28 bilhões de dólares, toda a empáfia do mundo concentrada.Não pode haver David mais irresistivelmente charmoso.

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