Juan Guerra/AE
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Laís Bodanzky ganha mostra de filmes

Retrospectiva sobre a carreira cinematográfica da diretora começa amanhã no Sesc Santana

IGOR GIANNASI - Jornal da Tarde,

04 de junho de 2012 | 16h15

Foi com surpresa que a diretora de cinema e de teatro Laís Bodanzky recebeu o convite do Sesc Santana para participar de uma retrospectiva sobre sua carreira cinematográfica. “Ano passado, o festival de curtas de Santos fez uma homenagem, que foi também muito divertida, e este ano é realmente uma mostra, o que nunca tinha acontecido, formalizada”, diz ela. “Acho que tem um significado de que o tempo passou e eu já tenho um caminho.”

A mostra gratuita combina a exibição de um longa-metragem com outro trabalho da cineasta, de amanhã até o dia 26, às terças-feiras, às 20 horas. Amanhã, será exibido o curta Bia Bai, feito em VHS, ainda na época da faculdade, na Faap, com o colega Edgard Galvão. Em seguida, é a vez de seu primeiro longa-metragem de ficção: Bicho de Sete Cabeças.

 

O filme foi inspirado no livro Canto dos Malditos, que relata o drama real de seu autor, Austregésilo Carrano Bueno, internado em um hospital psiquiátrico pelo próprio pai por causa de um cigarro de maconha, e revelou o talento de Rodrigo Santoro no cinema.

 

No dia 12, a sessão começa com o videoclipe Essa Mulher, de Arnaldo Antunes - seu único trabalho no gênero. Depois, o público confere o segundo longa de Laís, Chega de Saudade, que acompanha uma noite dos frequentadores de um salão de dança em São Paulo.

A sessão do dia 19 abre com o curta Cartão Vermelho, primeiro trabalho dela realizado em película, sobre uma garota que joga futebol. No universo adolescente, o longa As Melhores Coisas do Mundo é a atração seguinte. Já o último dia reserva o documentário Cine Mambembe, o Cinema Descobre o Brasil, registro do projeto social da diretora e de seu marido, o roteirista Luiz Bolognesi, que resultou no atual Tela Brasil (www.telabr.com.br). Depois, Laís debate sua trajetória no cinema com o público. Confira abaixo, o comentário dela sobre os trabalhos que compõem a mostra.

BIA BAI (1992)

De uma conversa de bar com um amigo veio a historinha maluca sobre seres tão frágeis como os bebês no berçário, expostos ao olhos do mundo como um aquário.

“Veio de uma conversa no bar com um amigo, Edgard Galvão (codiretor), de uma experiência que ele tinha vivido, a sensação de visitar o sobrinho que tinha acabado de nascer no berçário. Eu lembro de dar muita risada. O filme tem ar nonsense, mas parte de um sentimento real, de ver esses nenês que acabaram de sair da barriga, tão frágeis e expostos, todo mundo olhando como se fosse um aquário e o sentimento que desperta, oposto da sensação uterina. A partir disso a gente inventou essa historinha maluca.”

BICHO DE SETE CABEÇAS (2000)

Um filme que mudou a vida de quem fez, de quem o assistiu e continua reverberando, mais de dez anos após seu lançamento, e influenciou uma política pública.

“Uma experiência muito feliz para todo mundo que fez. Uma história que emocionou todo mundo. À época eu não tinha a noção do quanto ele ia sobreviver no tempo e hoje, mais de dez anos depois, tem muita gente assistindo pela primeira vez, se emocionando igual. Ele me surpreendeu por auxiliar o movimento antimanicomial, influenciar uma política pública contra a internação. Um filme que não só mudou a vida de quem o fez, mas a de muitas pessoas que direta ou indiretamente vivenciaram a loucura.”

ESSA MULHER (2001)

Experiência única e deliciosa em videoclipe, com total liberdade para criar, se divertir e até ficar vermelha com o ídolo Arnaldo Antunes.

“Único videoclipe que eu dirigi, foi um convite do Arnaldo Antunes. Ele me deu total liberdade para eu criar, me divertir. Acho que ele ficou muito tocado depois de Bicho de Sete Cabeças, que era a partir de canções do Arnaldo que já existiam. Eu me apropriei da obra dele. E ele tinha esse CD que iria lançar. Foi uma experiência deliciosa porque sou fã do Arnaldo, trabalhar com ele é muito tocante. É um tema divertidíssimo, uma letra picante. Quando fui na casa dele, ele tocou a faixa para eu conhecer, e eu fiquei vermelha.”

CHEGA DE SAUDADE (2008)

Um sonho antigo, uma paixão do passado, e o desafio de contar uma história sem protagonista.

“A segunda experiência com o Luiz como roteirista. Eu me lembro do desafio de sair do Bicho de Sete Cabeças e contar uma história sem protagonista. Eu sempre gostei de dançar, frequentava salões de baile. Era um projeto antigo, mas eu não tinha coragem, não estava pronta. Era tão ousado, tão maluco. Depois do Bicho, respirei fundo e falei: vamos lá. Não tem linguagem clássica, exige mais do espectador. Queria essa ousadia no segundo filme.”

CARTÃO VERMELHO (1994)

Uma história que parecia pedir para ser contada, uma polêmica deliciosa e uma prova de fogo.

“A gente morava numa república e a Jane Malaquias me mostrou um conto. A história parecia pedir para eu contá-la. É uma delícia falar da polêmica do mundo da mulher. Hoje a mulher está galopando conquistas. Há 20 anos, menina jogar futebol era uma conquista. Era tabu. É cativante tratar da sexualidade nesse momento da vida, a saída da infância para a pré-adolescência. Foi meu cartão de visitas profissional. Depois, me senti preparada para um longa.”

AS MELHORES COISAS DO MUNDO (2010)

Uma única câmera, um set lotado, um filme técnico e estreantes atuando como grandes atores.

“É o filme mais técnico que já fiz. Um filme cinemascope, com adolescente vivendo a experiência da atuação pela primeira vez, o que me vez lembrar o Cartão Vermelho, e eu me senti habilitada a dar conta dos adolescentes. Eu tinha a certeza de que eles iriam reagir. Eu tinha uma câmera só e tinha de repetir várias vezes o mesmo take. Os meninos atuaram como grandes atores. Tive uma equipe imensa por trás. Não foi brincadeira comandar aquele set.”

CINE MAMBEMBE (1999)

Registro de viagem que ganhou vida, virou documentário de um Brasil surpreendente e positivo.

“Nasceu de forma inocente, como registro de viagem. Mas foi crescendo, tomando conta. O documentário reflete o quanto a gente foi se surpreendendo com o Brasil que foi encontrando. Um Brasil gostoso, surpreendentemente positivo. Quando o fizemos, tínhamos uma grande inflação, um descontrole econômico no País. Mas em qualquer canto do Brasil a gente encontra pessoas especiais e capacitadas para dar conta da vida. Não é o Brasil da miséria.”

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