Merie Wallace, A24
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'Lady Bird: A Hora de Voar' é a passagem para a idade adulta de uma mulher 'na realidade'

Filme recebeu cinco indicações para o Oscar, incluindo melhor direção para Greta Gerwig

Marta Santiváñez, EFE

23 de fevereiro de 2018 | 15h22

LONDRES — A diretora de Lady Bird: A Hora de Voar, a norte-americana Greta Gerwig, disse que, no cinema, parece que “a passagem das mulheres à idade adulta sempre precisa ser validada com um relacionamento romântico quando “na vida real não é assim”.

Em uma reunião com jornalistas para a apresentação do filme, a diretora explicou que queria romper com essa tendência narrativa quando começou a escrever o roteiro do filme.

O filme recebeu cinco indicações para o Oscar, incluindo melhor diretor, prêmio dado apenas uma vez a uma mulher desde a sua criação em 1929.

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O filme segue o dia a dia de Christine “Lady Bird” McPherson, um adolescente que passa por seu último ano do ensino médio em Sacramento (Califórnia, oeste dos Estados Unidos) em 2002, com todos os problemas associados a essa idade, desde as audições para um musical às dificuldades do cotidiano da família e o relacionamento com a mãe.

Sob a primeira atuação de Gerwig na direção, destacam-se apresentações de Saoirse Ronan como Lady Bird e Laurie Metcalf como Marion McPherson, uma enfermeira que trabalha em turnos duplos ao mesmo tempo em que se esforça para que sua filha seja “a melhor versão possível de si mesma”, apesar das diferenças entre ambas.

Lady Bird é “a garota legal com a qual você gostaria de passar a tarde”, explicou Ronan sobre sua personagem. É aquela garota que tinge o cabelo de rosa e se dá o direito de mudar de nome.

Para Ronan, encarnar essa personagem foi “uma grande responsabilidade” e um desafio, “porque todos os dias eu tive que inventar uma pessoa que, só ao longo do filme começa a entender quem é”.

Apesar de ter um arco narrativo aparentemente simples, a obra conta uma história que transcende a rotina para entrar no reino nebuloso de relações familiares e as dificuldades enfrentadas pela classe média, assim como a confusão ainda presente em um país abalado pelos ataques do 11 de setembro.

É relevante que a história se passe em 2002 – “um ano apenas emocionante por ser palíndromo”, observa Lady Bird no filme, pouco depois dos ataques de setembro de 2001 e o início da invasão do Afeganistão, bem como a erosão da classe média e a emergência da internet.

A diretora introduz todos estes elementos de forma imperceptível, não tanto como crítica, mas como uma apresentação de fatos “que afetaram todo mundo de formas que só estamos começando a entender agora”, disse ela.

No centro da história está a relação entre mãe e filha, eterno dilema cheio de contradições e emoções hiperbólicas, que são ainda mais exacerbadas pelo estresse do último ano do ensino médio nos Estados Unidos, geralmente também o último ano de alguém na casa dos pais.

“Parece-me que há uma intensidade particular nesse último ano, porque é quando tudo termina de alguma forma”, explica a diretora. "Embora nunca se deixe de ser mãe e filha, nesse ponto da idade adulta, sem ainda ter deixado de ser uma criança, o princípio da separação torna tudo muito mais difícil.”

O filme também é uma carta de amor a Sacramento, uma cidade que Lady Bird detesta, mas da qual a diretora lembra com carinho, pois também é o lugar onde ela cresceu.

Ronan disse na apresentação que Greta Gerwig contou detalhes de sua própria infância na cidade que é capital da Califórnia e queria que todos os seus atores fizessem o mesmo, para incorporar suas experiências com a interpretação dos personagens.

Ela também proibiu telefones celulares durante as filmagens, e fez questão de chegar ao trabalho sempre uma hora antes do resto da equipe, além de recusar-se a delegar a tomada de decisões: “se alguém fizer alguma coisa sem mim, e eu não souber como foi feito, como vou consertar?", argumentou. / Tradução de Claudia Bozzo

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