Cena do filme La Vanite
Cena do filme La Vanite

‘La Vanité’ fala do homem que busca auxílio para terminar seus dias com dignidade

Novo filme do suíço Lionel Baier trata vida e morte em chave irônica e desdramatizada

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2016 | 23h49

A “Vanité” é uma forma de pintura da Renascença. Consiste em colocar o tema bíblico (“Vaidade das Vaidades, tudo é vaidade”) em forma figurativa. A ideia é confrontar toda soberba deste mundo com a finitude humana, a morte, que tudo enterra e iguala, o pobre e o rico, o ignorante e o culto, o humilde e o arrogante.

No filme La Vanité, do suíço Lionel Baier, na cabeceira da cama de um motel está pendurada a reprodução de uma das mais famosas “vanités” de todos os tempos, pintada pelo mestre alemão Hans Holbein em 1533. Chama-se Les Ambassadeurs e mostra duas figuras nobres, vestidas de luxo e cercadas por todos os objetos cobiçados da época. Miram o pintor (e o espectador) com o olhar sereno de quem chegou ao topo do mundo. A seus pés, um objeto misterioso, como um osso comprido e do qual não se divisam as formas. Mas, olhado de certo ângulo, esta anamorfose mostra o que é, um crânio humano.

É esse quarto de motel que David Miller (Patrick Lapp) escolhe para receber ajuda assistida para morrer. Viúvo, sem contato com o filho, sem mais ilusões e doente terminal de câncer, esse arquiteto decidiu encerrar seus dias e assim recorre a uma empresa que assiste aos que desejam praticar a eutanásia e partir sem sofrimento. 

A funcionária que chega para auxiliá-lo, e que atende pelo irônico nome de Esperanza (Carmen Maura), não parece ter lá muita prática. Faz com que preencha os papéis necessários e lhe dá um calmante, mas se atrapalha com o resto do ritual. O filho de Miller, convocado especialmente para servir de testemunha, segundo ordena a lei suíça da eutanásia, recusa-se a atender o pai. Este resolve pedir ajuda ao vizinho de motel, um jovem imigrante russo, Tréplev (Ivan Georgiev), que trabalha como garoto de programa.

O filme discute questão tão séria numa chave oscilante entre o riso e a dor. O humor ajuda a desdramatizar a situação, sem atenuar o principal fato, que o personagem termina a vida sozinho, sem ter uma pessoa íntima a quem falar em seu desespero. Daí a apegar-se a essa bondosa atendente, e também ao imigrante de boas intenções, é pouco mais que um passo.

A história é conduzida de um extremo a outro com habilidade e economia. Perde-se, às vezes, em inúteis flashbacks da vida do personagem, em previsível branco e preto para marcar a diferença com o tempo presente da narrativa. Termina em chave terna e emocionante, sem chantagem ao espectador. Esse é um ponto a favor.

Baier faz uma aposta complicada, mas não de todo perdida por antecipação – aprisiona a maior parte da ação nos espaços fechados, o que lhe dá ar teatral. Quando isso acontece, a câmera depende demais dos atores. Um escorregão e, pronto, lá se vai a atenção do público. Isso não acontece. Lapp é bom ator dramático, faz seu personagem desesperado rir de si mesmo. Maura também é atriz de recursos e tem toda a cancha anterior de ser uma das personas preferenciais de Pedro Almodóvar. Sabe que do ridículo ao sublime não há mais que um passo, como diz o antigo ditado francês. E o ator mais jovem, Giorgiev, segura bem a onda e não se deixa intimidar pelos veteranos.

Além do mais, o filme concentra bastante sua trama e é sintético, virtude rara hoje em dia. Sem ser de fato grande, La Vanité toca em pontos essenciais do humano em qualquer época e encontra significado particular na contemporaneidade, quando a solidão é tão comum que chega a ser quase banal.

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