'La Sapienza' é um filme que encara e encanta o espectador

Novo longa do diretor cult Eugène Green, em que atores falam diretamente para a câmera, é atração do Indie Festival

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2014 | 23h46

O que há além da beleza e da ciência? O arquiteto Alexandre (Fabrizio Rongione), um dos personagens-chave do filme La Sapienza, não sabe dizer, mas volta sempre à questão quando fala da arquitetura e do trabalho de dois mestres do Barroco: Francesco Borromini e Gian Lorenzo Bernini. 

“Borromini é o barroco místico, que propõe a quem entra no espaço interno uma experiência pessoal. Bernini é o barroco racional, que respeita o poder, a hierarquia e as regras. Eu sou Bernini”, diz Alexandre ao jovem Goffredo (Ludovico Succio) durante visita a uma das obras-primas da arquitetura barroca, a basílica San’Ivo alla Sapienza, em Roma.

O que pode parecer um diálogo didático entre um mestre e um aprendiz, sob as lentes do diretor Eugène Green, se tornam discussões que se mesclam às vidas dos personagens. 

La Sapienza é a atração de uma sessão especial amanhã, às 17 horas, com direito a debate com o diretor, que exibe no Indie Festival (que começou na quarta e segue até dia 1.º de outubro no Cinesesc) os cinco longas e três curtas que ele dirigiu em sua até relativamente curta carreira. Green começou a filmar em 2001, aos 54 anos, e realizou poucos, mas importantes trabalhos. 

“Busquei o barroco porque quis provocar um choque com o passado, para, então, iluminar o presente. É parte da minha vontade de voltar ao último momento da história em que o homem convivia com a razão e com o espírito, sem que houvesse conflito nisso. Depois do século 16, tudo isso mudou”, declarou o diretor ao Estado no último Festival de Locarno, em agosto, quando La Sapienza fez sua estreia mundial. 

É para tratar dos conflitos de Alexandre que Green recorre à História. O arquiteto, em crise profissional e existencial, embarca em uma viagem pela Itália com o aspirante a arquiteto Goffredo depois que sua mulher Aliénor (Christelle Prot) decide enviar o garoto no seu lugar. Ela preferiu ficar na primeira parada da jornada, a pequena Stresa, até que a jovem Lavinia (Arianna Nastro), irmã de Goffredo, recupere-se de uma crise nervosa. 

Foi no momento em que a garota estava prestes a desmaiar que eles se conheceram. E a estranheza que causa a intimidade imediata entre eles acaba atingindo também o espectador. Em cada diálogo entre os personagens, eles olham para a câmera, como quem olha nos olhos do público. A plateia se torna interlocutora desta história. “É importante o choque que se tem ao se ver inserido no contexto”, afirmou Green, que é também homenageado do Indie Festival. 

Sua forma particular de enxergar no cinema uma casa não somente para a imagem, mas que também dá relevância à palavra pode ser conferida hoje, na masterclass que o diretor ministra às 17 horas. Às 19h15, é a vez de assistir a Todas as Noites. Na segunda, também às 17 horas, três curtas têm sessão especial: Os Sinais, Correspondência e O Nome do Jogo. Na quarta, às 19 horas, A Ponte das Artes encerra a programação especial para o diretor, um dos mais importantes nomes do cinema independente internacional. 

De volta a La Sapienza, se a união entre o barroco e os dias de hoje, somada ao ‘espectador-interlocutor’, parece não se encaixar, basta assistir ao filme para entender que tudo funciona como peças de uma arquitetura perfeita. “Não há como não estar inserido nas discussões da arte. A arquitetura, antigamente, servia para nos dar uma casa, beleza, abrigo, luz, espaços para ocuparmos. Mas, em um mundo em crise, há tantos sem abrigo. O cinema serve para isso: para preencher com luz e beleza espaços de discussão.”

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