Cena de 'La Sapienza'
Cena de 'La Sapienza'

‘La Sapienza’ aponta necessidade da cultura na sociedade de hoje

Filme acompanha um arquiteto em crise, estudioso do barroco, que vê um dos seus projetos desfigurado por motivos econômicos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

15 de setembro de 2015 | 03h00

La Sapienza ilustra uma das frases mais feitas (e nem por isso menos verdadeira) do mundo das artes. É mais importante a maneira como se conta uma história do que a história em si. De outra forma, o que seria de La Sapienza, filme dirigido por Eugène Green, um norte-americano de 68 anos, radicado na França? Ele fala de um homem maduro que supõe passar muita experiência a um jovem, mas que acaba mais aprendendo com ele do que ensinando? Inversão entre professor e aluno?

Quantas vezes essa história já foi contada? Inúmeras, mas podemos apostar que nunca desta maneira.

O espectador tem de, em primeiro lugar, ultrapassar certa estranheza inicial para imergir em La Sapienza. Os personagens assumem poses hieráticas, não raro olham para a câmera, em negação ostensiva do naturalismo, corrente dominante do cinema. Mais: os diálogos percorrerem densas camadas de referências culturais como, no caso, o da arquitetura barroca e suas variantes.

Alexandre Schmidt (Fabrizio Rongione) é um arquiteto francês em crise no casamento e na profissão. Estudioso do barroco, vê um dos seus projetos ser desfigurado por motivos econômicos. Decide deixar Paris e viajar à Itália, lugar certo para renovação, se você está em busca de beleza, encantamento e iluminação. A esposa, Aliénor (Christelle Prot), uma psicóloga, o acompanha. Numa pequena cidade do Piemonte, Stresa, conhecem os irmãos adolescentes Goffredo (Ludovico Succio) e sua irmã, Lavinia (Ariana Nastro). Esta desfalece em plena rua e é socorrida pelo casal francês. Há uma aproximação entre eles.

Aliénor e Lavinia tornam-se amigas. Como Alexandre deve ir a Roma, será Goffredo a acompanhá-lo. Cabe notar que o adolescente sonha ser arquiteto. Está, portanto, acompanhado de alguém que já é uma autoridade na profissão. Há uma relação clara de mestre e discípulo entre eles. Mas quem será o mestre e quem o discípulo, afinal?

Há uma discussão, travada mais na alma do arquiteto do que com interlocutores reais. Ela opõe Bernini, que ele chama de barroco racional, a Borromini, o barroco místico. Homem laico, do século da descrença, Alexandre se coloca do lado barroco racional. De Bernini, portanto. Mas não pode deixar de admirar Borromini, o místico, o inventor, o ousado. Esse monólogo, mais que diálogo, se dá na visita que Alexandre e Goffredo fazem a uma das obras-primas da arquitetura de todos os tempos – a Basílica de San’Ivo Alla Sapienza, em Roma.

Há muitas entradas (e saídas) para este belo e misterioso filme. Uma delas permite ver que Alexandre e Aliénor sofrem nem tanto do desgaste natural do matrimônio, mas de uma fadiga de material ocasionada pela ordem do mundo. Não é fácil viver num ambiente em que o dinheiro dá a primeira e a última palavra de tudo, ainda mais se você tem um temperamento artístico e intelectual. Nada melhor, portanto, que se refugiar em outra parte. Na contemplação. No estudo, no diálogo culto, na conversação sofisticada. Na “sapienza”, enfim, palavra que também significa “sabedoria”. Se os atores olham para o espectador, isso se parece a uma sutil indagação, suave e firme: “E você, está satisfeito?”.

Esse cinema difícil, exigente, porém apaixonante, recompensa o espectador quando este faz algum esforço para se livrar dos automatismos de um cotidiano opressivo. O mundo atual pede muita sabedoria, além de paciência para ser suportado.

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