Dale Robinette, Lionsgate
Dale Robinette, Lionsgate

'La La Land' tem um trunfo para o Oscar: Seu 'Hollywoodismo'

O musical queridinho dos festivais tem música e dança nostálgicas e protagonistas de olhos arregalados que perseguem um sonho

Cara Buckley / The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2017 | 16h09

A quase um mes do Oscar, a disputa de melhor filme continua apertada entre três concorrentes: La La Land – Cantando Estações, na dianteira; Manchester à Beira-Mar, nos calcanhares; e Moonlight: Sob a Luz do Luar seguindo de perto em terceiro. O jogo pode virar, claro. Mas, numa terra de prognósticos, esse é o quadro atual.

Enquanto as agremiações importantes – de atores, diretores, produtores – não dão seus prêmios, um dos filmes na liderança da disputa deste ano tem o que pode ser uma decisiva vantagem: ele aborda o tema que mais seduz Hollywood – a própria Hollywood.

La La Land, um queridinho dos festivais, tem música e dança nostálgicas e protagonistas de olhos arregalados que perseguem o sonho de Hollywood. Estreou com sucesso no Festival Internacional de Cinema de Veneza, em agosto. Em outra projeção, semanas depois, deixou membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas em êxtase e lágrimas, tomados de renovado orgulho por sua nobre profissão. Logo que a sessão começou, observadores da academia já previram ser quase certo que La La Land seguiria os passos de recentes ganhadores da categoria melhor filme, como Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), Argo e O Artista, todos também falando do show business.

“Filmes sobre Hollywood vêm sendo, diriam alguns, desproporcionalmente premiados por... Hollywood”, avaliou Tony Angellotti, veterano especialista em premiação cinematográfica. “Não que não sejam bons filmes, mas claramente ganham um empurrãozinho ao serem considerados por vários membros da academia.”

La La Land vem conquistando grandes plateias – faturou em casa US$ 37 milhões em menos de um mês nos cinemas; naquela altura, Spotlight: Segredos Revelados, havia faturado US$ 27 milhões, já com alguns meses no circuito. Mas os rivais de La La Land também se mostram campeões de bilheteria, após bem-sucedidas estreias em festivais (conseguiram igualmente indicações importantes e aprovação de críticos).

Manchester by the Sea, a história dolorosa de um homem golpeado pela tragédia, protagonizado por Casey Affleck, provocou um verdadeiro leilão após a estreia, cerca de um ano atrás, no Festival de Cinema de Sundance. Foi vendido para a Amazon por (segundo se comenta) US$ 10 milhões.

E Moonlight, sobre um adolescente negro gay criado na parte pobre de Miami que chega à maioridade, tem encantado plateias desde que estreou, em setembro, no Telluride Film Festival. Foi também ajudado pelo momento, estreando meses depois de a academia começar a diversificar agressivamente suas escolhas em resposta a acusações de racismo, e semanas depois de The Birth of a Nation, um filme que pretendia corrigir um suposto “branqueamento” do Oscar, mergulhar em controvérsias.

Mas Manchester e Moonlight podem não se enquadrar bem nos padrões de melhor filme.

Na última década, Oscars de melhor filme que não foram para produções sobre entretenimento com frequência foram para filmes com mensagens que espelham valores que membros da academia estão ávidos por adotar.

Entre os recentes vencedores que se enquadram nesse gênero estão Spotlight (detalhando revelações de que a Igreja Católica protegeu padres pedófilos), 12 Anos de Escravidão (sobre raízes e legado da escravidão) e Guerra ao Terror (sobre um soldado bom numa guerra ruim).

Nesta temporada não ocorreu o predomínio dos filmes “com mensagem”. Há Hell or High Water, com uma radical abordagem sobre empréstimos predatórios, e Hacksaw Ridge, que funde patriotismo com pacifismo altruísta; nenhum dos dois, porém, está entre os favoritos.

Manchester e Moonlight não têm mensagens tão incisivas. Manchester destaca a força e as idiossincrasias dos laços familiares, mas continua sendo, no fundo, a história de um anti-herói. Moonlight derruba estereótipos ao trazer à tela personagens negligenciados, revelando a vulnerabilidade de jovens negros. Como Manchester, não é exatamente um filme didático.

Não que La La Land seja aposta certa. Em dezembro, o musical não conseguiu a indicação de melhor elenco do Screen Actors Guild (SAG). A última vez que um filme ganhou o Oscar de melhor filme sem a indicação de elenco do SAG foi em 1996, quando Coração Valente foi o vencedor.

Mas tendências valem até deixarem de valer. Em 2013, depois de Ben Affleck não conseguir a indicação de melhor diretor, as chances de melhor filme para seu Argo diminuíram, uma tendência respaldada pelas estatísticas. Mas Argo ganhou. Conjeturou-se que o fato de Affleck ter sido esnobado como diretor impulsionou as chances do filme ao transformá-lo em azarão. Ser um favorito ao Oscar pode ser um peso. A não indicação de elenco pelo SAG pode terminar ajudando La La Land ao fragilizá-lo.

E vamos para a corrida de atores, liderada por protagonistas dos três filmes já exaustivamente mencionados.

Casey Affleck é o favorito para melhor ator, já tendo ganho essa premiação do New York Film Critics Circle e da National Board of Review and Broadcast Film Critics Association, além de receber indicações para um Globo de Ouro e um SAG. Seu maior rival é Denzel Washington, por Fences, que também dirigiu, produção candidata a melhor filme e crescente sucesso de bilheteria.

Mas Washington já ganhou dois Oscars, e Affleck, ajudado por uma história de “ele está voltando”, vem se mostrando uma presença agradável e engraçada no circuito da premiação. Um escândalo potencial que poderia ter prejudicado suas chances – queixas de assédio sexual contra ele em 2010, já arquivadas – não avançou.

Na disputa de melhor atriz, uma das mais acirradas neste ano, críticos estão apostando em Emma Stone, estrela de La La Land, cujas maiores rivais são Natalie Portman (Jackie), que já ganhou um Oscar, e Amy Adams (A Chegada), indicada cinco vezes. Até aí, tudo bem, mas há quem continue sem entender por que Annette Bening, que teve quatro indicações mas nunca levou uma estatueta, não está liderando a corrida nessa categoria – e com uma dianteira de quilômetros – por sua poderosa e complexa atuação em 20th Century Women. Mas isso é assunto para um outro dia.

Como melhor ator coadjuvante, todos os indícios apontam para Mahershala Ali, que fez o papel de um traficante bonzinho e paternal em Moonlight. Lucas Hedges (Manchester), Dev Patel (Lion) e Jeff Bridges (Hell or High Water) também são prováveis indicados.

Viola Davis, já duas vezes indicada para o Oscar, é a grande favorita para melhor atriz coadjuvante pelo papel de mulher de Denzel Washington em Fences (ela optou por disputar na categoria coadjuvante, embora o papel possa ser considerado de atriz principal). Naomie Harris (Moonlight), Michelle Williams (Manchester) e Nicole Kidman (Lion) também têm grandes torcidas. Mas a hora parece ser de Viola, de 51 anos, aplaudida de pé no Critics Choice Awards quando fez um poderoso discurso ao receber o prêmio. “Quero que vocês venham para meu mundo, porque eu não irei ao de vocês”, disse ela. “Sentem-se comigo, com meu corpo, minha cor, minha idade.”

Por fim, chegamos a melhor diretor. Embora Kenneth Lonergan (que escreveu e dirigiu Manchester) e Denzel Washington provavelmente venham a ser finalistas, no momento o quadro é também muito favorável a dois jovens: Berry Jenkins, de 37 anos, que dirigiu Moonlight, e Damien Chazelle, de 31, que escreveu e dirigiu La La Land.

Na noite de terça-feira, na cerimônia do New York Film Critics, ao receber o prêmio pelo melhor filme (Jenkins ficou com o de melhor diretor), Chazelle exaltou o idealismo escapista dos dias de hoje. “É uma boa época para não ser realista e às vezes simplesmente sonhar”, avaliou, “e valorizar o amor e o sonho, mesmo que este não se realize .”

Tra la la!

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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