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Victor Llorente/The New York Times
Victor Llorente/The New York Times

‘La Bamba’ e as vidas que o filme mudou

'La Bamba se tornou o carro-chefe da que muitos achavam que seria uma onda latina em Hollywood', lembra Lou Diamond Phillips - o ator que interpreta Ritchie Valens no filme

Yolanda Machado, The New York Times

06 de maio de 2021 | 10h00

Quando o filme La Bamba foi lançado no verão de 1987, as expectativas de sucesso eram baixas. O filme se baseava na vida de Ritchie Valens, adolescente mexicano-americano (Richard Steven Valenzuela) que foi um dos primeiros latinos no cenário do rock’n’roll. O filme cobriu seu início de vida como trabalhador numa fazenda em Delano, Califórnia, sua ligação com seu polêmico irmão mais velho, Bob, e as complexidade de ter de esconder seu passado para triunfar no campo da música com sucessos como La Bamba, que deu título ao longa que, basicamente, relata a história da luta de dois irmãos para realizarem o sonho americano, um sonho que era reservado aos americanos brancos. Filme está disponível na Netflix

Valens morreu em 1959, um ano depois de ter firmado um contrato com a Del-Fi Records, num acidente de avião que também matou dois outros artistas, Buddy Holly e J.P. Richardson, mais conhecido como Big Bopper.

A breve carreira de um adolescente latino não entusiasmou exatamente os executivos de Hollywood. As chamadas histórias “étnicas” não eram consideradas possíveis sucessos de bilheteria. Um artigo no The Los Angeles Times parafraseou os especialistas de marketing que particularmente temiam que La Bamba -  com roteiro e direção de um roteirista latino, Luiz Valdez, e estrelado por um ator desconhecido descendente de filipinos, Lou Diamond Phillips - ficaria muito aquém das expectativas e tornaria Hollywood “hostil” à ideia de outros filmes sobre latinos.

Mas o filme biográfico cuja produção foi de 6,5 milhões de dólares, arrecadou mais de 54 milhões de dólares. Ajustado pela inflação corresponderia hoje a mais de 120 milhões de dólares. 

"La Bamba se tornou o carro-chefe da que muitos achavam que seria uma onda latina em Hollywood", disse Phillips numa conversa por vídeo. “Mas nunca se estabeleceu o bastante para se tornar um pilar. Nesse sentido, La Bamba é algo único e novo porque não havia muita coisa em torno para competir com o filme”.

Com La Bamba sendo exibido no canal HBO Max e fazendo um breve retorno aos cinemas, Valdez reuniu-se com Phillips para falar sobre o filme e seu impacto, 34 anos depois.

Abaixo trechos editados da entrevista:

 

'La Bamba' ainda é considerada uma das histórias de latinos imprescindíveis na história cinematográfica. O que pensa desse filme criado por você há três décadas ser ainda tão influente?

VALDEZ: A sensação é boa e ruim, de algum modo. É bom o filme ser relevante, atual e que as pessoas desfrutem dele por causa do que ele é. Ao mesmo tempo, há dezenas de filmes como La Bamba representando a experiência latina. Não só latina, mas a experiência da minoria como um todo nos EUA. Porque acho que o que torna La Bamba um filme forte é que ele se refere a um novo consenso na América, o que significa ser americano. Sem dúvida ele tem raízes multiculturais, mas expressa as mesmas preocupações universais básicas na vida de cada pessoa: a família, o trabalho, a esperança, a ambição, os sonhos e desejos, e ele é relevante nesse sentido porque essas coisas nunca desaparecem. São humanas e eternas.

PHILLIPS: Concordo com o que Luz disse. Gostaríamos de ter explorado mais isso na época. O que temos visto nos últimos 20 anos é uma comunidade afro-americana se expressando abertamente e produtores, diretores e roteiristas muito motivados e determinados. Quando você tem pessoas como Tyler Perry, Ava DuVernay ou Shonda Rhimes, você teria esses criadores que hoje são referências para abrir o caminho. Luís foi um pioneiro nesse sentido. Ele apenas não teve pessoas o bastante para seguir seus passos.


 

Senhor Valdez, o senhor mencionou que o filme era uma história americana. Ele inspirou muitas crianças latino-americanas de primeira e segunda geração a sonharem grande. Por que existe essa barreira para colocar um rótulo americano no que é considerada uma história “étnica”?

VALDEZ: Acho que é uma questão da narrativa americana. Que história você está contando aqui e de qual perspectiva? Sempre nos passaram a ideia dos peregrinos e a chegada em 1492 e da Europa, etc. Bem, o México deveria ser nessa ideia, pois é um outro país também distante no que diz respeito à narrativa americana. Mas na verdade, tudo teria de ser novamente revisto. Há uma necessidade de reescrever essa narrativa, examiná-la de novo e perguntar: “O que é um americano? O que significa ser americano?”

Todos nós vivemos vidas comuns. Não temos de ser membros de gangues. Não temos de ser criminosos. Viciados em droga. Não temos de ser violentos. Podemos ser pessoas normais que vão ao shopping center comprar comida e roupas para os filhos e os mandam para a escola. Temos a mesma vida retratada em todos esses filmes que tratam de pessoas brancas. Elas abrangem todo o espectro. As minorias não, ficam encerradas em estereótipos. E quanto mais violento, exótico e estranho esse estereótipo, supostamente é mais comercial. Bem, é uma mentira.


 


 

Estou curioso sobre o que aconteceu com sua carreira de cineasta depois de 'La Bamba'. O senhor dirigiu e escreveu alguns filmes para a TV, mas depois voltou ao teatro e deixou de lado o cinema. O que sucedeu?

VALDEZ: Eu me tornei cineasta anos depois de ser organizador sindical e fundador do El Teatro Campesino, e professor universitário. E me dediquei a várias outras coisas. Voltei a dar aulas. Como um dos professores fundadores da (Cal State University) Monterey Bay, comecei o que é chamado Instituto de Artes Teledramáticas e Tecnologia, que foi uma prévia de algumas das mudanças que vêm ocorrendo agora, como o streaming e similares. Mas francamente, ainda é muito difícil levar adiante novos projetos que gostaria de fazer. Eles me ofereceram coisas que eu não queria e assim decidi não fazer porque tinha outras opções.


 

No final dos anos 1990 o senhor disse que começaria a trabalhar numa continuação de 'La Bamba', que acompanharia a vida do irmão de Ritchie, Bob. O que sucedeu com esse projeto?

VALDEZ: Achava que havia um prolongamento da história. Eu acompanhei Bob no fim. Mas, Deus o tenha, ele morreu há alguns anos. Estava com 81 anos, cabelo moicano e um brinco. Era uma pessoa sensacional para conhecer e ter realmente como amigo. E era uma história que tinha a ver com a expansão da história do rock'n'roll, como chegamos aos anos 1950 e 1960. O veículo para chegar lá era realmente através de Bob. Assim ofereci a ideia para vários produtores, mas não recebi um telefonema de volta. Francamente, acho que não temos produtores suficientes que compreendam a experiência das minorias nos Estados Unidos. Eles sempre focam nas mesmas coisas - violência, drogas e o sensacionalismo, achando que é isso que vende. E com muita frequência é a história humana silenciosa que finalmente conecta as pessoas, e acho que é esse o segredo de La Bamba.


 

A história provocou mudanças no senhor? Inspirou-o a fazer alguma coisa que talvez não tivesse feito antes?

PHILLIPS: Ela enfatizou e galvanizou meu próprio sonho. Eu li a parte de Bob durante alguns dias e um certo dia Luiz passou por mim, estava sentado no saguão, e ele me disse: “Amanhã você vai ler a parte do Ritchie. Lembro-me de caminhar pelo Pico Boulevard pensando, “Meu Deus, mergulhei minha cabeça na figura de Bob. E agora como vou interpretar Ritchie? Sou um garoto com um grande sonho, o desejo de prossegui-lo. O processo inteiro de ter de me tornar Ritchie e ser arremessado dessa maneira mudou minha vida.

Eu tinha uma filosofia: vai mudar minha vida, mas não vai me mudar. A experiência me tornou uma pessoa introspectiva o resto da minha carreira e não me sentindo como se tivesse direito a isso, que eu era uma pessoa sortuda e nunca seria menos do que agradecido por isso.

VALDEZ: Ritchie e eu éramos parte da mesma geração. Eu estava na escola secundária quando surgiu o rock’n’roll na década de 1950 e entendo as ambições dele porque eu tinha as mesmas. Nós éramos todos americanos entusiasmados e eu sonhava que todas as oportunidades estavam à minha mão. Qualquer coisa que  desejasse fazer, se quisesse ser uma estrela do rock eu conseguiria, e Ritchie tinha esse sonho e foi em frente. E o mesmo aconteceu comigo no teatro. Quero dizer, não havia nenhum teatro latino quando comecei, e eu pensei, ninguém fez isso, então eu farei. Comecei a escrever peças em 1960. Era um mundo totalmente diferente, então. Por isso eu me identifiquei com Ritchie: ele morreu por isso, mas viveu seus sonhos.


Tradução de Terezinha Martino

 

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