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Kurosawa e seu estudo sobre a imagem e a ilusão em making of

Disco de extras do clássico de 1980, que reflete sobre a própria identidade do Japão

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2015 | 16h00

Há filmes de samurais e há Kagemusha. Assim como existem milhares de bons diretores e apenas um Akira Kurosawa. Kagemusha (1980), que sai em DVD pela Versátil, é um dos pontos altos da obra do grande mestre japonês. Este lançamento está à altura da obra. A caixa tem dois discos, um com o filme, o outro apenas com os extras. Num deles, há o raro A Vingança de Um Samurai (1952), com Toshiro Mifune, mas também se pode ver o making of do clássico de Kurosawa, story boards das cenas e depoimentos de George Lucas, Francis Ford Coppola e do próprio Kurosawa.

Esses elementos extras “cercam” o filme, por assim dizer, e podem, eventualmente, enriquecer sua fruição. Mas o fato é que Kagemusha é tão estupendo que fala por si só. Nessa versão restaurada estão intactas as cores escolhidas pelo diretor para pintar sua história (porque a obra é também pictórica), assim como a dimensão espacial dos planos, compostos com o mesmo olho clínico para as artes plásticas aplicado na escolha das cores.

O filme começa com um plano surpreendente – e estático. No quadro, ocupam a cena três personagens, surpreendentemente parecidos entre si. Descobrimos aos poucos quem são. No centro, o senhor feudal, Lorde Shingen Takeda (Tatsuya Nakadai). Ao lado, seu irmão, muito parecido, que lhe serve de dublê em determinadas aparições públicas. E, de outro lado, alguém tão parecido a Shingen que este, ao olhá-lo, pensa ver-se no espelho. É o Kagemusha, um ladrão que seria executado e fora salvo do patíbulo na última hora, exatamente por sua semelhança perfeita com o líder.

Estamos no Japão medieval, no século 16, com o país dividido em clãs rivais. Shingen é o senhor do clã Takeda. Tudo é desconfiança entre os rivais, de modo que se torna uma necessidade valer-se desse “guerreiro-sombra”, o Kagemusha, para substituir o Lorde original em situações de risco. Vale notar que Shingen é fino estratega, temido por seus inimigos. Sua morte jogaria toda a região num clima de instabilidade. E, por isso, quando pressente que vai morrer, Shingen determina que o Kagemusha o substitua durante ao menos três anos, até que as relações de poder se acomodem. Apenas alguns auxiliares mais próximos sabem da troca.

De modo que Kagemusha, o filme, é um fino estudo sobre a imagem e a ilusão. Algumas cenas são famosas, como o encontro do Kagemusha com o neto do verdadeiro Lorde. Difícil enganar as crianças. E também as mulheres, que conhecem o homem verdadeiro por trás da máscara do poder, em sua intimidade.

O filme é cheio de alusões desse tipo e constitui uma meditação sobre o tema do duplo e a própria identidade do Japão, tema preferencial de Kurosawa. Onde o original, onde a cópia? Como manter a autenticidade depois da derrota na guerra e a invasão de uma cultura mercantilista, pouco preocupada em conviver com a civilização milenar do ocupado? São perguntas que Kurosawa, neste filme de 1980, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, procura trabalhar. Reflexão sobre o contemporâneo, pela recriação histórica do Japão medieval.

Se Kagemusha impressiona por esse mergulho na dimensão histórica, nem por isso descuida da vertente pessoal. Daí a surpreendente hesitação de Kagemusha em aceitar uma missão que, afinal, o livrou da morte. Como ser outro que não eu? Mesmo que esse outro seja infinitamente mais poderoso, assumir sua identidade não seria uma forma de rebaixar a minha? São esses alguns desvãos dessa obra literalmente inesgotável.

KAGEMUSHA – A SOMBRA DO SAMURAI

Lançamento da Versátil com mais de 3 horas de vídeos extras.

R$ 69,90

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