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Kristen Stewart interpreta Jean Seberg em cinebiografia

'Seberg Contra Todos' também tem Vince Vaughn e Margaret Qualley no elenco

Mariane Morisawa, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

12 de março de 2020 | 07h00

ZURIQUE - Para a maioria das pessoas, Jean Seberg é a estrela de Acossado (1960), de Jean-Luc Godard, e cara da nouvelle vague. Para Kristen Stewart, também. “Eu amava sua atuação no filme. Eu só a conhecia por meio daquele filme. Não sabia muito de sua carreira. Sempre a imaginei como essa jovem contagiante e cool e ícone de estilo na nouvelle vague dos anos 1960”, disse a atriz em entrevista ao Estado, em Zurique. Mas tudo mudou quando ela recebeu o roteiro de Seberg Contra Todos, escrito por Joe Shrapnel e Anna Waterhouse e dirigido por Benedict Andrews, em cartaz nos cinemas. “Fiquei chocada ao descobrir que sua história foi enterrada com tanto sucesso e tão ironicamente. Foi frustrante ver como eles venceram de maneira tão extraordinária.”

“Eles”, no caso, são o governo americano e o FBI, que vigiaram e ameaçaram a atriz por seu envolvimento com o movimento pelos direitos civis - ela teve um relacionamento com Hakim Jamal (Anthony Mackie), que era meio independente, mas dialogava com os Panteras Negras. 

No filme, a perseguição a Jean Seberg ganha nome e cara fictícios: os agentes Carl Kowalski (Vince Vaughn) e Jack Solomon (Jack O’Connell). Solomon é um jovem agente, recém-casado com Linette (interpretada pela sensação do momento Margaret Qualley), sedento de se provar no novo emprego, mas que ainda é afetado por seus próprios atos. 

“O escrutínio público pelo qual ela passou foi resultado de ataques maldosos do governo americano”, disse Stewart, recusando qualquer comparação com o que sofreu pessoalmente, especialmente na época de Crepúsculo e do romance com Robert Pattinson. “Vivi uma versão bem insignificante disso. Mas eu me identifico com ela porque, antes de se tornar uma ativista, ela era meio esquisitona”, explica. “Ela não atuava da maneira como as pessoas esperavam na época. E nem sempre foi querida. As pessoas não gostavam dela. E ela sempre estava tão presente. Suas atuações são imprevisíveis, não dá para saber o que ela vai fazer.” Stewart, como Seberg, também encontrou no cinema francês um porto seguro, ganhando um César por Acima das Nuvens, de Olivier Assayas.

 


Benedict Andrews, que vem do teatro e dirige seu segundo longa, afirmou que não queria fazer uma biografia tradicional. “Queria que o filme tivesse a intimidade de uma história de amor combinada com a tensão de um thriller.” 

Olhar contemporâneo. Para ele, tampouco fazia sentido realizar uma produção de época. “Não queria que fosse nostálgico, nem que apresentasse o que já conhecemos, ou uma fantasia dos anos 1960. Meu desejo era filmar como se fosse uma história contemporânea”, revela. “Assim olhamos para 1969 como uma maneira de falar de 2019, porque vemos hoje os mesmos ingredientes dessa cultura de vigilância.” 

Kristen Stewart percebeu a contemporaneidade de alguns temas, como a maneira como Jean Seberg era percebida como promíscua apenas por ser mulher. “Ela era a senhora do seu destino, fazia suas escolhas. E era julgada por isso, o que acontece até hoje com as mulheres que agem da mesma forma.”

Benedict Andrews também teve o cuidado de não transformar Jean Seberg numa santa e uma salvadora branca dos negros. “Toda a questão do movimento pelos direitos civis e dos Panteras Negras é muito complexa. O ativismo de Jean também era algo delicado, então não queria transformá-la numa heroína sem falhas. O público vai perceber suas fragilidades.”

Num dado momento, Seberg é chamada de “turista” por Dorothy Jamal (Zazie Beetz), a mulher de Hakim, por seu envolvimento com a causa - ela, afinal, não vivia da mesma forma o preconceito e a violência. “Ela era muito idealista e acredito que sincera, mas tinha uma posição de privilégio”, disse Andrews. 

Sempre vigiada e seguida, Jean Seberg vai entrando numa espiral de desespero e é chamada de paranoica. Kristen Stewart acha que, por esse motivo, foi um privilégio interpretá-la. “É como se eu pudesse contar a história que ela nunca pôde contar. Porque a ideia de que ela se tornou essa atriz desempregada e excêntrica, que se mudou para a França e cometeu suicídio, é muito errada”, disse a atriz. “Se eu tivesse oportunidade de encontrá-la hoje, diria: ‘Você não estava louca, estavam mesmo a perseguindo’.”

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