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Kore-eda, cronista do que está mudando na família japonesa, expõe ferida em 'Depois da Tempestade'

Filme venceu o prêmio da crítica na 40ª Mostra Internacional, em SP

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2016 | 20h50

Em Cannes, nos últimos anos, Hirokazu Kore-eda não tem sido apenas uma presença assídua. Tem sido multipremiado, também. Este ano, o grande diretor japonês participou da mostra Un Certain Regard com Depois da Tempestade. No começo do mês, o filme recebeu o prêmio da crítica na 40.ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. A justificativa – “Bastam um pai, sua mãe, a ex e o filho de ambos. Por meio de cenas simples e diálogos profundos, mas poderia ser cenas profundas e diálogos simples, Kore-eda condensa e reflete todo um mundo de afeto. A inevitabilidade do amadurecimento. A vida como processo. O que se ganha e o que se perde.”

Depois da Tempestade estreou nesta quinta-feira, dia 17. Em Cannes, em sucessivas entrevistas, Kore-eda disse ao repórter que dois foram os acontecimentos marcantes de sua vida, nos últimos anos. A morte de seu pai e o fato de ele próprio ter-se tornado pai. Tudo mudou por causa disso. O filme é sobre esse escritor em crise. Separado da mulher, ele trabalha, fingindo que pesquisa para um novo livro, como detetive. Na verdade, banca o investigador da ex-mulher, inquire o filho. A tempestade do título obriga a família fraturada a se reunir de novo – na casa da mãe dele. Forçado ao diálogo, o casal encara o que para ele é dor – a união acabou. É preciso recomeçar.

Seus últimos filmes têm sido sobre família, mas Kore-eda não gosta quando o comparam ao mestre japonês Yasujiro Ozu, que criou toda uma estética para colocar na tela a dissolução da família tradicional de seu país, no pós-guerra. “É lisonjeiro, mas não é acurado”, diz Kore-eda. “Sou um simples cronista, enquanto Ozu é um pensador.” Seu cinema é feito de delicadeza e observação. Na coletiva de Depois da Tempestade, ele contou – “Após a morte de meu pai, minha mãe resolveu que queria morar sozinha. E foi para um tipo de imóvel que está ficando muito popular no Japão, de aluguel barato, para pessoas solitárias. Fui visitá-la, nas festas. E pensei comigo que gostaria de dedicar um filme a essa nova realidade. Demorei, porque não achava o viés certo. Mas encontrei meu jeito. Falo da mãe através do filho.” Pai e filho, de novo, como no longa de Kore-eda de 2013, Pais e Filhos, premiado pelo júri de Steven Spielberg. O pai precisa parar de agir como criança crescida.

Nada como a tempestade para confrontar as pessoas com elas mesmas. Pai e filho buscam abrigo no brinquedo do playground onde, no passado, em outra tempestade, o protagonista se abrigou quando criança. Nenhuma grande ação. Nada além de conversas, delicadamente encenadas e filmadas.

Em Cannes, Kore-eda parecia particularmente feliz com o resultado de Depois da Tempestade. Ele reencontra seu ator de Still Walking, Hiroshi Abe. As atrizes são as geniais Kirin Kiki (a mãe) e Yoko Maki (a ex). O menino é Taiyo Yoshizawa, dirigido com aquela habilidade que Hirokazu Kore-eda tem para conduzir os menores. São palavras do cineasta – “Se, depois da morte, eu for confrontado com Deus e ele quiser saber quem eu sou, e o que faço, acho que bastaria mostrar esse filme. É o que melhor me define”, acrescenta o diretor.

 

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