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Ian Langsdon/EFE
Ian Langsdon/EFE

'Tenho certeza de que esse festival será histórico', diz Kleber Mendonça Filho, jurado em Cannes

Diretor de 'Aquarius' e 'Bacurau', brasileiro estará ao lado de outros cineastas e atores no júri presidido por Spike Lee

Luiz Carlos Merten , Especial para o Estadão

07 de julho de 2021 | 05h00

Em Berlim, no ano passado, Kleber Mendonça Filho integrou o júri presidido pelo ator Jeremy Irons. Coube-lhe entregar o Urso de Prata de melhor direção para o sul-coreano Hong Sang-soo. Este ano, no Festival de Cannes, que volta a ser presencial, Kleber de novo integra o júri, que vai outorgar a Palma de Ouro, presidido por Spike Lee. Na era das discussões de gêneros, Cannes ainda pode ter poucas mulheres na competição – quatro, num total de 24 –, mas elas são maioria no júri. Cinco em um total de nove. 

São as atrizes Maggie Gyllenhaal e Melanie Laurent, as diretoras Mati Diop e Jessica Hausner e a cantora Mylène Farmer. Cannes iniciou na terça, 6, sua 74ª edição. Concorrem grandes nomes do cinema mundial. No sábado, 17, haverá o anúncio dos prêmios. Kleber tem sido presença frequente na Croisette. Seu primeiro filme em Cannes foi um curta, Eletrodoméstica, apresentado na Quinzena dos Realizadores, em 2005. Kleber corrige uma informação numa matéria anterior – “Meu primeiro longa, O Som ao Redor, estreou em Roterdã, mas Aquarius e Bacurau, correalizado em parceria com Juliano Dornelles, realmente concorreram em Cannes.” 

O segundo recebeu o prêmio especial do júri, num ano, 2019, em que o festival sinalizou para um tema visceral, a revolta dos excluídos, logo confirmado em Veneza, que também outorgou o Leão de Ouro ao Coringa de Todd Phillips, com Joaquin Phoenix. Só para lembrar – Bacurau dividiu o prêmio com Os Miseráveis, de Ladj Ly. Parasita, de Bong Joon-ho, venceu a Palma e, na sequência, foi confirmado no Oscar de 2020. Song Kang-ho, que faz o pai no longa de Bong, também integra o júri com Kleber, Tahar Rahim e o presidente Spike Lee. Ao receber o convite, Kleber não vacilou. “Estou há 16 meses sem ir ao cinema. Durante toda a pandemia, com a situação crítica vivida pelo Brasil, ficamos em casa, isolados. Estamos (ele, a mulher, a produtora Emilie Lesclaux, e os gêmeos) agora em Bordeaux, a caminho de Cannes.” A entrevista foi feita por e-mail, no fim de semana.

A França vive atualmente uma situação de quase normalidade. “Já é possível andar na rua sem máscara, mas ela é obrigatória em lojas, cafés, livrarias. Confesso que estou empolgado. Ver os filmes na tela do Grand Théâtre Lumière, integrando o júri de Spike Lee, com tanta gente bacana, é muito estimulante. Tenho certeza de que esse festival será histórico, e talvez ajude a responder perguntas que estão no imaginário de todo mundo que faz e vê cinema. Como ficarão os filmes após a pandemia? Como os faremos, veremos? Sinto que será uma discussão necessária, importante.” 

Ele lembra de sua primeira vez em Cannes. “Foi em 1999, como crítico do Jornal do Commercio do Recife. Depois disso, interagi de diversas formas com Cannes. Foram muitos anos como crítico, enviado pelo jornal para fazer a cobertura do festival. Em 2005, levei meu curta, em 2010 parei de ir como crítico, porque estava começando a fazer O Som ao Redor. Então, passei a ir como programador do (Festival) Janela Internacional do Recife, que começou em 2008 e tem mostrado grandes filmes premiados nos maiores festivais.” Em 2016 e 19, Kleber integrou a seleção oficial e foi até premiado. “Em 2017, presidi o júri da Semana da Crítica e foi uma experiência fantástica.” Naquele ano, o prêmio principal da Semana foi atribuído ao documentário Makala, do francês Emmanuel Gras, que acompanha um trabalhador da República do Congo na dura atividade da extração de carvão, pela qual recebe quase nada. O júri de Kleber também premiou Gabriel e a Montanha, do brasileiro Fellipe Barbosa. 

São 22 anos de uma relação intensa. “Outros festivais também fazem parte da minha vida, mas Cannes, como experiência pessoal, profissional, é o mais marcante. Foi um lugar onde fiz muitos amigos e que me deu projeção.” A experiência em Berlim, no ano passado, também foi enriquecedora. “Não importa o tamanho do festival, a dinâmica dos júris é muito parecida. A gente conhece diretores, atores, roteiristas, figuras de diversas áreas do cinema. Por um período, vendo os mesmos filmes, compartilhamos a forma de ver o cinema, o mundo, a poesia. Admiro muito Hong Sang-soo. Foi muito bom integrar o júri que reconheceu o seu imenso talento”, no caso, pelo filme The Woman Who Ran

E agora – Spike Lee? “Significa muito integrar esse júri presidido por ele. Sigo o Spike Lee desde Faça a Coisa Certa, que completa 32 anos. Vi o filme numa cópia em VHS e foi uma descoberta decisiva. Quando fiz O Som ao Redor, se tinha um filme na cabeça era o Faça a Coisa Certa. Não pensava em refazer o filme do Spike Lee, nem conseguiria. Queria fazer o meu filme, mas ele foi uma referência e agora saber que vou ficar próximo dele durante 12 dias me deixa muito empolgado.” Serão 24 filmes na competição, pelo menos três deles dirigidos por autores que já receberam a Palma de Ouro – Apichatpong Weerasethakul, Nanni Moretti e Jacques Audiard. A expectativa – do próprio Kleber – é imensa. 

Uma grande emoção? “A primeira vez em Cannes foi impactante, inesquecível. Foi o ano de Uma História Real, de David Lynch. Mas as maiores emoções foram o protesto no tapete vermelho, no ano de Aquarius (2016). Foi ali que começou todo o desastre que o Brasil tem vivido. Marcou toda equipe. A reação à exibição de Bacurau também foi especial. É um filme peculiar e o público embarcou com a gente. Foi mágico.”

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