"King Kong", desde 1933, um sucesso garantido

Os cabelos desgrenhados, a barba generosa e a simplicidade de Peter Jackson não correspondem à imagem mítica que se faz do cineasta mais poderoso de Hollywood. Mas as recentes conquistas do neozelandês não deixam dúvidas e até revelam uma tendência megalomaníaca. Responsável pela trilogia O Senhor dos Anéis, que levou 17 Oscars e arrecadou US$ 2,9 bilhões, o diretor acaba de gastar US$ 207 milhões para ressuscitar o gorila mais famoso do cinema.Sua refilmagem de King Kong, clássico de 1933, já lhe rendeu uma indicação para o Globo de Ouro de melhor diretor e figura como a sexta produção mais cara de todos os tempos, segundo a revista Forbes. E o salário de Jackson foi igualmente colossal: US$ 20 milhões (mais 20% de participação na bilheteria). ?Se não conseguir realizar mais nada tão grandioso, talvez a solução seja a aposentadoria?, brincou o cineasta de 44 anos, fala rápida e uma devoção contagiante pelos filmes que faz. Atualmente ninguém da indústria ousa contrariar o homem que jogou Steven Spielberg para o segundo lugar na tradicional lista dos todo-poderosos da revista Première. Os executivos da Universal Studios nem reclamaram das três horas de duração de King Kong, que estréia hoje nos EUA e amanhã no Brasil, com 650 cópias - o maior lançamento da história da UIP no País. ?Se me pedissem para cortar, não saberia como. Este é o filme com o qual sempre sonhei?, disse ele, em coletiva concorrida no hotel Regency, de Nova York, horas antes da première mundial que atraiu cerca de 8 mil pessoas a Times Square. Apesar da aparência cansada, pois o filme só havia sido concluído dias antes, Jackson ganhou um brilho nos olhos ao falar do aguardado remake, a realização de um sonho de infância.De tão consumido pelo projeto, rodado em sua terra natal, Jackson emagreceu 32 quilos. ?O filme foi uma maratona.? A pré-produção de King Kong começou um dia depois da consagração de O Retorno do Rei na entrega do Oscar no ano passado - quando Jackson saiu do Kodak Theater carregando três estatuetas (de melhor diretor, filme e roteiro adaptado). Desde 1996, o cineasta tentava recontar a história do gorila que se apaixona por uma loira, é capturado numa ilha remota e levado para Nova York, onde ganha um destino trágico no topo do Empire State Building. Mas a Universal engavetou o projeto, quando outros estúdios anunciaram as refilmagens de Godzilla (Sony) e Poderoso Joe (Disney), com monstros e tramas similares. ?Convivi tantos anos com as imagens de Kong na cabeça que não perdi tempo quando tive carta branca para fazer o que quisesse.?Fascínio por King KongFascinado desde os 9 anos pelo macaco imortalizado nas telas por Merian C. Cooper e Ernest B. Shoedsack, Jackson recorreu ao que há de mais moderno no universo da computação gráfica para recriar com realismo e perfeição o primata de quase 8 metros de altura e 3,6 toneladas. Contratou 450 especialistas para essa extravagância visual, que soma 1.600 efeitos especiais. ?Não me perdoaria se falhasse na representação realista de King Kong.? Jackson até escalou Andy Serkins para criar as expressões do protagonista - a exemplo do que o ator fez com Gollum, em O Senhor dos Anéis. Após estudar a linguagem corporal dos gorilas, inclusive a do famoso albino Floco de Neve (ex-atração no zoológico de Barcelona), o ator criou a base para a performance digital. E um software especial traduziu as expressões humanas na musculatura e estrutura facial de um macaco, humanizando-o. ?São essas emoções que ajudam a criatura a despertar empatia. Mas procurei não carregar nas cores, já que Kong não tem valores, agindo apenas por instintos. Tem de passar a idéia de perigo e bestialidade.?A obsessão pelo macaco gigante nasceu numa noite de sexta-feira, quando o menino Jackson assistiu pela primeira vez ao clássico em preto-e-branco exibido na TV, na cidadezinha de Pukerua Bay, na costa oeste da Nova Zelândia. ?É uma obra-prima do escapismo. Há tudo o que um garoto pode querer: aventura, mistério, gorilas enfrentando dinossauros e até sacrifícios.? De tão impressionado, ele decidiu naquele dia mesmo que seguiria a carreira de diretor. Na primeira tentativa de refilmar King Kong, Jackson tinha apenas 12 anos, quando tomou emprestado a câmera de Super 8 dos pais, usada para registrar as festinhas da família. O Empire State Building foi construído com cartolina, a pele do gorila veio de uma estola da mãe e o cenário de Nova York foi pintado num lençol e grudado na parede. ?Até hoje guardo esses adereços.?Sua profunda admiração pelo clássico, um fenômeno de bilheteria que evitou a falência dos estúdios RKO, ajudou Jackson a manter os pés do chão. Pelo menos na hora de avaliar a sua contribuição na história de Kong, um ícone cinematográfico. ?Nunca almejei melhorar o original, sempre insuperável. Foi a tecnologia atual que me permitiu fazer mais pela imagem do gorila.? Ele reviu o clássico duas semanas antes do lançamento da sua versão. ?É curioso como o processo de refilmagem não mudou a minha percepção. Fui capaz de me desligar, sendo envolvido emocionalmente como um mero cinéfilo. ?É justamente esse sentimento que o diretor espera despertar na nova geração de espectadores. Por ser uma paródia, ambientada na América contemporânea, Jackson não gosta da refilmagem de 1976, assinada por John Guillermin e estrelada por Jessica Lange - numa performance mais ousada, acentuando a dinâmica sexual entre a bela e a fera. Sua abordagem foi de total reverência, mantendo a ambientação nos anos 30, a essência trágica e denunciando um velho e perverso hábito do ser humano, ?o de explorar, degradar e capitalizar sobre tudo o que nos cerca?. Só isso explica, segundo o cineasta, o fato de ?existirem atualmente apenas 706 gorilas selvagens nas montanhas, num mundo de 6 bilhões de pessoas?.

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