Kiko Goifman exibe trecho de novo documentário

O documentário de Kiko Goifman, Atos dos Homens, exibido no Festival de Locarno na última segunda-feira, é inédito no Brasil porque ainda está em realização e tem apenas 40 minutos. Mas mesmo assim foi exibido na mostra paralela Cineastas do Presente como Work in Progress, o que constitui praticamente uma exceção dentro do evento. Kiko tem o apoio de alemães e holandeses, um financiamento obtido pelo produtor brasileiro Paulo Roberto de Carvalho, da Cachoeira Films e diretor do festival de cinema latino-americano de Tuebingen, na Alemanha. A idéia inicial de filmar sobreviventes de massacres no Brasil foi modificada para documentar familiares e sobreviventes do massacre do 31 de julho deste ano na Baixada Fluminense.Logo depois de mostrar seu copião de 40 minutos na sala de projeções vídeos, Kiko Goifman, já conhecido de Locarno por seus outros documentários e vídeos, concedeu a seguinte entrevista.Como surgiu essa oportunidade de exibir aqui em Locarno um filme ainda não terminado? Foi um convite do Festival e em especial de Tiziana Finzi, de Cineastas do Presente, para mostrar e discutir com o público, assim como fazer contatos com distribuidores, sendo um filme ainda próximo da metade e ainda alguns meses antes de ser concluído. Senti-me bastante honrado com isso, porque esse tipo de procedimento é comum em pequenos festivais, mas raro num festival do tamanho e importância de Locarno. E isso não elimina que, depois de pronto, o filme poderá ser mostrado em outros festivais. Essa é a razão pela qual às vezes a tela fica em branco ou preto, ouvindo-se só as vozes dos entrevistados? Não, talvez fique assim, mesmo depois de terminado. Fiz alguns testes de montagem, nos quais eu colocava imagens, só que ao tomar cuidados para não mostrar parentes das vítimas da chacina e com um dos autores da chacina, usei tela em branco e em preto respectivamente, e acabei achando melhor sem imagem. Por isso, pode acontecer - se eu achar que é o melhor - que eu acabe tomando uma decisão nada convencional, guardando a tela sem imagens, para as pessoas se concentrarem só no som. Os produtores me dão total liberdade para isso.Quando surgiu a idéia desse documentário ? Ele começou a ser produzido no final do ano passado, quando ganhei um prêmio da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo para realizar um filme com sete pessoas sobreviventes de massacres no Brasil. Eu iria procurar sete sobreviventes de massacres como o de Eldorado Carajás, Vigário Geral, Clínica Santa Genoveva. Porém, depois de definido o cronograma de filmagens, aconteceu a chacina do 31 de março, com 29 pessoas assassinadas na região da Baixada Fluminense. Depois de uma semana, escrevi uma carta aos financiadores dizendo que a realidade tinha sido mais importante que o filme programado e me obrigava a mudar de cronograma.O filme é inédito no Brasil? Completamente. Só mostrei por ter sido um convite irrecusável de Locarno com o apoio da Fundação Príncipe Klaus da Holanda e Fundo Mundial de Cinema do Festival de Berlim. Isso garante um destaque para esse documentário mesmo porque essa chacina teve pouco noticiário fora do Brasil. No dia 31 de março, um grupo de policiais saiu pelas ruas de Nova Iguaçu e Queimados e matou 29 pessoas inocentes em diversos lugares da cidade. Uns dizem que estavam bêbados, outros que foi uma forma de resistência à mudança de comando na polícia, pois o novo comandante queria moralizar e acabar com os grupos de exterminadores.Seu filme diz que estão presos os autores, acha que haverá realmente justiça? Eu e a população local achamos que haverá justiça, mesmo que nossa justiça seja muito lenta e muitos crimes ficam impunes. Correu ou corre riscos por esse filme? Acho que corro riscos. Durante a filmagem nem eu e nem minha equipe corremos riscos ou houve pressões, porém podem ocorrer riscos, porém esse é o meu trabalho. E não é o primeiro trabalho relacionado com a violência. Obviamente, tenho medo e procuro tomar cuidados. Mas acho que meu trabalho pode ter sua importância.Tem outros projetos? Tenho um projeto de ficção longa-metragem, com o título de Filmefobia. Mas, no momento, meu grande projeto é terminar este filme. Como os outros, esse vídeo vai ser transformado em celulóide. Um documentário feito em 35mm acaba saindo mais caro que o feito inicialmente em digital.

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