Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Estadão Digital
Apenas R$99,90/ano
APENAS R$99,90/ANO APROVEITE
Laurent Churin Nal/ MK2/Divulgação
Laurent Churin Nal/ MK2/Divulgação

Kiarostami, entre o real e a dúvida

'Cópia Fiel' nasceu de uma história falsa que ele contou a Juliette Binoche

Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo,

18 de março de 2011 | 06h00

São estranhos - Juliette Binoche e o escritor, interpretado pelo barítono William Shimell, que se conhecem quando ela assiste à leitura que ele faz de um trecho de seu novo livro, sobre a relação entre cópia e original. Estamos falando de obras de arte. Os dois caem na estrada, numa das mais belas regiões do mundo - a Toscana, cenário de grandes filmes de Bernardo Bertolucci e dos irmãos Taviani. Tomam café, jantam, visitam um hotel. De repente, ela pergunta ao homem se ele se lembra do hotel em que passaram a lua de mel? São casados?

A dúvida persiste em Cópia Fiel, o novo Abbas Kiarostami, que estreia hoje nos cinemas brasileiros, depois de integrar a Mostra passada. O autor não se preocupa em esclarecer a natureza da relação entre Juliette e Shimell. Em Cannes, 2010, pressionado por jornalistas dos EUA, Kiarostami chegou a ironizar. Disse que era ‘irrelevante’ saber se Juliette e Shimell são casados (ou não). E ele chegou a acrescentar, com alguma malícia - "É o menor dos problemas que o público deve experimentar assistindo ao filme".

Mas, se este é o menor, qual é o maior? A essa pergunta, Kiarostami nem responde. Para fruir Cópia Fiel, o espectador tem de se fazer coautor, formular ele próprio as explicações. O filme de Kiarostami pode não ser o melhor do ano, até agora - afinal de contas, Poesia, do sul-coreano Lee Chang-dong, já jogou as expectativas de 2011 lá no alto -, mas é certamente mais um capítulo intrigante da obra de um artista que, nos últimos anos, tem investigado a linguagem como as relações entre as pessoas.

Pela articulação desses dois elementos - a linguagem e o estar do homem no mundo -, Kiarostami tem conseguido dar seu testemunho sobre o Irã dos aiatolás. O caso de Cópia Fiel virou um pouco particular. Kiarostami filmou na Itália, sem relação aparente com os problemas de seu país de origem. Ele se vale do seu prestígio internacional - como ‘autor - para seguir filmando, num momento em que as condições, sob o regime de Mahmoud Ahmadinejad, se tornam cada vez mais duras. O próximo Kiarostami será feito no Japão, ou seria. Dadas as condições atuais do país devastado pela tragédia combinada do terremoto mais tsunami mais ameaça nuclear, é pouco provável que Kiarostami consiga manter o cronograma de produção.

trailer Veja trecho de Cópia Fiel

 

E o fato de ele não filmar no Irã não significa que esteja a salvo das graves questões que ocorrem no país. Kiarostami, está neste momento, em Teerã. Só fala farsi (seu inglês é ‘limitado’, como diz). Sua tradutora, com quem gosta de trabalhar, mora em Paris, o que dificulta o contato. Desde Cannes, no ano passado, Kiarostami tem se manifestado em defesa de Jafar Panahi. Desde o ano passado, Panahi foi condenado e privado de seus direitos, o que motivou uma homenagem no Festival de Berlim deste ano e uma corrente internacional de solidariedade (e protesto). Na coletiva de Cópia Fiel, em maio passado, Juliette Binoche já chorara por Panahi. Suas lágrimas correram mundo. "Foi um gesto humanitário, não político", esclareceu a atriz.

Ao Estado, ela explicou que a origem de Cópia Fiel está numa história que Kiarostami lhe contou, no Irã, que ela visitou, a convite dele. A história, cada vez mais complicada e emocionante, deixou Juliette com o coração na mão. Quando ela cobrou de Kiarostami o desfecho, ele lhe confessou rindo que era tudo invenção, tudo mentira. A origem do filme foi essa, mas Kiarostami incorporou a história de outro célebre casal cinematográfico - o protagonizado por Ingrid Bergman e George Sanders em Viagem na Itália, de Roberto Rossellini. Cópia e original, verdade e mentira. Kiarostami reinventa sua linguagem e, ao fazê-lo, pouco importa se o casal é casado, ou não. A essência da discussão sobre as relações afetivas, essa sim, é verdadeira.

 

Tudo o que sabemos sobre:
cinemacinema iranianoestreia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.