Kevin Spacey suspende o sarcasmo

Kevin Spacey costuma seduzir o espectador graças ao tom deliciosamente cínico que ele empresta aos tipos que vive no cinema. Sejam os desajustados, os perversos, os perdedores ou os moralmente ambíguos. "Freqüentemente sou acusado de interpretar o cara mais mais esperto do filme", disse o ator de 43 anos, que abriu mão da característica ironia ao abraçar o novo personagem. Na pele de Quoyle, protagonista de Chegadas e Partidas (em cartaz no Brasil, exceto no Rio, desde o último dia 20), o astro encarna um homem incapaz de dar uma resposta afiada ou fazer uma piadinha."Quoyle é o sujeito mais medroso e patético que já fiz", afirmou o ator, referindo-se ao personagem inspirado no livro homônimo ganhador do prêmio Pulitzer, da escritora E. Annie Proulx. Carente de auto-estima e de ambição, o pobre Quoyle ainda vai parar no meio do nada - na inóspita ilha de Newfoundland, no Canadá -, onde acaba descobrindo vocação para o jornalismo. "Sempre que interpreto o personagem central sinto a responsabilidade de conduzir a narrativa. Mas Quoyle é tão passivo que tive de aceitar que somente o diretor (o sueco Lasse Hallström) daria o tom ao filme", contou Spacey, indicado pela performance ao último Globo de Ouro de melhor de ator dramático. "Não sei como explicar isso. Eu me senti quase um inútil no set", disse, irônico.Premiado pela Academia de Hollywood como coadjuvante por Os Suspeitos (1995) e como melhor ator por Beleza Americana (1999), Spacey mantém o sarcasmo até na hora de responder onde guarda as estatuetas do Oscar. "Na minha casa", resumiu. Na entrevista, concedida à Agência Estado, em Los Angeles, o ator ainda deu detalhes divertidos sobre sua vida pessoal. "Meu maior talento só é aproveitado quando vou às compras. Ao pisar em loja de departamento, percebo na hora se há algo que me interessa naquele andar. Não perco tempo." Ainda comentou a sua mais recente aventura. "Diferentemente de Quoyle, eu prefiro enfrentar as minhas fobias. Como tinha pânico de altura, pulei de pára-quedas. Foi ótimo espantar esse fantasma."Qual a maior dificuldade ao interpretar Quoyle? Abrir mão do cinismo, sua marca registrada?Não. O mais difícil foi retratar um homem sem objetivos. Normalmente eu começo a traçar o perfil do personagem me perguntando o que ele quer da vida. Mas Quoyle, assim como muitas pessoas, está apenas tentando sobreviver. Talvez essa seja a qualidade mais atraente do personagem, por mais estranho que isso possa parecer. O cinema geralmente exagera, mostrando pessoas destemidas e fortes demais. Na vida real não é sempre assim. Foi justamente essa abordagem mais realista que tornou o livro tão popular. Quoyle é um homem comum.Como trabalhou fisicamente o personagem, a ponto de parecer mais velho sem precisar de maquiagem?No romance de Proulx, que serviu como ponto de partida para a minha composição, a escritora descreve o personagem como um homem pesado. Como eu só tive uma semana entre um filme que acabava de fazer e Chegadas e Partidas, não tive tempo suficiente para ganhar peso. Engordei menos de 10 quilos ao longo da filmagem. Então a solução foi tentar expressar o peso que Quoyle carregava internamente. E não apenas na parte exterior.Como foi a filmagem em local tão impróprio para ser habitado, como a ilha de Newfoundland?Não é por acaso que Judi Dench diz no filme: "Esqueça tudo o que você sabe sobre meteorologia." O tempo era tão imprevisível que a equipe nunca sabia o que faríamos no dia seguinte. Havia umas dez programações possíveis. Tínhamos um plano de filmagem caso o dia amanhecesse chovendo. Outro, se o dia estivesse ensolarado. Outro para tempestade, neblina etc. Por conta disso, eu nunca sabia as falas da minha cena. Não dava para decorar tudo ao mesmo tempo.Assim como Quoyle, que acumula subempregos, exerceu trabalhos tediosos antes de se tornar ator?Fui vendedor de sapatos e vendi assinatura de TV a cabo batendo de porta em porta nos subúrbios de Los Angeles. Foram anos muito pouco inspiradores.Foi nessa época que você conheceu Jack Lemmon, que mais tarde se tornaria seu mentor?Não. Eu o conheci muito antes, aos 13 anos, quando já pertencia a um de grupo de teatro em Los Angeles. Um dia fui ver uma peça de Jack e, ao final, tive coragem de pedir um autógrafo, que tenho até hoje. Contei-lhe que queria ser ator e ele me aconselhou a estudar teatro seriamente. Disse que eu não poderia deixar ninguém me persuadir do contrário. O mais curioso foi reencontrá-lo na Broadway, 11 anos depois, quando eu fazia um teste para ser o seu filho na peça Longa Jornada Noite Adentro. Foi o máximo. Aos 24 anos, eu tive o privilégio de contracenar todos os dias com o meu ídolo por mais de um ano.Depois de "Ciladas da Sorte", seu début como cineasta, voltará à direção?Sim. Adorei a experiência de dar a minha visão à história e de trabalhar com atores mais intimimamente. Já tenho um novo projeto de direção, mas ainda não quero divulgá-lo. Trata-se de uma história verídica que levarei às telas possivelmente em 2003.Por que priva o grande público de seu talento como cantor (Spacey canta apenas para amigos)?Eu gosto de cantar e, por sorte, encontro gente disposta a me ouvir (risos). Já tive propostas para gravar discos, mas nunca aceitei. Como não penso em me dedicar à musica profissionalmente, bancar o cantor seria puro oportunismo. Não gostaria de ouvir as pessoas dizerem: "Então ele não está satisfeito com o que já tem?". Jamais me aproveitaria do meu status de ator para tirar o espaço de quem ganha a vida cantando. Se algum dia encontrar um personagem cantor, talvez explore essa minha faceta no cinema.E suas impagáveis imitações de Michael Caine e Al Pacino? Também são reservadas a poucos espectadores?Sim. Mas se quiser posso fazer uma imitação do ator Rhys Ivans (com quem ele contracena em Chegadas e Partidas) no bar ontem à noite. (Spacey debruça sobre a mesa e finge dormir, encerrando a entrevista).

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.