Kevin Costner resgata a grandeza do western

Clint Eastwood não faria melhor. No ano do centenário do western - que se comemora tomando como referência a estréia de The Great Train Robbery, de Edwin S. Porter, em dezembro de 1903 -, não foi o xerife Clint quem homenageou o gênero de sua preferência. A homenagem veio de alguém cuja carreira andava em baixa. A paixão do western é tão forte que ressuscitou Kevin Costner. Pacto de Justiça, que estréia hoje, mostra que o ator e diretor ainda é capaz de surpreender, no bom sentido. Após uma década de fracassos - iniciada em 1993, com Waterworld - O Segredo das Águas -, Costner havia virado persona non grata em Hollywood. A rigor, continua sendo, pois Pacto de Justiça não obteve míseros 10% da atenção que mereceria. Não entre nesta de celebrar a mistificação. Entre S.W.A.T., que estréia hoje num amplo circuito, e o western de Costner, que também estréia hoje, mas num circuito menor, é o segundo que vale privilegiar.Em 1990, no apogeu de sua carreira, Costner ganhou os Oscars de melhor filme e direção por seu longa de estréia, Dança com Lobos. Em 1997, em fase de maré baixa, foi ao fundo do poço com o patriótico (e horrível) O Mensageiro. Com Pacto de Justiça, volta ao western e mostra imagens como você nunca viu, em um século do gênero. O Oeste de Pacto de Justiça de novo é um lugar de selvageria ímpar, um país de sicários que se escondem por trás de máscaras para matar. Costner é patriota, mas não burro. Sabe que a América foi construída, a ferro e fogo, pelo puritanismo religioso de protestantes anglo-saxões. Não é à toa que, até hoje, é uma sociedade que só consegue resolver seus conflitos por meio da violência.O próprio Costner e Robert Duvall interpretam os amigos que fazem o pacto de justiça. Duvall, que se chama Boss (patrão), é um criador itinerante de gado. Costner o acompanha nas suas andanças há dez anos. Chama-se Charley Waite (de Postlewaite). E o grupo se completa com um garoto e um brutamontes de bom coração. São quatro e logo um está morto, o outro gravemente ferido e os dois restantes empunham a pistola. Costner filma um mundo em processo de transformação. Seus pistoleiros são crepusculares, cansados da vida errante, mas inseguros quanto à possibilidade de criar raízes. A natureza humana é sombria, como em Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood. E a leitura "ideológica" deste mundo é tão crítica quanto a de Michael Cimino em O Portal do Paraíso.Talvez o aspecto mais terrível de Pacto de Justiça esteja no som. Há exatamente 50 anos, quando fez Os Brutos também Amam (Shane), tentando construir uma espécie de súmula da mitologia do western, George Stevens quis realçar a força destrutiva das armas de fogo na construção da nação. Stevens fez todo um tratamento do som na cena em que Wilson, o pistoleiro interpretado por Jack Palance, mata Stonewall, um pequeno fazendeiro, inofensivo nas suas bravatas. Elisha Cook Jr. era o ator e o seu rosto é daqueles que um espectador carrega para sempre. Ao mesmo tempo em que o tiro de festim era disparado no filme - metaforicamente, à queima-roupa -, Stevens fez com que no vale soasse um tiro de canhão, para dar prolongamento (e intensidade) ao primeiro. Quando Waite dispara, o som é assustador em Pacto de Justiça. Inconscientemente, você se lembra de Tiros em Columbine, de Michael Moore. Ou então de Albert Camus - os tiros desferidos pelo estrangeiro Mersault, soando na eternidade, como diz o escritor.A causa é legítima. Os heróis combatem o autoritarismo e o direito à liberdade. Terminam ganhando apoio dos cidadãos. Mas Waite, que possui um passado de justiceiro, tem de ser barrado por Boss, quando, cego pelo ódio, está prestes a se tornar um celerado como aqueles que caça. Ele próprio percebe que transgrediu a linha civilizatória. Tenta apartar-se da mulher, mas ela lhe diz a frase que o regenera - "Não tenho medo de você." É o que faz a riqueza de Pacto de Justiça. É um filme desmistificador, que fecha o ciclo daquela América dos pioneiros que Costner filmou em Dança com Lobos. Os valores ensolarados da existência que ele celebrava lá, tornam-se aqui sombrios, banhados numa atmosfera de tragédia que não inibe nos homens e nas mulheres o desejo de reconstruir-se (e de dar certo).E o filme é de amor, como raros westerns ousam ser. É também sobre o tempo. No começo, o tempo é de espera. Os animais - o cachorro, os cavalos -, os homens, todos esperam. Após a tormenta, solucionado o drama, a câmera volta-se para o céu, em busca de redenção. É despropositado, buscar na visão de Costner, qualquer aproximação daquilo que ele filma com a Guerra do Iraque, por exemplo. Sua visão é de patriota. Ele defende os grandes princípios da América - livre iniciativa, o direito à liberdade. Mas seu filme é contra as cercas de arame farpado (como o velho Homem sem Rumo, de King Vidor, com Kirk Douglas, de 1955). Se ele está contra alguma coisa é justamente contra essa concentração capitalista, misto de dinheiro e poder, que Ronald Reagan iniciou como um projeto neoliberal consolidado na era da globalização de George W. Bush. Até nisso, Pacto de Justiça revela sua grandeza. É um belíssimo filme. Seu mérito e também seu limite talvez seja justamente esse - está na contracorrente da América atual. O mérito é evidente. A fraqueza é que o filme poderá ter menos exposição por isso. Se ocorrer, como já está ocorrendo, será um crime.

Agencia Estado,

28 de novembro de 2003 | 10h44

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