Bridget Bennett/The New York Times
Bridget Bennett/The New York Times

Kenny Ortega fala da nova versão da série brasileira 'Julie e os Fantasmas' que estreia na Netflix

Ator, depois coreógrafo, diretor e produtor, Ortega, hoje com 70 anos de idade, dirigiu os três filmes 'High School Musical' e os três 'Descendentes' da Disney e lança agora a série 'Julie and the Phantoms' na Netflix

Alexis Soloski, The New York Times

11 de setembro de 2020 | 10h00

Quando você é um adolescente e vai fazer um teste para Kenny Ortega, e ele o recebe na sala com seu chapéu panamá, sua equipe e seu sorriso mais branco do que o branco, isto é o que ele procura ver: “o potencial, o desejo, o entusiasmo”, disse.

Ator, depois coreógrafo, diretor e produtor, Ortega, hoje com 70 anos de idade, tem um instinto sem igual para detectar talentos jovens e dar-lhes um brilho ofuscante na tela. 



Para a Disney, ele dirigiu todos os três filmes High School Musical e todos os três Descendentes. Como um telescópio Hubble, ele consegue ver as estrelas antes de nós. E mesmo diante dos dragões gerados por computadores e o Auto-Tune, ele extrai atuações dos jovens atores que parecem reais.

Ortega não tem filhos. “Tenho afilhados, sobrinhos e sobrinhas em abundância”. Mas ele tem uma rara habilidade de ver os jovens como eles querem ser vistos e adivinhar o que querem assistir.

Seu mais recente projeto, Julie and the Phantoms, é uma nova versão da série brasileira Julie e os Fantasmas, exibida pela Band e o canal Nickelodeon em 2011, e lançada pela Netflix na quinta-feira, 10. Julie, aluna da escola secundária de luto pela morte da mãe, perdeu seu amor pela música. Então, três garotos adoráveis mortos se materializam no estúdio dela nos fundos da sua casa. Membros de uma banda pop-grunge que morreram em meados dos anos 1990, esses fantasmas a ajudam a voltar a cantar novamente.

O anúncio convocando atrizes para testes para o papel principal gerou centenas de candidaturas. Ortega se fixou em apenas uma, Madison Reyes, de 15 anos, que toca piano e vive em Allentown, Pensilvânia, que havia apresentado uma gravação precária das suas habilidades e sem nenhum crédito profissional.

Por que ele se decidiu por ela? "É uma promessa”, disse Ortega, que é o produtor executivo e diretor da série. “Ela promete e eu percebi isto”.

Madison Reyes, agora com 16 anos, cresceu com adesivos do High School Musical colados na sua boneca Barbie, e achava que ficaria nervosa no primeiro encontro com Ortega. Mas não. “Ele não pergunta muito, mas quer saber o que você faz e o melhor que você consegue”, disse ela numa entrevista pelo Zoom.


 


Neto de imigrantes espanhóis, Ortega cresceu em Palo Alto, Califórnia, cercado de música. “Flamengo, música latina, R&B, gospel, rock’n’roll", disse ele numa entrevista no mês passado. “A música era tudo e também o movimento que surgiu com ela”.

Ainda criança ele sabia que era gay e não gostava de falar a respeito, e sua vida se tornou uma representação rotineira desconfortável. “Fingir que você é outra pessoa para se ajustar ao meio foi difícil e trágico”, afirmou.

Assim, ele buscou outras formas de se expressar. Ainda adolescente começou a trabalhar como ator, participando de turnês de musicais como Oliver!, depois com Hair:The American Tribal Love-Rock.

Descoberto num clube de dança pela banda The Tubes, de San Francisco, ele começou a coreografar as apresentações atrozes no palco do grupo. Cher depois o chamou, como também Rod Stewart e a banda Kiss. Em 1980, foi contratado para coreografar o filme Xanadu. No set, Gene Kelly, um dos astros do filme, colocou-o sob suas asas e lhe mostrou como dançar para a câmera, não para o palco. O que Ortega aprendeu rápido.

A sequência de Twist and Shout, de Ferris Bueller’s Fay Off foi de Ortega. Como também em Try a Little Tenderness de Pretty in Pink e I’ve Had the Time of My Life, de Dirty Dancing.

No início da década de 1990, Jeffrey Katzenberg, da Disney, ofereceu a ele uma chance de dirigir seu primeiro filme, um musical sobre os novos jovens da virada do século 20.

Newsies [Extra! Extra!] foi um fracasso. Depois veio Hocus Pocus, outro fracasso. Ortega se recuperou por si mesmo, dirigindo episódios de TV, coreografando o world tour Michael Jackson History e orquestrando números para o Super Bowl, para a cerimônia do Oscar e para uma Olimpíada de Inverno que ganhou um Emmy.

Em 2006 a Disney lhe ofereceu um filme de TV com um pequeno orçamento, High School Musical. “Foi um estupendo sucesso que, junto com Moulin Rouge e Glee foi parte de uma renascença dos musicais na tela. “Despertamos um público que estava faminto de histórias embaladas por música”, disse Ortega. Vieram outros filmes, depois os álbuns, as turnês e eventos que impulsionam as modernas franquias. Em 2019, ele foi contemplado com uma estrela no Hall da Fama em Hollywood e assinou um contrato com a Netflix.



Ortega, que usava um cabelo no estilo de Jesus, cortou-o há décadas, e na entrevista no Zoom, com sua camiseta preta, óculos e um sorriso constante, ele pareceu tranquilo. Uma corrente no pescoço, presente da sua mãe, Madeline, que morreu um mês antes, depois de mudar para um asilo de idosos em Los Angeles.

Ele sorriu - doce e tristemente - quando falou da mãe. “Ela foi minha primeira parceira de dança e eu fui seu último parceiro”, disse ele.

Durante os testes de atores, ele não procura necessariamente grandes dançarinos, mas pessoas com quem pode dançar. Não tem nada contra uma bela voz ou crianças que tocam as teclas de piano como Rachmaninoff. Mas qualquer pessoa consegue ver habilidades desse tipo. Ortega vai mais longe: quem são jovens atores e no que - com fé, impulso e uma boa luz - poderão se tornar.

Ortega procura deixar essas sessões de testes divertidas. Porque ele lembra, muito bem, o que foi ser jovem e ser esnobado ou julgado de modo errôneo. “Sei o que havia dentro de mim e achava que era uma pessoa especial. E às vezes entrava numa sala e sentia como se ninguém notasse minha presença. Não olhavam muito ou não davam tempo para eu me relaxar nem espaço onde eu me abriria e revelaria minhas cores”.

Reyes lembrou que antes do seu primeiro teste, Ortega telefonou a ela e para seu pai para deixá-los mais seguros. “Foi uma interação muito simpática. Ele se preocupava com minha segurança e queria me deixar tranquila”.

Charlie Gillespie, o ator de Julie and the Phantoms que interpreta Luke, o guitarrista da banda e potencial interesse amoroso dela, lembrou como Ortega sempre insistiu na importância de aquecer as cordas vocais. “Ele se preocupa com a sua voz. E se preocupa com o que você vai fazer no futuro. Ele cuida muita de você”, disse Charlie.

Quando Ortega seleciona os seus atores adolescentes, dá a eles muito tempo de ensaio para se familiarizarem com a música e a dança. Julie and the Phantoms começou com uma semana de acampamento musical para que os músicos-atores, como Reyes, Gillespie, Jeremy Shada no baixo, Owen Joyner na bateria, pudessem gravar no primeiro dia já se sentindo como uma banda de verdade. E os incentivou a comporem suas próprias músicas e incluiu uma canção no Episódio 7 que Reyes e Gillespie compuseram.

Ortega diz que seus atores são seus colaboradores, seus parceiros em criatividade e sempre pede para darem ideias - sobre detalhes dos personagens, colocação da câmera, etc. Mas espera deles um comprometimento total e sabe como extrair deles um trabalho duro, mais como um animador de grupo do que um sargento.

“Ele realmente, de uma maneira positiva, o incita a ir além do que você acha que consegue”, disse Corbin Bleu, veterano dos filmes High School Musical.

Mas Ortega procura também preparar os atores e suas famílias para o que a repentina fama traz. “Você tem de proteger a infância do seu filho e não deixar que a celebridade e a loucura que vem com ela interrompam a possibilidade de ele ter uma vida real”. 

A pandemia significa que, no caso de Julie and the Phantoms, a loucura e os esperados eventos ao vivo foram adiados. Mas ele ainda mantém contato com os parceiros do show. “Ele sempre envia mensagens de texto”, disse Reyes. “Pergunta se estou ok, se está tudo bem. Se preciso de alguma ajuda”.

Ortega disse que contata todos seus antigos atores, mas não diariamente. “São todos meus filhos”, afirmou.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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