LOIC VENANCE|AFP
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Ken Loach surpreende ao levar a Palma de Ouro em Cannes

A exclusão do elogiado filme brasileiro 'Aquarius', de Kleber Mendonça Filho, na premiação do festival francês, foi injusta

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 20h04

CANNES - Na entrada do Palais, a caminho da premiação, o presidente George Miller e integrantes de seu júri deram entrevistas à TV do festival. Miller citou duas palavras – rigor e alegria. Quis dizer que as escolhas de seu júri foram rigorosas e que ele estava feliz com o resultado. Mads Mikkelsen, um dos jurados, acrescentou que haviam sido “belas escolhas”. Nem todas, é verdade. Os prêmios foram desfilando e nada dos favoritos dos críticos. No final, nem Elle, de Paul Verhoeven, nem Toni Erdmann, de Maren Ade – o campeão de Palma de Ouro no quadro de cotações. E a Palma de Ouro foi para... I, Daniel Blake, de Ken Loach. O anúncio deixou a sala de imprensa em choque, mas ninguém ousou vaiar. As vaias foram, principalmente, para o prêmio de direção, dividido entre o romeno Cristian Mungiu, de Bacalaureat, e o francês Olivier Assayas, por Personal Shopper.

Assayas é um grande diretor, mas esse, apesar da elegância dos movimentos de câmera, é seu filme que os críticos amam odiar. O caso do romeno talvez seja mais complicado. Bacalaureat é um ótimo filme, mas se era para premiar a direção, a do outro romeno, Cristi Puiu, de Sieranevada, era mais ousada, mais radical, mais tudo. Nem Elle nem Toni Erdmann. Nem Paterson, o maravilhoso filme de Jim Jarmusch, nem Aquarius, de Kleber Mendonça Filho. A exclusão do filme brasileiro foi injusta. O leitor pode até chiar, mas a reclamação não é patriotada. Aquarius teve ótimas críticas que autorizavam esperar pelo melhor. E, num ano de grandes criações femininas, Sonia Braga era melhor atriz até para o crítico do The Los Angeles Times.

O leitor deve se lembrar – no penúltimo dia do festival, chegou The Salesman/Le Client, do iraniano Asghar Farhadi, que deixou o repórter siderado. The Salesman também impressionou o júri, que lhe deu dois prêmios – melhor ator, para o extraordinário Shahab Hosseini, e melhor roteiro, para o próprio diretor. A melhor atriz foi a filipina Jaclin José, de Ma’ Rosa, de Brillante Mendoza. Na coletiva do júri, jornalistas do mundo todo tentaram desautorizar o prêmio. Um chegou a dizer que Jaclin é mera coadjuvante. Dois jurados, o diretor Arnaud Desplechin e o ator Donald Sutherland, reagiram como leões. Desplechin disse: “She broke my heart”, ela despedaçou meu coração. E Sutherland: “Não é porque os críticos dizem uma coisa que ela se torna verdadeira. Jaclin não é coadjuvante. É a protagonista da história. E uma grande atriz”.

O prêmio do júri foi para American Honey, de Andrea Arnold, e o Grand Prix para o quebecois Xavier Dolan, por Juste la Fin du Monde, adaptado da peça de Jean-Luc Lagarce.

O Grand Prix é o segundo prêmio em importância, após a Palma. Dolan chorou – já havia chorado, sabe-se lá por quê, quando o ator iraniano recebeu seu prêmio. Talvez porque Shahab Hosseini tenha dedicado o troféu ao pai, que morreu, ou ao povo iraniano. Juste la Fin du Monde é um filme sobre família, e morte. Nada autoriza crer que as lágrimas de Dolan tenham sido de crocodilo. Ele parecia genuinamente emocionado. 

Mas Dolan é outro que a crítica ama odiar. Jovem, bonito. Talentoso – 27 anos e seis filmes, todos selecionados para Cannes, e mais da metade premiados. Talvez o moleque realmente se ache, mas como não? Há dois anos, aqui mesmo em Cannes, outro júri lhe outorgou seu prêmio especial – dividido com ninguém menos que Jean-Luc Godard, o gênio, o mito, por Adeus à Linguagem. Mesmo correndo o risco de desagradar, é preciso dizer – Dolan também é uma espécie de gênio, por que não?

Kleber Mendonça, Pedro Almodóvar, Jim Jarmusch, Paul Verhoeven. Se os melhores filmes do festival não receberam nada, então o júri foi criminoso? Não – foi corajoso. Porque não é tarefa fácil premiar Ken Loach. Para muita gente, o velho militante (comunista?) é um anacronismo no mundo dito moderno. Mas a verdade é que I, Daniel Blake é um de seus melhores filmes. Dan é um trabalhador colhido num impasse. Com problemas de coração, o médico do sistema de saúde o impede de voltar ao trabalho, mas a assistente social diz que ele não tem nada. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Digamos que a vitória de Ken Loach realmente tenha sido uma surpresa. Na sala de imprensa, produziu um silêncio mortal. Ninguém se atreveu a vaiar. Porque I, Daniel Blake pode não ser o filme de nossos sonhos, mas é emocionante, é forte e íntegro.

 No limite, a ética foi o que esteve em discussão nos 12 dias do 69.º Festival de Cannes. E I, Daniel Blake é um filme profundamente ético. Loach e seu discurso esquerdista. Antiglobalização, anticapitalismo. De novo Cannes colocou no pódio o mais jovem diretor (Dolan) e o mais velho (Loach, 80 anos). Paula Gaitán, madrinha do novo cinema do Brasil, encontrou-se com o repórter e, comentando a premiação, foi incisiva. “O filme é emocionante, obra de um grande cineasta.” No seu agradecimento, Loach disse que Cannes é um espaço de resistência, e por isso mesmo tem de continuar existindo. Longa vida a Cannes! E, depois, como completou o diretor – a Palma para seu filme é a prova de que um outro mundo é possível.

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