Guillaume Horcajuelo/EFE
Guillaume Horcajuelo/EFE

Ken Loach põe a Europa em xeque e Andrew Dominik faz crítica aos EUA

Longas no Festival de Cannes apresentam duas visões de como encarar a grande crise

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2012 | 22h00

ENVIADO ESPECIAL / CANNES - São duas visões de como encarar a grande crise. Ken Loach responde com humor e humanidade - solidariedade? - que não parece ter muito respaldo no mundo ao redor do público que acaba de assistir a The Angels Share. Andrew Dominik reage com violência e um cinismo que não deixa de ser ferramenta para entender o mundo baseado no dinheiro, em Cogan - Killing Them Softly. E houve o novo Bernardo Bertolucci, Io e Te, que o próprio autor anunciou no ano passado que queria fazer em 3D, mas foi projetado em cópia plana. O mundo pode estar desabando, mas Bertolucci só se interessa por esse casal de jovens. Ele se isola, ela se droga, mas não deixam de ser, cada um à sua maneira, sonhadores.

Os personagens de Loach comparecem perante o juiz e, por diferentes motivos, são condenados a prestar serviço comunitário. Robbie, reincidente violento, está para ser pai. Ninguém lhe dá uma chance - só o agente encarregado de acompanhá-lo na pena e que percebe como o mundo é cruel com o garoto que só precisa de uma oportunidade. Uma vida humana não vale nada. Um galão raro de uísque vale 1 milhão de libras. Robbie seus amigos decidem roubá-lo. O que se perde, o que eles ganham, é a parte dos anjos (o título).

Cogan, o personagem de Brad Pitt em Killing Them Softly, é chamado para localizar e punir dois pequenos criminosos que estouraram uma boca de jogo clandestino. A caçada ocorre durante o processo eleitoral nos EUA. Barack Obama promete mudança, George Bush anuncia que vai reformar o sistema financeiro. Não havia nenhum dos dois no livro que o diretor Dominik adapta. Foi ele que quis fazer dessa história de crime um espelho da América. Obama, eleito, quer unir o país num projeto de nação. Mas a América, reflete Cogan, não é uma nação. É um negócio, business.

Loach filma com realismo, recriando na tela o mundo em que o espectador está imerso fora do cinema. Ninguém sabe fazer isso melhor que ele. Os jovens roubam, e daí, se o mundo é injusto? A suprema ironia é que o uísque mais caro do mundo é saboreado como regalo, mas... Espere pelo filme, para ver. Dominik carrega na violência, mas na coletiva, ele citou Bruno Bettleheim (a psicanálise dos contos de fadas) e até os irmãos Marx (o ego, superego e o id) para sustentar sua visão. A seleção de Killing mostra que o curador Thierry Fremaux talvez estivesse querendo criar o efeito Drive deste ano. O filme é bom, Brad Pitt é grande, mas um novato, Scoot Macnairy, é melhor que ele. A crítica norte-americana colocou Killing nas nuvens. Obra-prima.

Os italianos, pelo contrário, detestaram Bertolucci. Outro exagero - o filme pode não ser realmente novo, posto que Bertolucci já contou outras histórias de jovens como esses, mas a garota, Tea Falco, é um assombro. A cena em que ela canta, colada ao jovem, é um dos grandes momentos do festival. Aliás, como consequência do fenômeno O Artista no ano passado, a discussão deste ano não é sobre a Palma, quem tem chance de ganhar - Christian Mungiu? A conversa é sobre o Oscar de 2013. Quem tem potencial para atravessar o Atlântico? Marion Cotillard, de De Rouille et d’Os, já é dada como certa na indicação para atriz. Michael Haneke e seu Amor vão para o Oscar de filme estrangeiro. São apostas que o tempo poderá confirmar, ou não, mas, neste caso, não será por falta de qualidades (de uma e outro).

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