Ken Loach fala de futebol e política em Berlim

Os cineastas Ken Loach, Abbas Kiarostami e Ermanno Olmi dirigem os três episódios de Tickets, que integra a mostra competitiva do Festival de Berlim. Na segunda-feira, Loach deu uma divertida entrevista. As três histórias passam-se num trem italiano, rumo a Roma. Na primeira, de Olmi, um austero (e idoso) professor hesita em enviar um e-mail que, na verdade, é uma declaração de amor pela mulher mais jovem que conheceu brevemente e por quem se sente atraído. Na de Kiarostami, a viúva de um general inferniza a vida de seu acompanhante, um garoto com idade para ser seu neto, mas que não é. Na de Loach, três escoceses que vão assistir à final entre Celtans e Roma defrontam-se com a realidade dos refugiados. O episódio de Olmi é uma pequena obra-prima de rigor e contenção, com dois atores excepcionais (Carlo Dalle Piane e Valeria Bruni Tedeschi). O de Kiarostami desconcerta e talvez seja interessante simplesmente por mostrar o diretor iraniano de volta à filmagem com película, após anos de pesquisa com tecnologia digital. O de Loach é o melhor. Você já ouviu falar muitas vezes nos hooligans, os selvagens torcedores ingleses. Loach conta uma piada - que é mais do que isso - sobre como os torcedores, quase sempre identificados como alienados, terminam ajudando os refugiados.O futebol deu ontem o tom na Berlinale. À tarde, o delegado do comitê da Fifa encarregado de coordenar a Copa do Mundo de 2006, que não é outro senão o jogador Franz Beckenbauer, veio falar sobre a integração entre esporte e cinema e de como ela pode construir um mundo melhor. Beckenbauer atraiu muito mais atenção do que Yamada-sensei. O velho mestre do cinema japonês, Yoji Yamada, veio mostrar seu novo filme de samurais. The Hidden Blade conta de novo a história do crepúsculo de um samurai e começa quando os norte-americanos já introduziram as armas de fogo no Japão do século 19 e elas substituem as espadas dos samurais. Com a espada, vai-se o Bushido, o código de honra. Mas o herói maduro de Yamada recusa-se a abandonar suas tradições. Por mais político que seja o debate na Berlinale, o festival é de cinema. Como Beckenbauer, astros e estrelas de Hollywood atraem os jornalistas como mosca no mel. Kevin Spacey veio mostrar seu novo filme como diretor. Beyond the Sea integra a programação do Panorama. Conta a história do cantor Bobby Darin. Outro que atraiu muita gente foi Daniel Day-Lewis. Homenageado pelo festival, ele veio para receber seu troféu e apresentar o novo filme, The Ballad of Jack and Rose, dirigido por Rebecca Miller. É um pouco melhor do que o filme de Kevin Spacey. Para concluir, diretores cultuados fazem sucesso nas mostras paralelas, mas aí valem a pena. Fãs de Ventura Pons, o diretor de Anita, vão gostar de saber que Amor Idiota, com Cayetana Guillén Cuervo, é legal. E que o novo Clemens Klopfenstein, Die Vogelpredigt - com Ursula Andress! - é ótimo.* O repórter viajou a convite da organização do festival

Agencia Estado,

16 de fevereiro de 2005 | 15h32

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