Julien Warnand /EFE
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Ken Loach exibe ‘Jimmy’s Hall’, talvez seu último filme, no Festival de Cannes

Aos 77 anos, cineasta já levou todos os prêmios do evento, inclusive a Palma de Ouro

Luiz Carlos Merten, Enviado especial a Cannes - O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2014 | 19h08

Ken Loach já ganhou todos os prêmios no Festival de Cannes: melhor ator, atriz, roteiro, prêmio do júri e, naturalmente, o maior de todos, a Palma de Ouro (por Ventos da Liberdade). Aos 77 anos, ele decidiu que já é tempo de se aposentar e chegou à Croisette com a firme disposição de que Jimmy’s Hall seja (ou fosse) seu último filme. É melhor colocar no passado. É tanta gente a pedir que Loach continue filmando que é bem possível que ele reconsidere sua decisão.

Jimmy’s Hall se assemelha a todos os seus outros filmes, e não apenas no método. É como se Loach e seu cúmplice - o roteirista Paul Laverty - estivessem fazendo sempre o mesmo filme, uma espécie de manual marxista da dialética. O novo filme começa na Irlanda, em 1932 e recua dez anos para contar como, no quadro das lutas pela emancipação da Inglaterra, a Irlanda virou um campo de batalha. Jimmy Gralton volta dos EUA para se ocupar das terras da família. É arrimo da mãe, que perdeu o marido e um filho, o irmão de Jimmy. Ele traz novas ideias da ‘América’ e transforma um casarão - o hall do título - num centro cultural e esportivo que imediatamente atrai os jovens. A Igreja e os grandes proprietários se unem contra ele. Jimmy é taxado como comunista.

Loach faz filmes veristas que se assemelham a documentários, mas são ficções. Pedaços arrancados da própria vida. E ele gosta de trabalhar com a emoção. Em Dois Dias e Uma Noite, os irmãos Dardenne também trabalham com a emoção, mas evitam terminar seu filme com uma nota para cima. Por exemplo, num momento de solidariedade, Sandra, a protagonista (Marion Cotillard), seu marido e uma amiga cantam um rock no carro. O filme poderia terminar ali, mas continua até um final que redimensiona as coisas e coloca um problema para o espectador. É como se a narrativa, do ponto de vista ético, voltasse ao começo.

No desfecho, transforma uma derrota em vitória, também celebrando a solidariedade, mas um letreiro relativiza as coisas. É como se, por mais inspirador que tenha sido o homem, ele queira dizer que seu legado foi maior. Você vai entender quando vir. A que prêmio Loach ainda pode aspirar, nessa quadra de sua vida? O prêmio seria nosso, se não deixasse de filmar.

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