Keira e Ruffalo vivem romance que não desencanta

'Mesmo Se nada Der Certo' é desconjuntado, mas tem belas cenas que resistem ao desacerto geral

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

19 Setembro 2014 | 19h45

 John Carney acredita no amor, mas não em romances. Nos três longas que compõem sua carreira - Apenas Uma Vez, Bachelor’s Walk e Mesmo Se nada Der Certo -, o diretor de origem irlandesa têm acompanhado duplas que flertam com o romance, mas não o encaram. Seus filmes são como coitos interrompidos. Interessantes, mas não chegam lá.

Apenas Uma Vez é sobre casal de músicos que se apresenta na rua e até tenta, mas não consegue engatar um romance. Mesmo Se nada Der Certo é sobre outro casal de músicos. Mark Ruffalo faz um produtor decadente, Keira Knightley é a jovem e talentosa compositora que levou um chute do namorado (e ex-parceiro). Ele virou astro na indústria fonográfica e deslumbra-se justamente com uma executiva da gravadora. Lança a namorada no olho da rua. Ela pede abrigo a um amigo, e ele a leva ao bar em que se apresenta (também é músico).

Uma canção pode mudar a vida das pessoas? É a questão embutida no começo de Mesmo Se nada Der Certo. Acompanhamos o relato do ângulo de Keira, a garota, e de Ruffalo, o produtor musical falido. Em ambos os casos, o ponto de partida, ou chegada, é a hora em que ela, atendendo ao amigo, canta no bar. Sua apresentação desperta um interesse mediano. As pessoas não param de fazer o que estão fazendo. Mas Ruffalo presta atenção em Keira - o espectador, também - e isso faz toda a diferença.

No original, o título é Begin Again, começar de novo, e os dois perdedores vão se apoiar na nova empreitada. Gravam um disco na rua. No processo, Ruffalo se reaproxima da ex-mulher e da filha e o ex de Keira também volta, pedindo arreglo. E ocorre, tão rápida que pode passar despercebida, a cena mais bela do filme. Na verdade, é uma não cena. Aturdidos, Keira e Ruffalo são puxados para direções diferentes. Olham-se e, por um instante, descobrem que sua história de amor não vai ocorrer.

John Carney nasceu em Dublin e, no começo dos anos 1990, foi baixista da banda irlandesa The Frames. Sua primeira experiência audiovisual foi dirigindo os clipes da banda, bem famosa por lá. Carney virou diretor indie, de filmes de baixo orçamento que chamaram a atenção de Judd Apatow. Apadrinhado pelo John Hughes da geração de 40 anos na Hollywood atual, Carney fez Mesmo Se nada Der Certo. O filme tem participações de famosos (Adam Levine e Cee Lo Green, ambos jurados do The Voice). Mistura gêneros e faz guerrilha (a gravação do CD) dentro da produção classe A. Tem charme, mas parece meio desconjuntado. E Keira, uma gracinha, nunca foi mais careteira. 

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