Magdalena Wosinska/The New York Times
Magdalena Wosinska/The New York Times

Keanu Reeves e Alex Winter fazem a festa com Bill e Ted

Atores se encontraram para um terceiro filme, 'Bill & Ted: Encare a Música', que será lançado sob demanda e nos cinemas em 28 de agosto

Dave Itzkoff, The New York Times

20 de agosto de 2020 | 11h00

Nas crônicas da cultura popular do fim do século 20, você encontrará poucos amigos tão excelentes quanto Bill S. Preston e Ted “Theodore” Logan. Os dois idiotas, companheiros de banda do sul da Califórnia, continuaram sempre e fielmente lado a lado, seja se atrapalhando o tempo todo na sua estreia nos cinemas em 1989, com ‘Bill & Ted: Uma Aventura Fantástica’, ou se confundindo numa viagem temporal na sequência de 1991, ‘Bill & Ted: Dois Loucos no Tempo’. Esses filmes ajudaram a trazer uma generosa abundância de gírias para o léxico geral e, ao mesmo tempo, impulsionaram o início da carreira de seus protagonistas, Alex Winter (Bill) e Keanu Reeves (Ted).


Três décadas depois, os atores, ambos com 55 anos, continuam amigos íntimos. Reeves é agora a estrela de franquias como Matrix e John Wick, e Winter é diretor de documentários como Showbiz Kids e o futuro Zappa. Mas eles estão ligados para sempre por causa de Bill e Ted e do fato de que realmente gostam um do outro, como explicaram numa conversa por Zoom no início deste verão.

“Esse negócio é muito pouco constante”, disse Winter. “Você se encontra com alguém no set e já sai falando coisas do tipo: ‘A gente é família’! E, depois, ‘Falou, tchau’. E nunca mais vê essa família de novo”. Mas com Reeves é diferente, Winter disse: “Sinto que ele é meu irmão”.

Reeves disse: “Gostamos da companhia um do outro, dos nossos pensamentos e da nossa visão de mundo. Quando a gente se encontra é meio assim: ‘O que você está pensando?’ ‘Não sei, mas isso é meio engraçado’. ‘Pois é, é meio estranho também’”.

Agora eles estão se encontrando para um terceiro filme, Bill & Ted: Encare a Música, que, depois de um processo de desenvolvimento demorado e às vezes atroz, será lançado sob demanda e nos cinemas em 28 de agosto. O novo filme, escrito por Chris Matheson e Ed Solomon, os criadores de Bill & Ted, e dirigido por Dean Parisot (Heróis Fora de Órbita), pega os personagens-título confusos na crise de meia-idade, ainda perseguindo seu sonho não realizado de unir o mundo com sua música – desta vez com a ajuda de suas filhas, Thea Preston (Samara Weaving) e Billie Logan (Brigette Lundy-Paine).

Reeves e Winter falaram sobre seu vínculo de longa data, suas experiências nos primeiros filmes da franquia Bill & Ted e a realização de Encare a Música. Aqui vão alguns trechos editados da conversa, cara.




 

Vocês dois começaram a atuar quando eram jovens. Já tinham se encontrado antes de fazerem ‘Bill & Ted: Uma Aventura Fantástica’?


KEANU REEVES: Não!

ALEX WINTER: A gente se conheceu no processo de seleção do elenco. Keanu tinha vindo de Toronto para Hollywood. Eu vinha de Nova York.

REEVES: Virei profissional quando tinha 15, 16 anos. Al, da primeira vez que você ganhou para atuar você tinha o quê?, uns 5 anos de idade?

WINTER: 8 anos. 

REEVES: Nós dois crescemos no show business.

WINTER: A gente se deu bem logo no começo. Tínhamos formação e interesses parecidos: a atuação e o drama, as peças de que gostávamos.

REEVES: E o cinema!

WINTER: Quando eles nos disseram que nós dois ficaríamos com os papéis, pensamos: ah, que ótimo que você conseguiu! É que nem entrar numa escola nova, você pensa: tomara que você esteja na minha turma. A vibe era mais ou menos essa.


 

E qual era o espírito quando o filme entrou em produção?


WINTER: Todos os envolvidos eram superjovens. [O diretor] Stephen Herek não tinha nem 30. Chris e Ed eram só uns poucos anos mais velhos do que Keanu e eu. Ninguém tinha ideia do estava fazendo ali.

REEVES: Mas Stephen Herek tinha uma visão muito concreta e todo mundo embarcou. Ninguém ficou para trás. Vamos fazer esse negócio, transformar isso em hiper-realidade. Bill e Ted eram personagens de Chris e Ed, mas eles nos deixaram ter nossa própria voz.


 

Como foi trabalhar com George Carlin, que interpretou Rufus, seu guardião da viagem no tempo?


WINTER: Não sabíamos quem seria o Rufus até o começo das filmagens, era assustador. Tinha alguns nomes circulando – eram ótimos atores, mas não eram a pessoa certa para aquele papel. Scott Kroopf [um produtor da franquia Bill & Ted já tinha trabalhado com Carlin, então foi aí que ele entrou. Keanu e eu ficamos maravilhados quando soubemos que seria o George. Ele era uma pessoa extremamente pé-no-chão e realista fora das câmeras. E eu diria que foi muito generoso conosco. A gente sabia muito bem o que significava a presença dele no set.

REEVES: Éramos jovens e tínhamos uma boa formação, mas foi muito bom contar com pessoas que nos ajudaram a crescer. Nós nos sentimos muito privilegiados.


 

O lançamento do filme teve um impacto perceptível nas suas vidas?


REEVES: Eu fiquei feliz só de saber que o filme ia mesmo ser lançado.

WINTER: A DEG [a primeira distribuidora do filme] foi à falência e o filme ficou arquivado por um ano. As pessoas diziam que não ia sair nunca, nunca, nunca. Então seguimos a vida e a carreira. Pouco depois, uma empresa chamada Nelson Entertainment comprou o filme numa liquidação. Fizeram um teste e a recepção foi incrivelmente boa. Eu estava gravando um vídeo da banda Butthole Surfers em Austin no fim de semana em que lançaram o filme. Meu empresário me ligou para falar que era para eu comprar aquela edição da revista Variety. Tinha uma foto bem cafona minha e do Keanu sentados em cima de uma pilha gigante de dinheiro. Lembro que pensei: bom, alguém está ganhando dinheiro com isso. Bom para eles.

REEVES: Não sei onde estava quando o filme foi lançado. Depois de um tempo, as pessoas gritavam para mim na rua: “Excelente! Seja excelente!”. Era uma coisa muito carinhosa.

WINTER: Naquele verão passei as férias na França, ouvia as crianças na Champs-Élysées patinando e falando que nem Bill e Ted, com forte sotaque francês. Eu ficava, tipo, oh, caramba, esse negócio está causando impacto mesmo.

REEVES: Nossas vidas pessoais mudaram um pouco. Quando saíamos para jantar juntos, as pessoas diziam: “Uau! Caras!”. E a gente ficava, “É isso aí, é isso aí”. “A festa continua, caras!” “É isso aí!”.

WINTER: Eu me lembro de uma vez, um cara veio mandando um air-guitar de joelhos, se arrastando pelo chão do restaurante, até chegar na mesa onde a gente estava. Aí eu falei para o Keanu: você já entendeu que isso – não importa o que aconteça – nunca mais vai parar, né?



 


 

Vocês pensaram duas vezes antes de fazer a sequência – tipo, se fizermos esses personagens de novo, vamos ficar ligados a eles para sempre?


WINTER: Essa porta não iria se fechar, de um jeito ou de outro. Quer dizer, poderia ser pior. Certa vez, eu estava andando na rua com Alan Rickman, aí um fã veio falar com a gente e depois o Alan disse: “Você tem muita sorte de ser conhecido por interpretar o Bill, e não o terrorista Hans Gruber. As pessoas vêm falar comigo para cuspir na minha cara. Elas vêm falar com você para dizer que te adoram”.


 

O set de ‘Bill & Ted: Dois Loucos no Tempo’ tinha uma energia diferente?


REEVES: Eu tinha acabado de passar 88 dias interpretando Johnny Utah [em Caçadores de Emoção]. E logo depois já estava fazendo o Ted. Então foi meio estranho.

WINTER: E Garotos de Programa.

REEVES: É verdade! Então foi Caçadores de Emoção, Garotos de Programa e logo depois Bill & Ted: Dois Loucos no Tempo. Me desculpem. Já estou ficando meio doidão.

WINTER: Uma parte [de Bill & Ted: Dois Loucos no Tempo] surgiu do fato de que, no primeiro filme, Keanu, eu, Chris e Ed ficávamos zoando atrás das câmeras, sobre todo tipo de assunto. E agora eles estavam escrevendo para nós, o que era uma vantagem. A gente podia fazer uma coisa mais física, mais complicada linguisticamente e com um enredo muito mais maluco.


 

Como vocês se sentiram quando viram outras comédias desse gênero 'dupla de caras' que vieram depois de ‘Bill & Ted’, como ‘Quanto Mais Idiota Melhor’ e ‘Beavis and Butt-Head’?


WINTER: Acho que as pessoas fazem uma cronologia errada, a nosso favor. Não creio que seja uma questão tipo ovo-ou-galinha. Acho que o Zeitgeist vomitou todas essas coisas ao mesmo tempo. As comparações realmente vieram depois.


 

Por que demoraram tanto para fazer ‘Bill & Ted: Encare a Música’?


WINTER: Oh... Por onde começar?

REEVES: É show business, né? Muitas luas atrás, os escritores tiveram uma ideia. E nós dissemos, sim, é uma boa ideia. Vamos tentar fazer esse negócio. Aí contratamos um produtor e encontramos um diretor.

WINTER: [Faz um barulho estridente] É um arranhão no disco. Para os fãs, era um filme para ver sem o cérebro. Para o mercado, os filmes só perdem o cérebro depois de lançados.

REEVES: Foram muitos... digamos, desafios criativos e executivos para trazer os personagens de volta às telas.


 

O filme sempre se centrou na ideia de Bill e Ted crescerem e virarem perdedores de meia-idade?


REEVES: Esta vem sendo a premissa central desde o começo – é claro que era isso que iria acontecer.

WINTER: Este era o coração, o motor cômico que nos impulsionou desde o começo. De certa forma, quanto mais demorávamos para voltar, mais engraçado ficava.

REEVES: Acho que dá para dizer que as futuras versões de Bill e Ted estão vivendo as consequências do nosso fracasso no presente. Para mim, sempre foi uma delícia atuar no lado negro, fazer as versões mais rabugentas. Adorei interpretar o Ted do Mal em Dois Loucos no Tempo. Era muito engraçado.


 

Como foi a experiência de trabalhar com Samara Weaving e Brigette Lundy-Paine, que interpretam suas filhas e que partem em sua própria aventura neste filme?


REEVES: Elas fizeram um trabalho incrível. Deram uma olhada nos filmes anteriores para ver como seriam, mas criaram sua própria dinâmica. Elas têm um senso de moda muito peculiar. São mais modernas. Estão conectadas a nós, mas são diferentes.

WINTER: Elas são realmente muito originais. Interpretaram as personagens como duas grandes amigas que cresceram juntas desde o nascimento. Tiraram uma página de nós, porque são nossas filhas, mas não tentaram ser iguais a nós, nem de longe. Pegaram um pouco das coisas superficiais, apenas algumas nuances que ajudaram a conectar todos nós, e encararam as personagens de uma forma muito autêntica.


 

Sem querer dar muito spoiler, a cena pós-crédito de ‘Encare a Música’ parece revelar o tamanho de sua devoção aos papéis e um ao outro...


REEVES: Oh, que legal que você curtu!

WINTER: E foi a última coisa que a gente filmou, o que foi ótimo. A maquiagem era demorada e excruciante, mas fora isso, no fim das contas, foi muito bom. Foi o nosso martini.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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