Keanu Reaves, entre Deus e o Diabo

Os fãs de Hellblazer, gibi que traz as aventuras de John Constantine, tiveram um choque ao saber que o anti-herói, inspirado em Sting, seria interpretado por Keanu Reeves. Tiveram um choque maior ainda ao ver o personagem, habitualmente desarmado, empunhando aquele trabuco em forma de cruz. Mas, no fim, deu tudo certo - pelo menos nas bilheterias dos EUA. Todas as mudanças em Constantine foram para adaptar o personagem à persona de Keanu Reeves. E, se há coisa que fanzine gosta mais do que HQ, é de Matrix, a trilogia dos irmãos Andy e Larry Wachowski com Keanu como o predestinado Neo. Keanu Reeves é o astro do longa de estréia do diretor de videoclipes Francis Lawrence. A informação é, em si, redundante. Com aquele ritmo e aquele visual, Constantine só poderia ser feito por um diretor de videoclipes. O filme é a maior aposta da editora DC Comics no cinema. Depois do fiasco de Mulher-Gato, a editora jogou o tudo ou nada para tentar quebrar a hegemonia da Marvel Comics nos filmes, sedimentada por êxitos tão espetaculares quanto os das franquias Homem-Aranha e X-Men. Não foi uma transposição fácil. Há mais de dez anos falava-se, nos bastidores de Hollywood, numa adaptação das histórias de Alan Moore, um papa dos quadrinhos. Inicialmente, o filme deveria chamar-se Hellblazer, como o gibi. Só depois ganhou o nome do protagonista, um sujeito que enxerga anjos e demônios que caminham entre os humanos, na Terra, e cujo destino é salvar o mundo, quer queira quer não. O mais curioso é que o maior inimigo de Constantine não é a legião de anjos caídos comandada por Lúcifer, mas o cigarro, que comeu seus pulmões e, por isso, ele está morrendo de câncer. No fim, a vingança do Diabo, interpretado pelo sueco Peter Stormare, de Minority Report - A Nova Lei, é dar-lhe pulmões novos, para que ele comece tudo de novo - e, a propósito, não se levante quando começarem os créditos de encerramento, pois há uma pirueta na última imagem, que adquire o caráter de conclusão da história. Na trama de Constantine, anjos e demônios andam soltos na Terra. Não podem interferir na vida dos humanos, mas podem cooptá-los para o bem e o mal. Esse equilíbrio precário é rompido quando o Diabo se apossa da Lança do Destino, artefato que perfurou o corpo de Cristo na cruz. Com esse poder, o Diabo só precisa de uma sensitiva (Rachel) para gerar seu filho. Constantine é a arma dos humanos contra as legiões do mal, que incluem o arcanjo Gabriel, interpretado por Tilda Swinton. O personagem das Hqs - John Constantine é daquele tipo de personagem que já é criado com aura cult. No caso dele, nasceu com a cara e o jeitão inspirados no belo semblante do cantor Sting, em 1985, na época de ouro do The Police. Apareceu pela primeira vez como coadjuvante nas histórias da revista Monstro do Pântano, nas mãos do mestre das HQs Alan Moore e, logo, ganhou título próprio, Hellblazer. O Constantine dos quadrinhos é muito mais vivaz do que o Constantine-Neo, que beira o carolismo. Nas HQs, ele é um inglês de Liverpool, que estrangulou seu irmão gêmeo no útero e matou a mãe no parto. Foi bandleader, interno de hospício e mandou uma garota para o inferno por engano. Tem um humor ácido, um jeito intrigante de transitar entre o Bem e o Mal, conforme seus interesses. Já o Constantine de Keanu Reeves persegue o passaporte para o Céu. Seu destino é o Inferno, porque tentou suicídio e, pelo dogma católico, terá de amargar eternamente nas labaredas. Como nos quadrinhos, está às voltas com um câncer de pulmão em estágio terminal - nas HQs é mais um pretexto para desafiar o destino; no cinema, pena, virou propaganda antitabagista.(Patrícia Villalba)

Agencia Estado,

11 de março de 2005 | 17h09

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